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Poder
Governo trata ameaça como ataque à soberania e vê articulação bolsonarista com aliados de Trump
Publicado em 22/05/2025 9:08 - Semana On
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Quando Marco Rubio, senador republicano da Flórida e figura central na diplomacia do Partido Republicano, anunciou numa audiência pública nos Estados Unidos que sanções contra o ministro Alexandre de Moraes estavam “em análise”, o alerta soou forte em Brasília — e não por acaso. Para o governo Lula, a ameaça americana não diz respeito apenas a um juiz da Suprema Corte, mas representa um novo capítulo na disputa ideológica global que opõe democracias constitucionais a movimentos de extrema-direita transnacional. A resposta, portanto, será institucional e contundente: trata-se de soberania, e não de indivíduo.
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A acusação contra Moraes, articulada pela ala mais radical da direita norte-americana e impulsionada por figuras como o deputado Eduardo Bolsonaro e o bilionário Elon Musk, sustenta-se sobre o argumento da “liberdade de expressão”. Um argumento que, se não fosse politicamente enviesado, seria legítimo — mas que, neste caso, é usado como fachada para justificar uma possível sanção com base na Lei Magnitsky, legislação americana criada para punir violações de direitos humanos e atos de corrupção, mas agora instrumentalizada como ferramenta de pressão ideológica.
Um cenário de alta tensão diplomática
A movimentação de Washington, impulsionada por aliados de Donald Trump, tem causado inquietação tanto no Supremo Tribunal Federal quanto no Palácio do Planalto. Moraes, relator das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, é uma figura central na contenção do bolsonarismo radical — e, por isso mesmo, alvo preferencial das articulações internacionais da extrema-direita. A proposta de sanção inclui o bloqueio de bens e o veto à entrada do ministro em solo americano, medidas que, segundo o próprio Moraes, teriam efeito nulo: ele afirma não ter patrimônio ou vínculos financeiros com os EUA.
Entretanto, o impacto simbólico da medida é o que preocupa. “Sempre que se sente ameaçado, ele dobra a aposta”, teria dito um ministro do STF sob anonimato, segundo relatos da imprensa. A frase resume bem o clima no tribunal: longe de intimidados, os magistrados enxergam na ameaça uma tentativa grosseira de intromissão externa, que poderia resultar numa reação nacional em defesa da Corte.
Um velho roteiro com novas roupagens
A história latino-americana é fértil em episódios de ingerência norte-americana sob o pretexto de proteger “valores democráticos” ou “liberdades individuais”. Do golpe no Chile em 1973, passando pelas intervenções no Caribe, até o apoio a ditaduras durante a Guerra Fria, os EUA mantiveram um padrão de política externa baseado na proteção de seus interesses estratégicos, nem sempre compatíveis com os princípios democráticos que alegavam defender.
Na era digital, o campo de batalha se deslocou. A guerra agora é travada nas redes, nas cortes e nas narrativas. A tentativa de impor sanções a um ministro do STF por suas decisões judiciais — baseadas na Constituição e no ordenamento jurídico brasileiro — é vista por juristas e cientistas políticos como uma afronta à soberania e uma grave ameaça ao princípio da separação entre os poderes.
“O Judiciário é o último bastião contra a escalada autoritária. Atacá-lo é atacar a própria democracia”, afirmou o constitucionalista Oscar Vilhena Vieira, da FGV Direito SP, em entrevista à revista Piauí em 2023. A citação, embora anterior ao episódio atual, permanece profundamente pertinente.
O bolsonarismo como ator transnacional
Não é coincidência que a pressão tenha origem na intersecção entre a extrema-direita brasileira e a americana. Eduardo Bolsonaro, deputado federal licenciado e principal articulador das conexões com o trumpismo, está nos EUA justamente com o objetivo de mobilizar o apoio republicano contra o Supremo Tribunal Federal e impedir a responsabilização de Jair Bolsonaro por crimes contra o Estado democrático de direito. Seu lobby encontra eco em parlamentares ultraconservadores como Cory Mills, também da Flórida, que classificou a prisão de Bolsonaro como “perseguição política” e defendeu ações contra Moraes.
O objetivo do bolsonarismo é claro: reverter a imagem do ex-presidente, transformando-o de golpista em vítima, e utilizar o poder dos EUA como instrumento de chantagem institucional. A incoerência salta aos olhos: o mesmo grupo que diz defender o Brasil “acima de tudo” agora recorre à intervenção estrangeira contra o Judiciário nacional.
Essa postura revela uma contradição fundamental no discurso bolsonarista. O apelo à soberania, ao nacionalismo e à independência institucional é abandonado quando o inimigo está no poder. O patriotismo se desfaz quando a alternativa é recorrer a Trump, a Elon Musk ou ao Capitólio norte-americano. A defesa da liberdade de expressão, por sua vez, se converte em escudo para proteger discursos de ódio, fake news e ameaças golpistas. É o que o filósofo alemão Theodor Adorno chamava de “liberdade para os lobos”, quando o liberalismo serve para legitimar ataques à própria democracia.
O papel das redes e do capital
As big techs, aliadas a bilionários com interesses econômicos e ideológicos bem definidos, também entraram nesse jogo. A suspensão de contas no X (antigo Twitter) por decisão de Moraes acendeu a ira de Elon Musk, que passou a atacar publicamente o ministro e defender “liberdade irrestrita” de expressão. O conflito entre regulação estatal e autonomia corporativa se intensifica, com repercussões globais.
Desde o governo Trump, leis foram criadas nos EUA para impedir o financiamento a entidades estrangeiras que promovem o combate à desinformação ou defendem a regulação das redes sociais — um claro recado a governos progressistas latino-americanos. O Brasil é peça-chave nesse tabuleiro. Segundo fontes da Casa Branca ouvidas pelo UOL, existe a preocupação de que sanções contra Moraes possam unificar uma frente ampla democrática no país, fortalecendo o governo Lula e isolando o bolsonarismo.
Quando a sanção vira combustível
A hipótese não é improvável. Casos recentes mostram que ações agressivas de Trump contra líderes estrangeiros têm produzido o efeito oposto ao desejado. No Canadá, a ofensiva verbal de Trump fez os conservadores despencarem nas pesquisas. No México, críticas ao governo de Claudia Sheinbaum impulsionaram sua popularidade. A lição parece clara: quando a ingerência externa é percebida como ofensiva à autodeterminação nacional, o efeito costuma ser o fortalecimento das forças democráticas internas.
O governo Lula sabe disso. Por isso, adota um tom institucional, mas firme. A estratégia inclui evitar confrontos diretos com os EUA — especialmente com o atual governo Biden, que ainda controla a Casa Branca —, mas sem ceder à pressão. A nota da bancada do PT é categórica: “Não admitiremos qualquer forma de submissão ou ingerência estrangeira em nosso ordenamento jurídico”.
O futuro da democracia em jogo
As eleições de 2026 no Brasil são vistas como estratégicas não apenas no cenário doméstico, mas no contexto global. A possível volta de Trump à presidência dos EUA pode mudar o equilíbrio de forças na América Latina. O bolsonarismo, mesmo enfraquecido, aposta nessa reconexão ideológica para retomar o poder. Mas a atual ofensiva contra o STF pode se tornar um catalisador de resistência democrática.
Em tempos em que a extrema-direita se organiza globalmente, a defesa da soberania e da democracia exige uma aliança igualmente transnacional — baseada em direitos humanos, justiça social e respeito às instituições. O caso de Alexandre de Moraes é um termômetro dessa disputa. Não se trata apenas de um ministro ameaçado. Trata-se de um país desafiado. E a resposta, ao que tudo indica, será dada com a Constituição na mão.
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