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Poder
Governador de Goiás deve repetir papel de coadjuvante no campo conservador
Publicado em 30/03/2026 1:03 - Semana On
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A articulação política conduzida por Gilberto Kassab para a sucessão presidencial de 2026 começou marcada por hesitações estratégicas que comprometem sua pretensão de protagonismo no centro político. Inicialmente inclinado a construir uma alternativa moderada — com o nome de Eduardo Leite como opção viável — o dirigente do PSD acabou redirecionando sua aposta para a direita, movimento que o coloca em terreno já amplamente dominado pelo bolsonarismo.
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A tentativa anterior de viabilizar Tarcísio de Freitas como candidato revelou-se inviável diante da sua vinculação política com Jair Bolsonaro. A dependência em relação ao ex-presidente esvaziou qualquer projeto autônomo. Em seguida, o chamado “plano B”, associado ao nome de Ratinho Júnior, também perdeu fôlego rapidamente.
Restaram, então, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite — ambos com desempenho modesto nas pesquisas, oscilando entre 3% e 4% das intenções de voto. Ainda que as candidaturas enfrentem baixa viabilidade eleitoral no cenário atual, a diferença entre os dois reside na estratégia: enquanto Leite poderia sustentar um discurso de centro para o futuro, Caiado se insere diretamente na disputa interna da direita.
Esse reposicionamento, no entanto, traz riscos evidentes. Ao disputar espaço com o núcleo bolsonarista, Caiado tende a enfrentar um eleitorado que já demonstrou preferência por nomes diretamente ligados ao ex-presidente, como Flávio Bolsonaro. A comparação com eleições passadas reforça a dificuldade: em 1989, na primeira candidatura presidencial, Caiado teve desempenho residual, terminando com 0,7% dos votos.
A questão central que se impõe agora não é apenas eleitoral, mas política: qual será o papel de Caiado na disputa? Para evitar a condição de mero coadjuvante — ou, em termos mais diretos, uma candidatura instrumental — o governador precisará demonstrar independência real dentro do campo conservador.
Isso implica um equilíbrio delicado. De um lado, a necessidade de criticar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, algo esperado de um candidato de direita. De outro, a obrigação de não silenciar diante de controvérsias envolvendo figuras do próprio campo político, incluindo episódios ligados a Flávio Bolsonaro — como investigações sobre “rachadinhas”, relações com personagens como Adriano da Nóbrega e denúncias envolvendo Fabrício Queiroz.
A coerência exigiria também revisitar temas sensíveis do governo Bolsonaro, como a condução da pandemia de Covid-19 — período em que o próprio Caiado entrou em conflito com o então presidente — e decisões políticas mais recentes que impactaram a economia brasileira, incluindo articulações internacionais atribuídas a Eduardo Bolsonaro.
Nesse contexto, a construção de uma candidatura consistente passa menos pelo volume de críticas ao adversário e mais pela disposição de enfrentar contradições internas. O desafio é sair da zona de conforto da retórica previsível e assumir posições que, embora possam gerar desgaste dentro do próprio campo, conferem densidade política.
Sem isso, a candidatura corre o risco de reproduzir um papel já conhecido no sistema político brasileiro: o de figura auxiliar em debates polarizados, semelhante ao desempenho de Padre Kelmon em 2022. Nesse cenário, a presença no pleito serviria mais como reforço simbólico do que como alternativa real de poder.
A escolha, portanto, é estratégica e decisiva. Entre se afirmar como liderança autônoma ou orbitar em torno do bolsonarismo, Caiado terá pouco espaço para ambiguidades. Em um ambiente de polarização intensa, candidaturas que tentam ocupar simultaneamente múltiplos papéis tendem a perder relevância — e, com ela, a oportunidade de influenciar o debate político de forma duradoura.
Leite contesta escolha do PSD e expõe racha sobre rumo eleitoral de 2026
A definição do PSD em favor da candidatura de Ronaldo Caiado não apenas consolidou uma estratégia já controversa dentro da legenda, como também evidenciou fissuras internas sobre o rumo político a ser adotado em 2026. A reação mais direta veio de Eduardo Leite, que tornou pública sua discordância com a decisão.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Leite afirmou que a escolha o deixou “desencantado” e avaliou que a indicação tende a perpetuar o ambiente de polarização que domina o cenário nacional. Sem confrontar diretamente a direção partidária, o governador adotou um tom crítico ao sugerir que a opção por Caiado dificulta a construção de uma alternativa menos radicalizada.
A manifestação reforça a divergência estratégica dentro do partido. Enquanto a cúpula liderada por Gilberto Kassab optou por consolidar presença no campo da direita, Leite voltou a defender um projeto ancorado no que define como “centro liberal e democrático”, sustentado por diálogo, conciliação e soluções pragmáticas. Em sua avaliação, existe uma demanda social ainda pouco vocalizada por uma política mais equilibrada, que dispense a lógica do confronto permanente.
Mesmo derrotado na disputa interna, o governador gaúcho sinalizou que não pretende encerrar sua movimentação política. Ao afirmar que seu projeto “não termina aqui”, indicou disposição de manter ativa a construção de uma alternativa nacional, ainda que fora do guarda-chuva imediato da decisão partidária.
A escolha por Caiado será formalizada em evento na sede do PSD, em São Paulo, consolidando um processo que ganhou novos contornos após a saída de Ratinho Júnior da disputa. Até então considerado favorito por Kassab, o paranaense abriu mão da candidatura alegando fatores pessoais e compromissos com a sucessão estadual, reconfigurando o tabuleiro interno da legenda.
Diferentemente de Leite, Ratinho adotou postura de alinhamento à decisão partidária. Em manifestação pública, elogiou o nome de Caiado, destacando sua experiência administrativa e resultados em áreas como segurança e educação — argumento que reforça a tentativa do PSD de apresentar credenciais de gestão como ativo eleitoral.
O contraste entre as reações explicita mais do que divergências pontuais: revela a ausência de consenso sobre o papel que o partido pretende desempenhar no pleito. De um lado, a aposta em uma candidatura inserida no espectro conservador; de outro, a defesa de uma via alternativa que busque reduzir a dicotomia entre lulismo e bolsonarismo.
Ao longo da disputa interna, Leite insistiu na tese de que representaria uma ruptura efetiva com essa polarização, destacando sua posição independente em relação aos dois polos dominantes. A derrota, no entanto, não encerra esse discurso — apenas o desloca para fora da arena formal da decisão partidária.
Nesse contexto, o PSD se vê diante de um duplo desafio: sustentar a viabilidade de sua candidatura escolhida e, ao mesmo tempo, administrar as tensões internas geradas por uma estratégia que, longe de unificar, evidencia caminhos concorrentes dentro da própria legenda.
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