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Poder
Proposta de perdoar golpistas fragiliza tentativa de se apresentar como alternativa
Publicado em 01/04/2026 9:41 - Semana On
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A pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado nasce marcada por uma contradição central: ao prometer anistiar Jair Bolsonaro e outros envolvidos em ações contra a ordem democrática como primeiro ato de um eventual governo, o governador de Goiás compromete, desde o início, sua tentativa de se posicionar como alternativa independente entre os dois principais polos da política nacional.
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O gesto, anunciado no evento de lançamento de sua pré-campanha, eclipsa propostas programáticas como combate ao déficit habitacional e reforço da segurança urbana. Em vez disso, coloca no centro do debate uma medida que aproxima Caiado do campo bolsonarista — justamente aquele do qual ele tenta se diferenciar eleitoralmente.
Ao afirmar que pretende promover uma “anistia ampla, geral e irrestrita” como forma de “pacificar o Brasil”, Caiado adota uma estratégia que busca atrair eleitores alinhados ao ex-presidente. No entanto, ao fazê-lo, corre o risco de alienar segmentos que defendem a responsabilização de envolvidos em tentativas de ruptura institucional.
A proposta contraria, inclusive, manifestações recentes da sociedade. Mobilizações populares já demonstraram resistência a iniciativas semelhantes, como o debate em torno do chamado PL da Dosimetria e da PEC da Blindagem, interpretados por críticos como tentativas de reduzir punições ou proteger agentes envolvidos em ataques à democracia.
Do ponto de vista histórico, a defesa da anistia em contextos de ruptura institucional é alvo recorrente de críticas. Analistas apontam que episódios anteriores na história republicana brasileira indicam que a ausência de responsabilização pode estimular novas investidas contra a ordem democrática.
Esse argumento ganha força diante de eventos recentes. Entre eles, ataques e planos frustrados que envolveram explosivos e ameaças a instituições públicas em Brasília entre 2022 e 2025. Casos como a tentativa de explosão no aeroporto da capital federal na véspera do Natal de 2022, os atos violentos no dia da diplomação presidencial e episódios posteriores envolvendo indivíduos que planejavam ou executaram ações extremistas ilustram um ambiente de radicalização persistente.
Há também registros de ameaças diretas a autoridades e tentativas de invasão de prédios públicos, incluindo o Supremo Tribunal Federal, além de investigações que apontaram a participação de civis e até de integrantes das Forças Armadas em planos mais amplos de desestabilização institucional.
Nesse contexto, especialistas defendem que a responsabilização legal dos envolvidos é elemento central para a contenção de novos episódios de violência política. A impunidade, argumentam, tende a reforçar a percepção de permissividade e a alimentar ciclos sucessivos de instabilidade.
Ainda assim, Caiado insiste na narrativa da pacificação. Ao fazer isso, também recorre a paralelos históricos controversos, como a anistia concedida durante o governo de Juscelino Kubitschek a militares envolvidos em levantes nas décadas de 1950. O episódio, no entanto, é frequentemente citado como exemplo de medida que não impediu, e possivelmente contribuiu, para a articulação do golpe de 1964 — que culminou, inclusive, na cassação dos direitos políticos do próprio JK.
No campo eleitoral, a estratégia de Caiado revela outra tensão. Ao mesmo tempo em que busca se diferenciar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com críticas diretas, evita confrontos explícitos com nomes centrais do bolsonarismo, como Flávio Bolsonaro, a quem dirige apenas referências indiretas sobre inexperiência administrativa.
A tentativa de ocupar simultaneamente espaços à direita e ao centro, explorando tanto a rejeição ao governo atual quanto fragilidades internas do bolsonarismo, resulta em uma construção política híbrida. Essa postura, porém, levanta dúvidas sobre sua viabilidade eleitoral, especialmente diante de um cenário polarizado em que candidaturas intermediárias historicamente enfrentam dificuldades para avançar.
Ao priorizar a pauta da anistia, Caiado não apenas redefine o eixo de sua pré-campanha, como também reduz o espaço para se apresentar como uma alternativa moderada. Em um ambiente político marcado por disputas intensas e memória recente de ataques às instituições, a defesa do perdão a envolvidos em ações golpistas tende a ampliar resistências — inclusive entre eleitores que poderiam compor a base de uma terceira via.
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