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Poder

Bolsonaro tenta reviver o mito, mas a Paulista mostra o ocaso

Datafolha mostra Lula à frente da extrema direita e seus herdeiros em 2026

Publicado em 07/04/2025 11:28 - Semana On

Divulgação Monitor do Debate Político - USP

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Sob o céu nublado da avenida Paulista, o ex-presidente Jair Bolsonaro reapareceu em cena, convocando multidões em nome da anistia para golpistas e da própria salvação política. Mas o ato realizado no domingo (6) não foi uma demonstração de força — foi, sobretudo, um retrato do ocaso de um projeto que, embora ainda poderoso em seu núcleo mais radical, já não encontra eco na maioria da sociedade brasileira. Entre falas conspiratórias, pedidos de ajuda externa e a exaltação de uma pichadora de estátua como mártir nacional, Bolsonaro tenta reencenar sua influência — mas o palco e os aplausos são outros.

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A performance ensaiada na Paulista teve como protagonistas não apenas o ex-presidente, mas também um séquito de governadores que orbitam sua memória política. Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ratinho Jr. (PR), Ronaldo Caiado (GO), entre outros, marcaram presença no palanque — não por devoção, mas por cálculo eleitoral. Segundo o jornalista Josias de Souza, “Tarcísio, Caiado, Zema e Ratinho Jr. comportaram-se como embalsamadores. Interessa-lhes manter o culto ao mito, para herdar os votos dos devotos”.

Com cerca de 45 mil pessoas reunidas, segundo o Monitor do Debate Político, o ato foi modesto diante dos 185 mil que compareceram à mesma avenida em fevereiro do ano passado. A decadência numérica é acompanhada por um desgaste narrativo. Pesquisa Genial/Quaest, divulgada no mesmo dia do protesto, revela que 56% dos brasileiros são contra a anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. Apenas 18% acreditam que os golpistas jamais deveriam ter sido presos, evidenciando que o discurso do ex-presidente encontra guarida apenas entre uma fração mais radicalizada de seus eleitores.

A estratégia bolsonarista é conhecida: transformar número de fiéis em demonstração de maioria, manipular imagens de multidões para criar a ilusão de um país inteiro em seu encalço. Mas os dados desmentem a encenação. Mesmo entre aqueles que votaram em Bolsonaro em 2022 — 49,1% do eleitorado — apenas 36% defendem a libertação total dos presos. Os demais se dividem entre os que consideram justa a pena e os que acham que o tempo de cadeia já foi suficiente.

Enquanto as ruas se esvaziam, o cerco judicial se aperta. Bolsonaro é réu por tentativa de golpe de Estado, após a decisão unânime da Primeira Turma do STF em fevereiro. A denúncia, apresentada pela Procuradoria-Geral da República, baseia-se em provas robustas de articulação para subverter o resultado eleitoral de 2022. E, ainda que negue envolvimento direto nos atos do 8 de janeiro, a narrativa do “algo me avisou” — em referência à sua fuga para os EUA dois dias antes da posse de Lula — parece mais um artifício de um réu que tenta manter a aura de mártir do que uma explicação plausível.

O pedido por ajuda internacional, insinuado por Bolsonaro ao dizer que seu filho Eduardo “tem contato com pessoas importantes do mundo todo”, beira o delírio messiânico. Não há precedente na história democrática recente de apelo de um líder político a intervenções externas para reverter decisões judiciais de sua nação. Na ciência política, esse tipo de retórica é típico de regimes autoritários em colapso. Segundo o cientista político Steven Levitsky, autor de Como as Democracias Morrem, “o autoritarismo não precisa mais de tanques nas ruas; basta minar sistematicamente as instituições por dentro”.

Bolsonaro está inelegível até 2030 por uso indevido da máquina pública ao questionar, sem provas, o sistema eleitoral diante de embaixadores. E seu grupo político, agora dividido entre oportunistas e fanáticos, tenta mantê-lo como figura de referência — ainda que sepultado politicamente. O próprio governador Caiado, que lançou recentemente sua pré-candidatura presidencial, declarou à Folha de S. Paulo: “Não tem divisão. Todo pré-candidato vai buscar o seu espaço. Mas na reta final, todo mundo sabe como construir a vitória. Nós somos da política”. A fala resume o pragmatismo de quem usa o bolsonarismo como trampolim, mas sabe que, no fundo, o mito já virou múmia.

Por trás do espetáculo da Paulista, há um país real, ocupado em sobreviver. A maioria dos brasileiros não está nas ruas com camisetas verde-amarelas ou batons em punho. Está nos ônibus lotados, nas filas do SUS, no supermercado caro. Está alheia à micareta golpista. Segundo a Quaest, 52% dos brasileiros acreditam que o STF agiu corretamente ao transformar Bolsonaro em réu. E 49% consideram que ele participou diretamente da tentativa de golpe.

A democracia brasileira, resiliente desde a redemocratização de 1985, enfrenta agora outro teste decisivo. Mas, ao contrário do que tenta fazer crer o ex-presidente, o Brasil não é uma república de fiéis — é uma república de cidadãos. E cidadãos, como ensinava Norberto Bobbio, “só podem exercer sua liberdade em um regime que respeite as regras do jogo democrático”.

O culto ao líder começa a ruir quando a fantasia se dissolve diante da realidade. E a realidade, hoje, é que Jair Bolsonaro tenta, com cada vez menos sucesso, ressuscitar um projeto que já foi julgado, rejeitado e agora aguarda apenas sua sentença final.

A ilusão do mito e a realidade das urnas

Apesar das tentativas de Bolsonaro de se apresentar como vítima e mobilizar massas em atos como o da Paulista, pesquisa Datafolha revela que Lula venceria o ex-presidente e seus possíveis substitutos em todos os cenários testados para o segundo turno de 2026.

A pesquisa Datafolha divulgada no último sábado (5) lança luz sobre um dado essencial que desmonta a principal narrativa cultivada por Jair Bolsonaro e seu entorno: a ideia de que o povo brasileiro estaria ao seu lado, clamando por sua volta. Segundo o levantamento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceria hoje qualquer um dos principais nomes da direita em um eventual segundo turno das eleições de 2026 — incluindo o próprio Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Os números, obtidos a partir de 3.054 entrevistas presenciais em 172 municípios, escancaram uma realidade que contrasta com o teatro ensaiado na avenida Paulista no último domingo (6), quando Bolsonaro reuniu cerca de 45 mil pessoas pedindo anistia aos golpistas do 8 de janeiro. O evento, que tinha como objetivo vender a imagem de um líder popular injustiçado, revelou-se, na prática, uma tentativa desesperada de manter relevância diante de um cenário eleitoral e jurídico cada vez mais desfavorável.

Ao aparecer na Paulista ladeado por governadores que visam herdar seu capital político. Bolsonaro tenta manter-se como figura central da direita. Mas a Datafolha revela que mesmo seus potenciais sucessores não empolgam o eleitorado. Lula, segundo a pesquisa, venceria também Tarcísio e Michelle Bolsonaro em um eventual segundo turno, com vantagem consolidada mesmo dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Esse dado é particularmente significativo diante das movimentações dos bastidores da direita. Ronaldo Caiado, por exemplo, lançou-se como pré-candidato à presidência dois dias antes do ato bolsonarista, já testando os limites da lealdade ao “mito” e sinalizando que o jogo interno está em curso. Mas o eleitor brasileiro parece reconhecer a encenação: o sarcófago de Bolsonaro está em construção, e seus embalsamadores sabem disso.

Para além das estratégias de palanque, a realidade política impõe obstáculos sérios ao ex-presidente. Bolsonaro está inelegível até 2030 e responde criminalmente por tentativa de golpe. A ausência de uma “defesa técnica minimamente consistente”, como aponta a análise de Josias, revela que o verdadeiro plano de poder se reduz a uma única prioridade: evitar a cadeia. Todo o resto — atos públicos, batons em riste, discursos inflamados — é apenas ruído.

A pesquisa Datafolha, nesse contexto, funciona como um termômetro da racionalidade democrática. Mostra que o povo brasileiro, embora plural e muitas vezes polarizado, não está disposto a legitimar aventureiros que tentaram minar as instituições republicanas. Mostra também que o lulismo, mesmo sob ataques e críticas, segue como força majoritária e resiliente, sobretudo diante de uma oposição que parece mais preocupada em manter o cadáver político do bolsonarismo em movimento do que em apresentar um projeto real de país.

Como bem advertiu o filósofo Michel Foucault, “a política é a guerra continuada por outros meios”. E no campo simbólico dessa guerra, os atos de rua e as pesquisas de opinião são armas poderosas. Mas é na urna — esse artefato silencioso e incorruptível — que se desenha o destino de um país. E, por ora, o destino aponta para longe da extrema direita e do culto ao mito.

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