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Poder
Em meio a tarifas, sanções e disputas geopolíticas, Brasil busca reverter prejuízos: Trump pressiona na área comercial e política
Publicado em 16/10/2025 9:39 - Semana On
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Quase quatro décadas após Donald Trump definir seu estilo de negociação como “simples, direto e insistente”, o manual do republicano parece guiar a mais grave crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos em mais de 200 anos. Nesta quinta-feira (16), em Washington, o chanceler Mauro Vieira inicia a primeira rodada de negociações formais com representantes do governo Trump, tentando destravar um impasse que já causou prejuízos comerciais bilionários, sanções diplomáticas e tensões políticas inéditas.
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O estilo do presidente norte-americano, descrito em 1987 no livro The Art of the Deal, serve como um mapa premonitório do roteiro adotado desde julho: “Miro muito alto e continuo insistindo, insistindo, insistindo para conseguir o que quero.” A estratégia incluiu um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, restrições de visto a dezenas de autoridades e a aplicação de sanções da Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e sua esposa.
Trump exige, de forma direta, a interrupção do processo judicial contra Jair Bolsonaro e o fim da regulação de big techs no Brasil. Mas os movimentos da Casa Branca não surtiram o efeito desejado: Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, e a pressão do setor empresarial — nos EUA e no Brasil — tornou insustentável a manutenção das tarifas. Nas últimas três semanas, o tom mudou: Trump elogiou Lula, houve telefonema entre os presidentes e, agora, a expectativa é por um acordo que satisfaça as exigências americanas sem comprometer a soberania brasileira.
O que está em jogo
Fontes diplomáticas de ambos os lados indicam que Trump está disposto a recuar nas tarifas e sanções, desde que o Brasil aceite uma série de condições. Na pauta:
– Acesso norte-americano à exploração de minerais críticos no Brasil, como neodymium, praseodymium, terbium e dysprosium, fundamentais para as indústrias bélica e tecnológica;
– Redução da tarifa de 18% sobre o etanol dos EUA, protegida no mercado brasileiro, em troca de redução de barreiras ao açúcar nacional nos EUA;
– Compromissos regulatórios mais brandos para as big techs, incluindo o retorno da rede Rumble ao Brasil e garantias para empresas como Meta e X;
– Apoio brasileiro ao dólar como moeda global nos Brics, freando propostas de desdolarização promovidas por China e Rússia;
– Redução das importações brasileiras de petróleo e fertilizantes da Rússia, em linha com a política de sanções de Washington.
Essas exigências revelam a tentativa do governo Trump de reposicionar o Brasil como aliado estratégico na disputa global com China e Rússia. “Trump está jogando pesado para garantir um parceiro confiável na América do Sul, especialmente diante do avanço chinês sobre recursos como terras raras”, afirma Nick Zimmerman, ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca para o Cone Sul, em entrevista à coluna. A fonte é o think tank Dinámica Americas, onde Zimmerman hoje atua como consultor.
As minas brasileiras no radar dos EUA
Dois projetos de extração mineral atraem especial interesse norte-americano: Serra Verde, que já produz elementos raros em Goiás, e o Projeto Carina, também no estado, com grande potencial de extração de terras-raras pesadas. Documentos internos do Departamento de Estado dos EUA já mapeiam essas áreas como estratégicas para o suprimento da cadeia industrial norte-americana. Lula, por sua vez, tenta negociar um modelo que envolva o beneficiamento local dos minerais, evitando que o país se restrinja à função de fornecedor bruto de matéria-prima.
A questão das big techs e da censura
Greer, representante comercial dos EUA e articulador próximo de Trump, retomou ontem um dos pontos mais sensíveis da crise: as ações do STF contra redes sociais. Em entrevista, afirmou que “ordens secretas para controlar o fluxo de informações no Brasil” são motivo de “extrema preocupação com o Estado de Direito e com a censura”. As críticas ecoam o discurso de bolsonaristas como Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Paulo Figueiredo, que se aproximaram de representantes de Trump nos EUA para pedir sanções contra o Brasil até que Bolsonaro fosse anistiado.
O governo Lula, por sua vez, se prepara para defender a atuação de Alexandre de Moraes e do Supremo, afirmando que nenhuma ordem excedeu a jurisdição nacional e que a regulação das plataformas está sendo discutida pelo Congresso, respeitando o marco legal do país.
Desdolarização e fertilizantes russos
Outro ponto nevrálgico será o papel do Brasil nos Brics. O governo Trump vê com desconfiança os esforços do bloco para criar uma moeda própria e abandonar o dólar nas transações internacionais. O senador Marco Rubio, atual secretário de Estado, deve pressionar por um compromisso brasileiro de não apoiar essas medidas.
Já a compra de fertilizantes e derivados de petróleo da Rússia pelo Brasil pode se tornar motivo de constrangimento. Nos EUA, a narrativa de que países compradores financiam a guerra de Vladimir Putin tem apoio bipartidário. O Brasil, no entanto, depende de importações russas para manter sua produção agrícola, e o tema é tratado com cautela no Itamaraty.
O que o Brasil quer
Do lado brasileiro, o objetivo imediato é claro: retirar as tarifas e sanções que afetam exportadores e autoridades. A revogação da Lei Magnitsky parece improvável neste momento, mas diplomatas apostam que a pressão de produtores norte-americanos afetados pelas medidas — como os do setor de soja — pode acelerar o fim do tarifaço.
Antes da imposição das tarifas, os EUA mantinham superávit na balança comercial com o Brasil há mais de uma década. A guerra tarifária, no entanto, reduziu o comércio bilateral e abriu espaço para concorrentes como China e Argentina.
O sucesso da rodada de hoje poderá determinar se haverá um novo encontro entre Lula e Trump ainda neste ano — seja na Malásia, no fim de outubro, ou numa eventual visita do presidente brasileiro a Washington antes de 2026.
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