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Poder

Brasileiros apoiam redução da jornada de trabalho, mas proposta enfrenta resistências

65% da população é favorável à carga horária menor, mas empresários e oposição articulam alternativa para flexibilização das regras

Publicado em 06/03/2025 9:34 - Semana On

Divulgação Davi Pinheiros/VAT

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A redução da jornada de trabalho no Brasil, tema que ressurge ciclicamente no debate público, ganhou novo fôlego em 2024 com a tramitação da PEC 8/2025, proposta pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP). A medida busca alterar o artigo 7º da Constituição, reduzindo a carga horária semanal de 44 para 36 horas, divididas em quatro dias de trabalho e três de descanso. O projeto, que conta com apoio de parte da base governista, enfrenta forte resistência no Congresso, especialmente de setores empresariais e parlamentares da oposição, que articulam uma alternativa mais flexível.

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Segundo pesquisa recente da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, divulgada no blog da jornalista Míriam Leitão, 65% dos brasileiros são favoráveis à redução da jornada de trabalho. O apoio é ainda maior entre os jovens de 16 a 24 anos (74%) e entre os desempregados (73%), que enxergam na medida a possibilidade de abertura de novas vagas no mercado. No entanto, a adesão ao projeto diminui conforme aumenta a faixa etária, atingindo 34% de reprovação entre pessoas acima dos 60 anos.

A questão, porém, não se limita a uma simples preferência popular. Trata-se de um embate de concepções sobre produtividade, competitividade e qualidade de vida no século XXI. Se por um lado, os defensores da proposta argumentam que a redução da jornada poderia impulsionar a produtividade e promover bem-estar, por outro, setores econômicos alertam para impactos negativos no comércio, serviços e na sustentabilidade financeira das empresas.

Modelos internacionais e a resistência do setor empresarial

A ideia de uma jornada semanal reduzida não é nova e já foi testada em diferentes países. Um dos casos mais emblemáticos é o da Islândia, que entre 2015 e 2019 implementou um projeto-piloto de 35 horas semanais para trabalhadores do setor público. A experiência demonstrou aumento na produtividade e melhoria da qualidade de vida dos funcionários, sem impactos negativos para os empregadores. A Espanha também testou um modelo similar e observou que empresas que adotaram a mudança relataram benefícios na eficiência.

Porém, críticos do modelo alertam que a economia brasileira possui particularidades que dificultariam a implementação da proposta. Setores como comércio e serviços, que dependem de alta rotatividade de trabalhadores, argumentam que a redução da jornada poderia inviabilizar pequenos negócios. Domingos Sávio (PL-MG), presidente da Frente Parlamentar do Comércio e Serviços, afirmou que a PEC 8/2025 poderia levar milhares de empresas à falência. “Ela estabeleceria pela Constituição a proibição praticamente de uma pessoa trabalhar mais do que quatro dias. Isso poderia inviabilizar setores essenciais como a saúde e a educação”, declarou.

Em contraposição, sindicalistas defendem que o modelo pode ser adaptado às realidades setoriais, sem comprometer a economia. João Carlos Juruna, secretário-geral da Força Sindical, destaca que a redução da jornada já ocorre historicamente por meio de negociações coletivas e pode ser uma estratégia gradual para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores sem comprometer o setor produtivo. “O incentivo do movimento sindical é mudar a Constituição, mas desde o início do século passado, a redução se mostra possível ao se fortalecer na base, nas negociações coletivas e nos acordos coletivos”, afirma.

PEC alternativa: o projeto da oposição e a flexibilização das relações de trabalho

Diante da tramitação da PEC 8/2025, a oposição articulou uma proposta alternativa: a chamada “PEC do Regime de Trabalho Flexível”, defendida pelo deputado Mauricio Marcon (Podemos-RS). O texto propõe manter a carga horária de 44 horas semanais, mas permitindo que os trabalhadores escolham entre o modelo tradicional da CLT e um regime flexível baseado em horas trabalhadas, semelhante ao adotado nos Estados Unidos.

A proposta já conta com o apoio de 143 parlamentares, majoritariamente do PL e do Novo, partidos da oposição. Seus defensores argumentam que a mudança permitiria maior liberdade de negociação entre patrões e empregados, enquanto os críticos apontam para um risco de precarização do trabalho. Reginaldo Lopes (PT-MG), autor da PEC 221/2019, que também versa sobre redução da jornada, acredita que um modelo de transição com escala 5×2 seria mais viável politicamente do que uma mudança abrupta.

1º de Maio: centrais sindicais pressionam por avanços

A proximidade do Dia do Trabalhador, em 1º de maio, promete acirrar ainda mais o debate. As principais centrais sindicais do país incluem a redução da jornada como um dos temas centrais das manifestações, ao lado da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 e da luta por igualdade salarial entre homens e mulheres. O movimento sindical enxerga no momento uma oportunidade para pressionar o Congresso a avançar na pauta.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, tem adotado uma postura cautelosa. Apesar de ter feito acenos à base sindical, como a liberação do saque-aniversário para trabalhadores demitidos, o governo não deve apoiar abertamente a PEC 6×1. A estratégia do Planalto parece ser a de deixar o debate amadurecer entre parlamentares e sindicatos, sem se comprometer com um posicionamento oficial que poderia gerar atrito com setores empresariais.

Redução da jornada: avanço ou retrocesso?

O debate sobre a jornada de trabalho no Brasil se insere em um contexto mais amplo de transformação das relações laborais no século XXI. Com a automação, o home office e a busca por equilíbrio entre vida profissional e pessoal ganhando cada vez mais relevância, a flexibilização da carga horária se torna um tema inevitável.

Pesquisadores como David Graeber, antropólogo e autor do livro Bullshit Jobs, argumentam que muitas das horas trabalhadas no sistema atual não são produtivas e servem apenas para manter uma cultura de presença no ambiente de trabalho. O economista John Maynard Keynes já previa, ainda nos anos 1930, que a tecnologia permitiria uma redução drástica da jornada sem perda de produtividade, mas que fatores políticos e econômicos mantinham as relações de trabalho inalteradas.

A questão central permanece: o Brasil está pronto para uma jornada reduzida sem comprometer sua economia? A resposta passa por um debate equilibrado entre trabalhadores, empresários e governo, levando em conta experiências internacionais, mas respeitando as especificidades do mercado nacional.

Seja pela via da PEC 8/2025, pela proposta alternativa do regime flexível ou por meio de negociações coletivas, o futuro do trabalho está em jogo – e o embate entre produtividade e qualidade de vida promete ser um dos temas mais discutidos nos próximos anos.

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