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Poder
Enquanto o pai busca redução de pena e prisão domiciliar, o filho percebe que não lhe resta mais nada, a não ser atacar
Publicado em 25/09/2025 5:31 - Semana On
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Jair Bolsonaro precisa da moderação. Eduardo Bolsonaro oferece confronto. A divergência entre pai e filho, ambos investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), expõe um racha no núcleo duro do bolsonarismo. Acuado, o ex-presidente tenta construir pontes com o Congresso e o Judiciário para viabilizar uma possível redução de pena e garantir ao menos uma prisão domiciliar. Já Eduardo, de longe, dinamita as pontes com ataques diretos ao Supremo, ao Centrão e até ao próprio partido, o PL.
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Impedido de manter contato direto com o filho por ordem do ministro Alexandre de Moraes — relator de inquéritos que investigam a tentativa de golpe de 8 de janeiro e a coação de instituições democráticas — Bolsonaro acionou interlocutores para enviar um recado claro: que Eduardo “feche a boca” e pare de atrapalhar as articulações em curso no Brasil.
Segundo apuração da Folha de S.Paulo, um dos nomes escalados para a tarefa seria o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-SP), que visitou Bolsonaro recentemente. Apesar de negar o papel de mensageiro, sua presença nos EUA aponta para a tentativa do entorno do ex-presidente de conter os danos provocados por Eduardo e seu aliado mais próximo, o comentarista Paulo Figueiredo.
Nos Estados Unidos, um discurso que sabota Brasília
Desde que passou a transitar com desenvoltura entre figuras da extrema direita americana, Eduardo Bolsonaro assumiu uma agenda internacional própria. Participou de eventos com aliados de Donald Trump, defendeu sanções contra o Brasil e atacou diretamente os ministros do Supremo e todos os que, de alguma forma, adotem posturas que lhe desaghadem. O ponto mais sensível para o pai, no entanto, foi a comemoração pública das sanções impostas pelo Departamento de Estado dos EUA à mulher de Alexandre de Moraes.
“Quem está sob coação é o meu pai”, escreveu Eduardo em seu perfil no X (ex-Twitter), em resposta à denúncia da PGR contra ele por coação. Para Eduardo, o ex-presidente é hoje “refém”, incapaz de negociar sua própria liberdade. A mensagem, reforçada por Paulo Figueiredo, desenha um Bolsonaro fraco e manipulado: “uma vítima presa, doente e incapaz de decidir”.
Esse discurso, além de beligerante, mina a principal estratégia do ex-presidente: costurar acordos políticos que atenuem seu destino, o que exige articulação, moderação e silêncio estratégico — tudo o que Eduardo se recusa a oferecer.
Rumo próprio e cálculo eleitoral
Eduardo Bolsonaro não apenas ignora os apelos do pai, como avança em uma trilha própria. Lançou-se como pré-candidato à Presidência em 2026, mesmo sem o aval de Jair Bolsonaro, e já avisou que enfrentará até o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, se for necessário. Tarcísio é hoje o nome que o bolsonarismo moderado tenta emplacar como sucessor político do ex-presidente, com apoio do PL e setores do agronegócio.
Nas palavras de Eduardo, o movimento para empurrar Tarcísio para a disputa é parte de uma tentativa de “enfiar um acordo goela abaixo” do ex-presidente, retirando dele a bandeira da anistia e a liderança da direita. “Existe um movimento para exterminar com a direita. Quem ignorar isso é um verdadeiro negacionista, apenas um peão no tabuleiro prestes a ser tirado do jogo”, afirmou.
A retórica belicosa não poupa nem o próprio partido. Em uma postagem recente, Eduardo atacou Valdemar Costa Neto, presidente do PL, chamando-o de “víbora” e denunciando os “esquemas espúrios dos batedores de carteira da ocasião”. Com isso, isola-se não só da cúpula do partido, mas também de parlamentares que buscam garantir alguma sobrevida institucional ao bolsonarismo.
Caminho perigoso: risco de cassação e prisão
Enquanto articula nos EUA, Eduardo se distancia do mandato. Segundo levantamento da Veja, já faltou a 23 das 39 sessões deliberativas da Câmara em 2025 — número que ultrapassa o limite permitido pelo regimento, que é de um terço. Ainda que algumas ausências sejam justificadas, o dado revela uma atuação parlamentar praticamente nula no Brasil.
Mais grave é a situação no Conselho de Ética da Câmara, que abriu nesta semana um processo contra Eduardo por quebra de decoro, com base em suas falas e ações contra o STF. Ele ainda responde no STF por coação e pode ser incluído em outras ações penais, assim como o pai.
A jornalista Eliane Cantanhêde, colunista do Estadão, resumiu o dilema do clã: “Nunca antes um pai precisou ser salvo do próprio filho com tanta urgência”. Já o professor de ciência política Cláudio Couto (FGV) observa que “a radicalização de Eduardo cria um problema de governabilidade mesmo para a oposição. É um discurso que não soma e ainda desorganiza o campo bolsonarista moderado”.
O custo da rebeldia
Se o plano inicial de Eduardo era salvar o pai por meio da pressão internacional e da denúncia das instituições brasileiras, o saldo até agora parece ser o oposto: isolamento, desgaste institucional e sabotagem interna. Bolsonaro, agora mais preocupado com a liberdade do que com o legado, enxerga o filho não como salvador, mas como risco.
Em Brasília, cresce a percepção de que o maior obstáculo para a anistia de Jair Bolsonaro pode estar a milhares de quilômetros — em Miami, com um sobrenome igual ao seu.
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