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Poder

Candidatura de Flávio Bolsonaro é ameaça real à democracia

Grande mídia tem tratado o 01 com benevolência, mas o bolsonarismo moderado não existe

Publicado em 26/03/2026 9:10 - João Filho e Fabiana Moraes - Intercept_Brasil

Divulgação Intercept_Brasil

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Todos os sinais indicam que os grandes grupos de mídia estão dispostos a contribuir com a repaginação do candidato Flávio Bolsonaro. Mas essa candidatura precisa ser tratada como ela é: uma ameaça real à democracia e à soberania brasileira.

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Ao contrário do que dizem certos analistas políticos de araque, o bolsonarismo moderado não existe. É uma ficção criada para facilitar a aceitação desse grupo de extremistas, cujo caráter autoritário e fascistóide é intrínseco.

Flávio Bolsonaro herdou o trono do bolsonarismo do seu pai e virou a maior liderança da gangue golpista fora do sistema carcerário. Ele é o candidato representante do grupo político que tentou tomar de assalto a democracia e incitou uma das maiores potências econômicas e bélicas do mundo, os Estados Unidos, a punir o Brasil. A sua candidatura é uma séria ameaça ao país e é — ou deveria ser — uma obrigação do jornalismo tratá-la com o devido rigor.

Até a ombudsman da Folha de S.Paulo já percebeu. Flávio Bolsonaro perdeu o sobrenome nas manchetes e virou apenas “Flávio”. E não é só na Folha que ele tem sido tratado com benevolência.

Tão golpista quanto

Mas houve exceções, como o comentarista político da Globonews Merval Pereira, que surpreendentemente destoou da boiada e falou o que todos deveriam estar falando: “Tem uma coisa muito clara aí: o bolsonarismo já tentou dar um golpe, portanto, isso não vai mudar. Por que vai mudar? Por que o filho do golpista vai virar um democrata? Não há porquê. Então, a chance de o Flávio se eleger presidente e tentar dar um golpe existe. A chance de Lula se eleger presidente e tentar dar um golpe não existe.” Trata-se de uma constatação elementar. Não é preciso ser um esquerdista para chegar a essa conclusão. Basta ser minimamente honesto com os fatos. As coisas precisam ser chamadas pelo nome.

“Flávio” é tão golpista que, antes mesmo de ser escolhido candidato, afirmou que seu pai só apoiaria uma candidatura que prometesse o indulto para tirá-lo da cadeia. Mais que isso: ele defendeu abertamente um golpe no Supremo Tribunal Federal, o STF, em 2027 caso o tribunal não acate o indulto.

O senador é também um entreguista de mão cheia e, assim como seu irmão Eduardo Bolsonaro, defendeu que o Brasil deveria ceder plenamente aos desejos do governo americano, ao falar, em julho do ano passado, sobre o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Caso contrário, segundo ele, poderíamos estar sujeitos a ser bombardeados como Hiroshima e Nagasaki.

Quintal do Tio Sam

É esse o nível de sabujice do candidato da extrema direita. A soberania está em jogo, e a escolha do próximo presidente será decisiva para o futuro do país. Não há dúvidas de que Trump irá interferir em seu favor como fez em Honduras e na Argentina. O risco de virarmos o principal quintal do Tio Sam na América do Sul é real.

Além de golpista e entreguista, “Flávio” também sempre teve fortes ligações com o crime organizado. Seu gabinete de deputado estadual virou cabide de emprego para os parentes de Adriano da Nóbrega, chefe da milícia Escritório do Crime, que é um notório grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro. Esse passado nunca é lembrado no noticiário, apesar de ser um contexto fundamental para toda notícia relacionada a ele.

Assim, vai se criando a imagem de que o filho mais velho de Jair é mais sensato e equilibrado do que seu pai. Ele seria, digamos assim, um candidato democraticamente mais palatável que o pai. É exatamente esse o objetivo da candidatura Flávio Bolsonaro: vender a imagem de um integrante da família Bolsonaro diferenciado dos demais.

Normalização do golpismo

A imprensa tem contribuído com isso ao normalizar um candidato golpista, entreguista e com passado de envolvimento com milicianos. Na prática, está se concedendo uma anistia moral para o grupo político que representa o golpismo. Eles podem ter o seu próprio candidato e voltar a ameaçar a democracia novamente.

É verdade que quase metade do eleitorado está predisposta a apoiar uma candidatura golpista em um segundo turno contra Lula. É triste ter que admitir que a candidatura de Flávio Bolsonaro é juridicamente legítima e endossada por parte relevante da população. Imagino que não seja fácil para quem fatura com cliques contrariar uma fatia tão grande da audiência. Só que bom jornalismo não se faz a reboque dos sentimentos do povo, mas da realidade dos fatos.

É preciso coragem. Falas como a de Merval Pereira devem ser repetidas, por mais que isso desagrade o patronato. É preciso deixar claro que Flávio Bolsonaro é um candidato farsante, que até agora não apresentou um projeto para o país. É só a velha ladainha extremista e fascistoóide de sempre. Não há uma ideia inovadora ou uma proposta concreta para nenhum setor importante. Claro, ele não tem compromissos com o povo, apenas com Trump, os golpistas e os milicianos.

Não é razoável tratar um sujeito desse nível como um candidato como os outros. Quanto mais nos distanciamos na linha do tempo do 8 de janeiro, mais vai se normalizando o golpismo. A população deve ser lembrada, a todo momento, que esse postulante à presidência da República representa os golpistas, os milicianos e os interesses dos EUA. Não é apenas uma obrigação jornalística, mas uma questão de sobrevivência. Não há jornalismo onde não há democracia. Os profissionais do jornalismo, sejam de esquerda ou direita, têm a obrigação moral de militar pela democracia. Se “Flávio” vencer a eleição, há grandes chances de vermos jornalistas ocuparem o lugar dos golpistas na cadeia.

A maquiagem da imprensa para suavizar o ‘Zero Um’

“O único problema do senador flávio qual é? sobrenome, né?”, disse o então vice-presidente da República, Hamilton Mourão, quando estava cercado por jornalistas no dia 22 de janeiro de 2019. Fazia menos de um mês que ele havia assumido o cargo.

Três dias antes, o Jornal Nacional havia divulgado um relatório elaborado em dezembro de 2018 pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, que detectou movimentações financeiras atípicas entre junho e julho de 2017. O documento apontava 48 depósitos de R$ 2 mil em dinheiro no autoatendimento de uma agência bancária da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj, em uma conta de Flávio Bolsonaro, somando R$ 96 mil.

Na época em que a notícia saiu, ele já havia deixado o cargo de deputado estadual e tinha sido eleito senador pelo extinto PSL. Nem bem o governo de extrema direita começara e já tinha uma bomba caindo no meio do Palácio do Planalto.

Sete anos se passaram e a fala de Mourão está mais atual que nunca. Reparem aí: o sobrenome do senador (agora, do Partido Liberal) simplesmente desapareceu das manchetes de veículos como FolhaGloboExameVejaCNN, etc. Assim, ao se tornar pré-candidato ao cargo de presidente da República, o “Zero Um” passou a ser tratado apenas como “Flávio”. Simplesmente Flávio. Candidamente Flávio. Mimosamente Flávio.

Você vai ouvir que é uma questão técnica, editorial; que é para diferenciar o filho do pai; que é porque é mais fácil inserir um nome mais curto nas manchetes, tem menos caracteres… Bem, se a questão fosse essa, o noticiário deveria ter estampado simplesmente “Jair” em suas matérias esses anos todos, concordam?

Jair: 4 letras.

Flávio: 6 letras.

¯\_()_/¯

Talvez acompanhar os números nos ajude a entender a razão dessa operação política. Pesquisas realizadas no ano passado, em abril, mostraram que o nome Jair Bolsonaro era ali um dos mais rejeitados do país. Levantamento do Datafolha indicou então que 67% dos brasileiros eram contra uma eventual candidatura de J. Bolsonaro à Presidência (ele insistia em se dizer candidato, apesar de inelegível).

Em outro levantamento do mesmo instituto, divulgado em dezembro do ano passado, Jair Bolsonaro aparecia com 45% de rejeição, um dos índices mais altos entre lideranças políticas testadas. Lula tinha 44% e Flávio Bolsonaro, 38%. Levando em consideração que Lula já está em seu terceiro mandato e o “Zero Um” ainda está só na vontade, convenhamos que é muita rejeição para quem nunca colocou uma faixa presidencial.

Significa dizer que Bolsonaro não é apenas um sobrenome, mas pode ser um grande problema eleitoral. É aqui que entra a engenharia de parte da imprensa brasileira.

‘Ao retirar o sobrenome das manchetes, o que se produz não é apenas economia de caracteres.

Ao retirar o sobrenome das manchetes, o que se produz não é apenas economia de caracteres. Produz-se um deslocamento e apagamento simbólico, uma vez que “Flávio Bolsonaro” carrega uma história, um campo político, uma genealogia de escândalos, investigações e radicalização.

Já “Flávio”, não.

“Flávio” é quase um primeiro nome de colega de escola, de vizinho de condomínio, de um boy gente boa qualquer. Simplesmente Flávio. Candidamente Flávio. Mimosamente Flávio.

Com “Flávio”, ficam mais longe do pré-candidato nomes como o de Adriano Magalhães da Nóbrega, miliciano do Escritório do Crime, morto por policiais militares na Bahia em 2020. Quando era deputado estadual, o “Zero Um” empregou em seu gabinete a mulher e a mãe do ex-policial, figura exaltada por ele, a quem concedeu, em 2005, a Medalha Tiradentes e disse aqui, no Roda Viva, que se tratava de um policial exemplar.

Com “Flávio”, fica bem distante o curioso caso da loja de chocolates, empresa do “Zero Um” que recebia depósitos sucessivos com exatamente os mesmos valores em reais, todos abaixo de R$ 10 mil (uma vez que depósitos a partir desse valor precisavam ser informados às autoridades financeiras).

Com “Flávio”, fica longe a acusação de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita feita pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Quatro meses depois disso, lemos em vários veículos da imprensa que o senador comprou um imóvel três vezes mais caro do que o valor do patrimônio total declarado por ele em 2018.

É o início de um processo já bastante conhecido: o retrofit. Retrofit é uma palavra da arquitetura que significa atualizar um prédio antigo sem demolir sua estrutura. Na política – e na cobertura política – o termo também é útil. Em vez de derrubar uma figura desgastada, atualiza-se sua fachada. Não se troca o edifício, mas a pintura.

A gente sabe que esse mecanismo não é novo na trajetória da família Bolsonaro. Voltemos alguns anos (tapem o nariz).

Quando Jair Bolsonaro começou a disputar seriamente a Presidência, ali por 2017 e 2018, o então deputado carregava uma biografia política considerada radioativa por grande parte do sistema político e empresarial. Havia décadas de declarações misóginas, racistas, elogios à ditadura militar, defesas abertas da tortura.

O mercado financeiro se fazia de doido (aliás, parte dele concordava com a toxicidade do deputado). Parte da imprensa também. Lembram ali como dissemos coisas como: “Não tem condição nenhuma de esse cara vencer”? Eu fiz isso, sentada em um boteco no Rio de Janeiro ao lado de um amigo querido. Ele, que trabalha em um banco e conhece dinheiro grande de perto, estava mais ligado. “Fabi, vai ser ele”.

Pois: bastou que Bolsonaro anunciasse nomes considerados “técnicos” ou “liberais” para que o processo de higienização começasse. O principal deles era Paulo Guedes. Nomeado ministro da Economia após a eleição, ele entendeu a pandemia da Covid-19 como um bom momento para fazer reformas estruturais (o gênio ao contrário também disse que o vírus foi inventado pela China, nosso grande parceiro comercial).

A presença de Guedes na campanha de 2018 foi interpretada por amplos setores da imprensa e do mercado como uma espécie de garantia civilizatória. A lógica implícita era simples: se houver economistas ortodoxos por perto, talvez o resto seja administrável.

Um homem branco de terno limpo e bem passado sempre enche os olhos da galera, né, gente? Taí Daniel Vorcaro, cujo Banco Master ocupava dois endereços que mostram o poder da performance. No edifício Auri Plaza, na Vila Olímpia, eram 14,5 mil metros quadrados alugados por cerca de R$ 3,3 milhões mensais. No Pátio Victor Malzoni, na Faria Lima, locava mais 1,9 mil metros quadrados por aproximadamente R$ 720 mil.

Foi assim que Bolsonaro passou a ser descrito, em muitas análises, como alguém “duro nos costumes”, mas cercado por um “time econômico confiável”. Um enquadramento que deslocava o foco daquilo que ele próprio dizia e fazia. O radicalismo virava detalhe e o mercado, protagonista. Besteira se tinha um racismo aqui, uma misoginia ali, uma burrice e um despreparo para lá.

Com o apoio de Bolsonaro, Guedes dominou o debate econômico na campanha e foi o grande fiador do candidato para o empresariado e o mercado financeiro. Sua presença se tornou tão relevante que Bolsonaro praticamente não debatia assuntos econômicos: mandava perguntar ao Guedes, seu “Posto Ipiranga”. O nome do economista foi bem recebido por uma parcela da mídia, bem como por investidores e banqueiros, em razão de suas posições ultraliberais. Bastou um economista com doutorado em Chicago aparecer ao lado do capitão para que parte considerável da imprensa tratasse a toxicidade de Jair como detalhe superável. O conteúdo da caixa não havia mudado. Só a embalagem.

Voltemos ao “Zero Um”, que passa por retrofitagem semelhante.

Flávio Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura em dezembro de 2025 (quando disse a já clássica “Eu tenho preço”). Dias depois, começou a temporada do sobrenome que some. A ombudsman da Folha de S.Paulo, Alexandra Moraes, notou o fenômeno em sua coluna de 15 de março de 2026: “De repente do Bolsonaro fez-se o Flávio. Como numa espécie de versão pragmática do ‘Soneto de Separação’, alguns leitores observaram que o senador Flávio Bolsonaro vem perdendo o sobrenome no noticiário, na medida em que consolida seu papel de candidato viável contra o presidente Lula. Se antes era o 01 do Bolsopai, agora virou apenas Flávio. Que Flávio?”

Obviamente, para você, para mim e para todo o jornalismo brasileiro, o sobrenome Bolsonaro não é detalhe biográfico. É contexto político obrigatório para uma imprensa que tanto prega a questão dos fatos. Ele carrega um pai condenado pelo Supremo Tribunal Federal, o STF, à inelegibilidade e a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de estado.

‘Ele carrega um pai condenado pelo STF à inelegibilidade e a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de estado’. Carrega não só os citados Adriano, os chocolates mágicos, a mansão: ainda tem Fabrício Queiroz, a denúncia de R$ 6 milhões desviados da Alerj… Nada disso prescreveu, nem foi arquivado: as provas foram anuladas. Suprimir o sobrenome é suprimir esse peso sem ter que falar sobre ele.

Este mês, Flávio Bolsonaro apareceu com 55% de rejeição segundo a Genial Quaest. Lula surgiu com 56%. De novo, o “Zero Um” tem rejeição altíssima para um candidato que nunca governou o país. A pesquisa aponta que, para vencer a disputa em 2026, o desafio para ambos será a imagem de moderação. O levantamento mostrou que, atualmente, 48% dos brasileiros dizem não ver Flávio Bolsonaro como mais moderado que outros integrantes de sua família.

É aqui que a coisa pega, minha pirraia: o sobrenome é o problema. Metade do Brasil rejeita o “Bolsonaro”, e é exatamente esse sobrenome que some das manchetes enquanto o senador tenta parecer outra coisa.

‘A imprensa, ao apagar o sobrenome, está fazendo o trabalho que as pesquisas mostram ser necessário para a candidatura’.

O fato de 48% dos entrevistados afirmarem que ele não é mais moderado que sua família indica que sua imagem ainda está fortemente associada ao núcleo duro do bolsonarismo. Isso ainda limita sua capacidade de ampliar alianças políticas para conquistar setores moderados do eleitorado. A imprensa, ao apagar o sobrenome, está fazendo o trabalho que as pesquisas mostram ser necessário para a candidatura. Esses recursos da objetividade são completamente instrumentalizados para vocalizar algo que não se pode vocalizar em primeira pessoa.

Chamar o filho do golpista de “Flávio” – sem mais, sem sobrenome, sem contexto – é vocalizar, sem se implicar, que ele é uma figura nova. Palatável. Moderada. Separada do pai. É fazer política sem assinar embaixo.

Vamos apostar em Flávio.

Simplesmente Flávio. Candidamente Flávio. Mimosamente Flávio.

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