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Poder

Bolsonaro se encolheu diante da realidade

Ex-presidente muda o tom, pede desculpas e chama aliados de malucos

Publicado em 11/06/2025 9:10 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Num tribunal que antes atacava com bravatas e acusações infundadas, Jair Bolsonaro, o ex-presidente que flertava com o autoritarismo travestido de discurso patriótico, adotou ontem, em seu depoimento, um tom manso, quase submisso, diante de seus julgadores. Perante o ministro Alexandre de Moraes, antes retratado como inimigo da pátria pela extrema-direita bolsonarista, o ex-mandatário pediu desculpas, negou intenções golpistas e classificou como “malucos” os próprios seguidores que exigiam intervenção militar. O contraste entre o Bolsonaro presidente e o Bolsonaro réu não apenas escancara a pusilanimidade de sua figura política, como também evidencia o esvaziamento moral e intelectual da extrema direita brasileira.

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Durante os depoimentos conduzidos pelo STF, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes e com a atuação técnica do procurador-geral Paulo Gonet, foi possível assistir a um espetáculo revelador — não de confrontos, mas de recuos. Bolsonaro, confrontado com provas, delações e até minutas de um decreto golpista, reconheceu que procurou os chefes das Forças Armadas após a derrota eleitoral. Admitiu que os consultou sobre um plano para anular o resultado das urnas, mas justificou sua inação com uma expressão que se tornaria icônica: “não havia clima”.

A declaração, repetida também por figuras como o general Augusto Heleno, revela não a ausência de intenção, mas a carência de apoio institucional. Em outras palavras: o golpe só não aconteceu porque foi mal arquitetado, não porque fosse moralmente rejeitado. Segundo Christian Dunker, psicanalista e professor da USP, expressões como essa podem ser lidas como atos falhos, isto é, lapsos de linguagem que revelam conteúdos reprimidos. A psicanálise, neste caso, oferece um diagnóstico mais preciso do que a ciência política: houve desejo de ruptura, mas faltaram meios.

Minuta, militares e mentiras

A cada revelação das investigações da Polícia Federal, o roteiro golpista se confirma. A minuta do decreto de Estado de Sítio — que previa a prisão de ministros do STF e a anulação das eleições — foi, sim, redigida e apresentada a comandantes militares. O ex-ajudante de ordens e delator Mauro Cid confirmou que o Exército só não aderiu porque o então comandante Freire Gomes se recusou a participar da aventura. Já o general Estevam Theophilo teria se comprometido a cumprir ordens, caso o documento fosse assinado. A instabilidade do regime, portanto, não foi evitada por virtude, mas por veto interno.

Ao contrário de suas declarações inflamadas no poder, como em 2020, quando acenou ao público que clamava por AI-5 afirmando que “não tem preço o que esse povo está fazendo aqui”, Bolsonaro agora se esquiva: nega ter incentivado rupturas, diz ter “temperamento explosivo” e pede desculpas por falsas acusações contra ministros do STF. “Não tenho indício nenhum. Me desculpe”, declarou, referindo-se a acusações de corrupção que ele mesmo propagou contra Moraes, Barroso e Fachin.

Essa metamorfose de tom não revela apenas oportunismo, mas uma estratégia clara de autopreservação: enquanto no tribunal tenta parecer conciliador, fora dele ainda acena a seu público com frases ambíguas e insinuações, alimentando uma narrativa paralela nas redes bolsonaristas. A dubiedade é método, como explicou o historiador Timothy Snyder, da Universidade Yale, em seu livro Sobre a Tirania: “Os líderes autoritários dizem o que querem, depois recuam, criando confusão e cultivando seguidores que aceitam tudo”.

A democracia diante do espelho

A narrativa construída nas audiências não deixa margem para dúvidas. O país esteve à beira de um golpe — e só não o consumou por resistência institucional. A atuação firme e serena do STF, especialmente de Alexandre de Moraes, e a solidez das provas reunidas pela Polícia Federal, demonstram que o Estado Democrático de Direito, embora fragilizado, sobreviveu. Mas isso exige vigilância contínua.

“Foi por pouco”, admitiu o brigadeiro Baptista Jr. “Estivemos perto.” A frase ecoa como advertência histórica. A democracia brasileira, tão jovem quanto combalida, enfrenta não apenas ataques explícitos, mas também um relativismo moral que tenta reescrever fatos. Bolsonaro, que já disse que “graças a mim o pessoal não fez absurdo”, agora se distancia dos atos que inspirou, desmobiliza seguidores que incitou e abandona aliados no altar da conveniência.

A responsabilidade, no entanto, não é apenas jurídica, mas coletiva. Como sociedade, resta a nós decidir: anistiar o crime contra a democracia, como em 1979, ou responsabilizar exemplarmente os que atentaram contra o Estado de Direito? Como alertou Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém, o perigo não está apenas na maldade de indivíduos, mas na banalização de seus atos. E é essa banalidade do golpismo, travestida de “temperamento explosivo” ou “ausência de clima”, que precisa ser nomeada e julgada.

Submissão não é arrependimento

Ao fim, as audiências não nos mostraram um Bolsonaro arrependido, mas acuado. Sua estratégia híbrida — jurídica e política — tenta evitar a condenação enquanto preserva algum capital simbólico junto a sua base. Mas os registros históricos, os depoimentos, os documentos e as contradições não deixam margem: houve tentativa de golpe. E como já ensinava o jurista Miguel Reale Júnior, em crimes contra a ordem constitucional, “a tentativa já configura o delito, dada sua gravidade”.

O episódio reforça que a democracia brasileira não é garantida por discursos, mas por instituições e ações concretas. A pusilanimidade do ex-presidente diante do tribunal expõe o verdadeiro traço de sua liderança: bravura performática quando protegido pelo poder, submissão quando confrontado pelos fatos. E talvez o maior alerta que essas audiências nos deixam seja esse: o golpismo é sempre covarde, mas jamais inofensivo.

Quais são os crimes apontados na denúncia apresentada pela PGR?

Organização criminosa: associação de quatro ou mais pessoas em uma estrutura ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas om objetivo de obter vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais. Pena prevista: de três a oito anos de prisão.

Abolição violenta do Estado Democrático de Direito: tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais. Pena: de quatro a oito anos de prisão.

Golpe de Estado:  Tentar depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído. Pena: de quatro a 12 anos de prisão.

Dano qualificado: destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia, com violência e grave ameaça. O crime também é considerado mais grave quando cometido contra o patrimônio público ou de entidades específicas ou com grave ameaça. Pena: de seis meses a três anos de prisão.

Deterioração de patrimônio tombado: destruir, inutilizar ou deteriorar bem especialmente protegido por lei. Pena de um a três anos de prisão.

Próximas fases

O interrogatório dos réus é a última etapa da fase de instrução do processo penal que tramita no STF.

Encerrados os interrogatórios, tanto a defesa quanto acusação poderão solicitar requerer diligências complementares -como depoimentos de novas testemunhas e solicitação de documentos. Depois dessa fase, a defesa e acusação deverão apresentar suas alegações finais, num prazo de 15 dias.

Na próxima etapa, o ministro relator do caso, Alexandre de Moraes, vai preparar seu voto e liberar o caso para julgamento pela Primeira Turma do STF. O julgamento será marcado pelo presidente da Turma, Cristiano Zanin. Os membros da turma – Zanin, Moraes, Carmen Lúcia, Luiz Fux e Flávio Dino – vão decidir pela condenação ou absolvição dos réus.

O AVANÇO


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