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Economia brasileira resiste ao pessimismo e ao tarifaço com dados robustos
Publicado em 15/08/2025 1:15 - Semana On, DW, ICL Notícias
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O presidente Lula celebrou nesta semana a marca de 400 mercados internacionais abertos aos produtos do agronegócio brasileiro durante o seu atual mandato. A informação, confirmada pelo ministro Carlos Fávaro (Agricultura e Pecuária), foi divulgada durante o ato de assinatura do Plano Brasil Soberano, na quarta-feira (13).
“Eu acabo de ser informado pelo Fávaro que, nesse momento em que eu estou chegando à tribuna, nós estamos fazendo 400 acordos em dois anos e meio de governo. Vendendo carne de boi e miúdo de boi para as Filipinas”, anunciou o presidente.
Na sequência, Lula apontou que continuará a buscar acordo com os Estados Unidos sobre o tarifaço de 50%, porém demonstrou com o anúncio que o Brasil está atento e buscando alternativas para os seus produtores, sejam do agro ou da indústria.
“Será assim, a gente vai continuar, através do (Geraldo) Alckmin, do (Fernando) Haddad, do Mauro (Vieira), do Fávaro, através de todos os ministros que têm setores com relações com Estados Unidos, vamos continuar teimando em negociação, porque gostamos de negociar”, disse Lula, ao ressaltar que não quer conflito com nenhum país e ainda busca diálogo com representantes de Donald Trump.
Com a abertura comercial das Filipinas para os cortes de carne bovina, o Brasil alcançou uma expressiva marca de novos mercados abertos aos produtos nacionais em um momento em que exportadores do país afetados pelo tarifaço buscam alternativas aos Estados Unidos para destino de sua produção.
A carne bovina é um dos alimentos penalizados com a tarifa de 50%. Assim, o esforço do governo em buscar alternativas já pode ter apresentado resultados – pelo menos foi o que o presidente quis demonstrar. Outro produto alimentício impactado é o café, que também poderá aportar em países asiáticos com o encarecimento do envio para os norte-americanos. A China já habilitou 183 novas empresas brasileiras para exportarem para o país.
As aberturas de mercados computadas entre 2023 a agosto de 2025 resultaram em US$ 1,73 bilhão adicionais em exportações.
Novos mercados
De acordo com Lula, ele manterá seu esforço para apresentar os produtos brasileiros ao mundo. Nesta semana disse ter conversado com Xi Jinping, presidente da China, sobre carne de frango brasileira. Dessa maneira, entende que se os norte-americanos não quiserem comprar os produtos brasileiros, devemos buscar alternativas.
“Vamos continuar vendendo e, se os Estados Unidos não querem comprar, vamos procurar outro país. Pode se preparar, Alban [presidente da Confederação Nacional da Indústria], porque eu vou para a Asean [Conferência da Associação de Nações do Sudeste Asiático] em outubro, para vender coisas do Brasil. Pode se preparar, que em janeiro eu já marquei com a Índia, vamos fazer um grande evento e eu quero levar pelo menos 500 empresários brasileiros para a Índia”, indicou Lula.
Em conversas com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, Lula articula uma maior integração em resposta ao tarifaço. O país asiático, assim como o Brasil, deverá ser um dos mais atingidos pelas tarifas anunciadas por Donald Trump, que também quer impor à Índia uma tarifa de 50%.
Segundo Lula, o Brasil pode firmar negócios com o país de Modi com ênfase no setor de fármacos, defesa, aeroespacial e de inteligência artificial.
“Em vez de ficar chorando daquilo que nós perdemos, vamos procurar ganhar outros lugares. O mundo é grande, o mundo está ávido para fazer negociação com o Brasil. Todo mundo sabe que nós somos do bem e que não queremos brigar com ninguém, que aceitamos concessões, mas a gente não merecia isso. E o que é grave é que não foi só conosco. Muita gente dizia que a Índia é muito pró-americano e eles taxaram em 50%. Olha, o que leva a isso, eu posso dizer para vocês que não é comercial”, acusa Lula, que entende a postura da Casa Branca como uma tentativa de enfraquecer o multilateralismo internacional.
Plano contra tarifaço de Trump drena folga fiscal do governo
Em meio ao tabuleiro instável da geopolítica comercial, o governo Lula moveu suas peças contra o “tarifaço” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: anunciou um pacote de R$ 30 bilhões em medidas para apoiar exportadores e conter os danos na economia brasileira, ampliando os gastos públicos e deixando menos margem de manobra para as novas medidas.
O plano, batizado de Brasil Soberano, responde às sanções definidas por Trump como pressão contra o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe de Estado.
“Com o Plano Brasil Soberano, o governo federal não está apenas reagindo a uma ameaça imediata: está reconstruindo e fortalecendo o sistema nacional de financiamento e seguro à exportação, para que o país seja mais competitivo e menos vulnerável a esse tipo de medida no futuro”, afirmou, em nota, o governo.
Além de não aplicar tarifas recíprocas em produtos norte-americanos, a estratégia combina injeção de crédito, estímulo tributário e medidas emergenciais – em uma tentativa de manter empregos e não desestabilizar a já estressada meta fiscal, que tenta zerar o déficit público neste ano.
Impacto de R$ 9,5 bilhões
Segundo o governo, dos R$ 30 bilhões anunciados, o impacto primário previsto nas contas públicas será de apenas R$ 9,5 bilhões, distribuídos entre o Reintegra (Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras), e Fundos Garantidores para financiar pequenos e médios exportadores.
O Reintegra devolve aos exportadores brasileiros parte dos tributos pagos ao longo da cadeia produtiva na forma de crédito. O governo informou que o programa elevará em três pontos percentuais o ressarcimento de tributos às empresas afetadas, limitado a R$ 5 bilhões. A medida valerá até o fim de 2026, quando passarão a vigorar dispositivos da Reforma Tributária que já preveem mecanismos semelhantes de restituição.
Os outros R$ 4,5 bilhões de impacto virão do Fundo de Comércio Exterior (FGCE), o de Investimentos (FGI), do BNDES, e o destinado a Operações (FGO), do Banco do Brasil, voltados prioritariamente ao acesso de pequenos e médios exportadores.
Esse montante será aportado nos fundos para cobrir parte do risco dos empréstimos a pequenos e médios exportadores. Com a garantia dos fundos, os bancos podem liberar mais crédito, com juros menores e prazos mais longos, ampliando o acesso ao financiamento e multiplicando o efeito do aporte inicial.
Já os cerca de R$ 20 bilhões restantes serão remanejados de linhas de crédito estruturadas do Fundo Garantidor de Exportações (FGE), que deverá ser reestruturado. Hoje, o fundo funciona como um lastro para dar cobertura às garantias prestadas pela União a empresas que vendem produtos ao exterior.
Esses recursos são utilizados, por exemplo, por meio do Seguro de Crédito à Exportação (SCE), mecanismo criado para resguardar exportadores e instituições financeiras contra o não pagamento por parte de importadores estrangeiros.
Com a nova MP, o Fundo de Garantia à Exportação (FGE) será reformulado para que todo o setor exportador possa acessar esses recursos para financiar suas operações, e não apenas em situações de risco de inadimplência. A prioridade será para empresas com faturamento fortemente dependente das compras dos Estados Unidos, e o acesso às linhas ficará condicionado à preservação do número de empregos.
Impacto fiscal
Para Felipe Salto, ex-secretário da Fazenda de São Paulo e economista-chefe da Warren Investimentos, será necessário acompanhar se o impacto primário de cerca de R$ 10 bilhões estará sujeito às limitações do arcabouço fiscal – o que preocupa os agentes do mercado.
“O ideal seria não excluir tais valores do cômputo da meta, mas sim utilizar a banda de tolerância de 0,25% do PIB para absorver tais choques. Cabe notar que, em nosso entendimento, não se pode excluir um gasto da meta fiscal por meio de Medida Provisória”, disse.
O arcabouço fiscal, criado para dar mais previsibilidade às contas públicas e que busca manter a dívida do país sob controle, prevê superávit de 0,5% do PIB em 2025 e 1% em 2026. Ele, porém, possui uma margem de tolerância de 0,25% do PIB, citada por Salto.
Apesar da tentativa de ficar no azul, o déficit primário projetado para 2025 ainda é de R$ 26,3 bilhões, cerca de R$ 5 bilhões acima do limite inferior da margem estabelecida pela meta fiscal. Em junho de 2025, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) foi de 76,6% do PIB. A projeção do Ministério da Fazenda é que ela poderá chegar a 84% em 2028.
Para Murilo Viana, mestre em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em finanças públicas, apesar de os gastos extraordinários serem uma das medidas aplicadas em todo o mundo contra o aumento das tarifas impostas por Trump, o Brasil tem uma margem pequena de manobra dado essa alta da dívida pública.
“O governo já está batendo no limite de despesas [previsto no arcabouço] e, por isso, qualquer medida que leve a deterioração das contas públicas acaba impactando e fazendo com que o governo precise cortar gastos de algum lado, em um quadro onde há dificuldades políticas para isso”, afirma.
Por isso, o temor de economistas ouvidos pela DW é de que os benefícios anunciados se tornem duradouros, assim como o que ocorreu com alguns planos durante a pandemia do covid-19. O Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), criado para socorrer empresas do setor, e que ainda hoje faz parte do pacote de cerca de R$ 20 bilhões de isenções fiscais.
“No Brasil, sabemos como começa e não como termina. Por isso, existe a preocupação de ainda que o programa seja totalmente diferente [dos lançados na época da pandemia], há o risco, sim, de que o programa acabe perdurando”, diz Viana. “Existe um risco de ter uma percepção [do mercado] de virada de chave por parte do governo na véspera do período eleitoral, no sentido de burlar a regra fiscal, e isso pode gerar algum estresse, mas ainda temos que ver como de fato vai ser implementada no MP”, completa.
Câmbio, inflação e eleição
Além disso, para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o impacto de mais gastos no câmbio e na inflação tendem a ser moderados, dado que os juros básicos da economia já estão em 15% ao ano.
“Os efeitos sobre câmbio e inflação vão depender da reação dos investidores. Caso cresça a desconfiança quanto à capacidade do governo de reduzir o endividamento, a tendência é de juros mais elevados, câmbio mais volátil e inflação persistente acima da meta. O governo ainda pode adotar medidas adicionais, como venda de ativos ou privatizações, para amenizar essa pressão”, conta.
Para ele, contudo, o foco imediato do governo é preservar empregos. “Lula sabe que seu eleitorado sente o impacto da inflação, sobretudo nos alimentos, mas considera o emprego o fator mais determinante. Se conseguir manter o nível de ocupação, dará um passo importante para 2026, ano eleitoral”, completa.
Economia brasileira resiste ao pessimismo e ao tarifaço com dados robustos
Apesar da pressão do mercado financeiro, das incertezas externas provocadas pelas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do cenário de juros elevados, a economia brasileira tem mostrado resiliência em 2025. O desempenho do PIB (Produto Interno Bruto), do mercado de trabalho, da produção agropecuária e do setor de serviços aponta uma trajetória sólida, embora não imune a riscos.
Veja abaixo um panorama analítico dividido entre os principais pontos positivos e os desafios ainda presentes na economia brasileira.
O que vai bem na economia brasileira
O PIB brasileiro cresceu 1,4% no segundo trimestre de 2025, acima das projeções do mercado (+0,9%). A indústria e o setor de serviços puxaram o desempenho. No acumulado de 12 meses, o avanço é de 2,5%, colocando o Brasil entre os países que mais cresceram no G20 (grupo dos 20 países mais ricos do mundo).
A Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda revisou a estimativa de crescimento para 2025 de 2,4% para 2,5%. O mercado financeiro, segundo o último Boletim Focus do Banco Central, projeto a alta do PIB em 2,21% este ano.
A taxa de desemprego no segundo trimestre de 2025 chegou a 5,8%, a menor da série iniciada em 2012. Comparada ao primeiro trimestre de 2025, essa taxa caiu em 18 das 27 unidades da federação e ficou estável nas outras nove, segundo divulgação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) feito nesta sexta-feira (15). Pernambuco (10,4%), Bahia (9,1%) e Distrito Federal (8,7%) mostraram as maiores taxas, enquanto as menores foram em Santa Catarina (2,2%), Rondônia (2,3%) e Mato Grosso (2,8%).
O país também gerou 1,22 milhão de empregos formais no primeiro semestre, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), com destaque para mulheres e pessoas inscritas no CadÚnico (Cadastro Único).
O programa Bolsa Família registrou, em julho, a saída de 958 mil famílias, ou cerca de 3,5 milhões de pessoas, em razão do aumento da renda domiciliar. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), o motivo predominante foi o ingresso em empregos formais ou o crescimento de pequenos negócios, reflexo da recuperação do mercado de trabalho e de políticas de inclusão produtiva.
Com isso, o número de famílias beneficiárias do Bolsa Família caiu de 20,5 milhões em junho para 19,6 milhões em julho — o menor desde a reformulação do programa, em março de 2023.
A estimativa da safra nacional para 2025 é de 340,5 milhões de toneladas, alta de 16,3% em relação a 2024 — o maior volume da série histórica do IBGE. Isso impulsiona a economia rural e contribui para o dinamismo do transporte de cargas, setor que liderou o crescimento de serviços em junho.
Segundo ranking da Austin Rating, o real foi a quarta moeda que mais se valorizou em 2025 frente ao dólar, com alta acumulada de 10,1%, reflexo da política monetária restritiva e melhora na percepção de risco. A valorização ajuda a conter pressões inflacionárias e reduz custos de importações.
Apesar de choques como o encarecimento da energia elétrica, a inflação oficial medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), no acumulado nos últimos 12 meses, está em 5,23%, e a projeção para o ano caiu para 4,9%. A inflação de julho foi de 0,26%, puxada por itens pontuais. O mercado espera queda gradual nos preços, apesar de o índice ainda estar acima do teto da meta (4,5%) definida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).
Além disso, dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que a queda de 0,69% nos preços dos alimentos consumidos no domicílio foi o principal fator de alívio da inflação de julho, beneficiando especialmente os mais pobres, que gastam mais com alimentação. O movimento ajudou a neutralizar o impacto do reajuste de 3,0% nas tarifas de energia elétrica, que pressionou o grupo habitação.
Os economistas Joseph Stiglitz e Paul Krugman criticaram as tarifas unilaterais impostas por Donald Trump ao Brasil e elogiaram a postura firme do presidente Lula. Ambos destacaram o compromisso do país com o Estado de Direito e defenderam retaliações como resposta à ofensiva norte-americana.
O que ainda preocupa na economia brasileira
A inadimplência atingiu 76,6 milhões de brasileiros, o maior patamar desde 2016. Houve aumento das dívidas com instituições financeiras e serviços não essenciais. Nos condomínios, a inadimplência subiu para 17% no 1º trimestre, impulsionada pela alta das taxas condominiais.
Programas do governo federal como o Desenrola Brasil e o Consignado CLT foram criados para dar fôlego financeiro a famílias endividadas.
Criado pelo governo federal, o Desenrola Brasil renegociou dívidas com condições facilitadas. Já o Consignado CLT é uma linha de crédito com desconto direto na folha de pagamento para trabalhadores com carteira assinada. Ele oferece juros mais baixos e a possibilidade de substituir dívidas de alto custo por uma dívida mais barata e previsível
Apesar da alta de 0,1% em junho, a produção industrial ainda não recuperou totalmente o recuo acumulado em abril e maio. O setor está 15,1% abaixo do pico registrado em 2011, e há sinais de arrefecimento no ritmo, com oscilações mensais e pressão dos custos.
A Nova Indústria Brasil (NIB) é a política industrial lançada pelo governo federal em janeiro de 2024 com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento da indústria nacional até 2033. O programa prevê investimentos de R$300 bilhões até 2026, distribuídos em financiamentos, recursos não reembolsáveis e participações acionárias.
Na última reunião, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central interrompeu o ciclo de alta da taxa Selic, que permanece em 15% ao ano, maior patamar em duas décadas. O Banco Central mantém postura cautelosa diante da inflação persistente e do risco externo trazido pelo “tarifaço” dos EUA. A política de juros altos inibe o crédito, aumenta a dívida pública, e pesa sobre empresas e famílias.
A taxação de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA, imposta pelo governo Trump, gera preocupação sobre os impactos no comércio e na confiança dos investidores. O BC admite incertezas nos efeitos agregados da medida, enquanto o governo busca uma resposta firme.
Nesta semana, o governo do presidente Lula (PT) anunciou um plano de R$ 30 bilhões para ajudar as empresas atingidas pelo tarifaço.
Apesar disso tudo, a economia brasileira segue surpreendendo positivamente, sustentada por fundamentos sólidos: emprego, agropecuária, serviços e câmbio favorável.
Para o governo, o desafio será manter o ritmo de crescimento com estabilidade, enfrentando choques externos e internos sem perder o rumo.
https://semanaon.com.br/poder/stf-julga-bolsonaro-e-cupula-militar-a-partir-de-2-de-setembro/
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