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Poder
Reunião entre Mauro Vieira e Marco Rubio sinaliza tentativa de reaproximação: Bolsonarismo foi excluído da mesa de negociação
Publicado em 17/10/2025 9:11 - Semana On
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O governo brasileiro deu nesta quinta-feira (16) o primeiro passo formal rumo à normalização das relações com os Estados Unidos, após meses de escalada diplomática. Em reunião de alto nível na Casa Branca, o chanceler Mauro Vieira, o secretário de Estado Marco Rubio e o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, anunciaram a reabertura de canais de diálogo bilateral e o empenho para viabilizar, “na primeira oportunidade possível”, um encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
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O gesto tem peso político evidente: marca a primeira aproximação substantiva desde que Trump voltou à Presidência, em janeiro, e acena com a possibilidade de distensão nas relações estremecidas por decisões unilaterais de Washington – entre elas, a imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, sob alegações de ingerência política no Judiciário e condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe.
Apesar do tom positivo do comunicado conjunto, a reunião terminou sem qualquer avanço concreto sobre a retirada das barreiras comerciais. “Reiterei a posição brasileira, transmitida diretamente pelo presidente Lula ao presidente Trump, na semana passada, sobre a necessidade de reversão das medidas adotadas pelo governo americano a partir de julho”, declarou Mauro Vieira. Segundo ele, a resposta de Rubio foi direta: apenas Trump pode decidir sobre a suspensão das tarifas.
Choque tarifário e retaliações
A atual tensão começou em agosto, quando os EUA anunciaram tarifas punitivas contra produtos brasileiros – incluindo aço, alumínio, calçados e carne processada. A justificativa, segundo a Casa Branca, foi a suposta “politização” do Supremo Tribunal Federal brasileiro, numa referência velada ao ministro Alexandre de Moraes, que também foi alvo de sanções consulares e financeiras.
A retaliação teve forte impacto nas exportações brasileiras. De acordo com dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, as exportações para os EUA caíram 18% entre agosto e setembro, com prejuízos estimados em R$ 2,4 bilhões no período. O governo brasileiro considera a medida desproporcional, sobretudo porque os EUA têm superávit na balança comercial com o Brasil, que em 2024 foi de US$ 9,8 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior.
Internamente, analistas políticos nos EUA também criticaram a estratégia. Em artigo publicado no Foreign Policy, o pesquisador Thomas Shannon, ex-embaixador dos EUA no Brasil, afirmou que “usar sanções econômicas como instrumento de pressão judicial representa uma distorção perigosa da diplomacia americana”.
China no pano de fundo
Outro ponto sensível das discussões bilaterais é o avanço da soja brasileira no mercado chinês – movimento intensificado pela guerra comercial entre Washington e Pequim. Nos últimos meses, a China aumentou significativamente a compra da oleaginosa brasileira, reduzindo a dependência da produção americana. O tema foi tratado com preocupação por representantes da Casa Branca, que atribuem a mudança à “manipulação de mercado” por parte do governo chinês.
Essa realidade, porém, é reflexo de um realinhamento comercial global, segundo o economista José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB): “Os chineses já compram 70% da soja exportada pelo Brasil. É uma tendência que só se acentuou com as políticas erráticas da gestão Trump”, afirmou em entrevista à BBC Brasil.
Big Techs e a geopolítica digital
Outro impasse tratado com cautela durante a reunião foi a regulação das big techs. O Brasil defende a criação de normas específicas para plataformas digitais, enquanto os EUA têm pressionado diversos países – inclusive o Brasil – a não adotar medidas que afetem empresas como Google, Meta e Amazon. Fontes do Itamaraty apontam que uma possível contrapartida exigida por Trump para reverter as tarifas seria justamente a flexibilização de regulações sobre o setor.
Para a professora de Relações Internacionais da USP, Janina Onuki, essa exigência não é novidade. “Trump trata as big techs como ativos de influência global. Para ele, garantir espaço irrestrito a essas empresas em países estratégicos, como o Brasil, é uma prioridade geopolítica”, avaliou, em entrevista à Folha de S.Paulo.
Diálogo, mas a que custo?
O comportamento de Marco Rubio durante o encontro surpreendeu positivamente a diplomacia brasileira. Considerado linha-dura e conhecido por críticas ao governo Lula e ao STF, Rubio evitou temas políticos e manteve o tom técnico durante a reunião. Segundo Mauro Vieira, “nenhuma menção foi feita a Bolsonaro, Alexandre de Moraes ou ao Judiciário brasileiro”.
Nos bastidores, no entanto, permanece a dúvida sobre qual será o “troféu” que Donald Trump exigirá para flexibilizar as sanções. Um diplomata ouvido pelo Estadão foi direto: “Trump não respeita quem se curva, mas exige algo em troca para qualquer gesto de boa vontade. A questão é saber qual o código de barras da negociação”.
O governo Lula agora avalia até onde pode ceder sem comprometer princípios – ou passar a imagem de que negocia democracia e soberania em troca de tarifas. A diplomacia brasileira aposta em avanços graduais e negociações “por temas”, evitando grandes concessões em troca de promessas incertas.
O reencontro entre Lula e Trump, ainda sem data confirmada, será o verdadeiro teste da retomada das relações. Por ora, o encontro em Washington foi apenas o sinal de que as portas estão entreabertas – mas o preço da chave ainda está em aberto.
Eduardo Bolsonaro é isolado no tabuleiro
A ausência completa do nome Jair Bolsonaro nas conversas oficiais entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, foi interpretada por diplomatas brasileiros como um indicativo claro: os interesses estratégicos dos EUA voltaram a ditar a política externa de Trump, e a influência do clã Bolsonaro nos bastidores internacionais perdeu relevância. Nesse novo cenário, a atuação de Eduardo Bolsonaro em Washington — antes tida como canal privilegiado com o trumpismo — tornou-se um ativo tóxico e fonte de constrangimento político para o Brasil.
A tentativa de sabotagem da reunião por parte de Eduardo e do comentarista Paulo Figueiredo, segundo fontes do Itamaraty, foi ignorada pela diplomacia norte-americana. “Trump mandou reorganizar as relações com o Brasil, e Rubio está cumprindo a ordem. Não havia espaço para pressões pessoais”, afirmou um integrante da delegação brasileira.
Os motivos dessa guinada são pragmáticos. Trump pode ter predileções ideológicas, mas não rasga dinheiro — e foi exatamente isso que seus aliados mais próximos entenderam ao ver o presidente recuar de uma linha hostil ao Brasil. As sanções econômicas aplicadas desde julho afetaram diretamente o bolso do americano médio: produtos como carne, café e suco de laranja importados do Brasil subiram de preço nos mercados dos EUA, alimentando a inflação. Ao mesmo tempo, a China ocupou o espaço comercial deixado pela retração brasileira, reforçando sua presença estratégica na América Latina.
Segundo análise do think tank Council on Foreign Relations (CFR), publicada em setembro, “o impacto do tarifaço sobre commodities brasileiras não foi apenas simbólico, mas real, e prejudicou setores produtivos dos próprios Estados Unidos, como os produtores de milho e carne que dependem de insumos importados”.
Rubio, que antes fazia ataques frequentes ao governo Lula e ao STF, mudou o tom — e o conteúdo. Saiu de cena o discurso ideológico e entrou a pauta geopolítica: acesso a terras raras, ampliação de cotas de exportação para etanol de milho, flexibilização para big techs operarem no Brasil e contenção da aproximação brasileira com a China. “Rubio não gosta de Lula, mas entendeu que isolar o Brasil só reforçava os rivais estratégicos dos EUA”, comentou o professor Oliver Stuenkel, da FGV, à CNN Brasil.
O “cabo eleitoral” involuntário de Lula
A mudança de orientação desarmou o clã Bolsonaro. Eduardo, que cultivava imagem de interlocutor informal do trumpismo, tornou-se irrelevante nas tratativas formais. Pior: seus movimentos para tentar interferir nas relações exteriores brasileiras acabaram por beneficiar politicamente o governo Lula. Como descreveu com ironia um assessor do Planalto, “Eduardo virou o cabo eleitoral mais eficaz que Lula poderia querer para 2026”.
Ao criticar o resultado da reunião — por não ter revertido imediatamente as tarifas — Eduardo tenta agora reposicionar sua narrativa, desconsiderando que o maior sinal político do encontro foi justamente a ausência de qualquer menção a Bolsonaro ou a pedidos de anistia. Esse silêncio estratégico deixa o deputado isolado, ainda mais diante do constrangimento de ver um aliado como Rubio sentar-se com Mauro Vieira num clima amistoso.
Essa postura de neutralidade foi uma orientação direta de Trump, que deseja abrir espaço para negociar ganhos comerciais concretos com o Brasil sem ser atrelado às demandas pessoais de aliados locais. O clã Bolsonaro, portanto, foi deixado de lado num momento decisivo.
O custo da traição
No Congresso Nacional, o papel de Eduardo começa a incomodar até antigos aliados. Parlamentares da oposição admitem em reserva que a insistência do deputado em interferir em agendas diplomáticas do Executivo pode custar caro ao Legislativo, especialmente se Trump e Lula selarem um acordo nos próximos meses. “Para que PEC da Blindagem, se já temos Eduardo traindo o país sem qualquer consequência?”, ironizou um deputado do Centrão.
O episódio expôs, mais uma vez, os limites do amadorismo diplomático e da atuação paralela de figuras políticas que buscam instrumentalizar interesses estrangeiros para fins domésticos. A tentativa de transformar a política externa em palco de revanche ideológica resultou, no caso do clã Bolsonaro, numa derrota silenciosa, porém estratégica.
Trump, ao que tudo indica, está disposto a negociar com quem oferece retorno tangível — e não lealdade cega. Lula, por sua vez, avalia quanto está disposto a conceder em troca de normalização plena. Entre pressões de big techs, tarifas e tensões institucionais, o jogo recomeçou. Mas, até aqui, um resultado já é claro: Eduardo Bolsonaro traiu seu país à toa. E Trump parou de rasgar dinheiro.
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