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Poder

Bolsonaro prepara recado a Tarcísio e sela Flávio como candidato

Filiação de Caiado ao PSD reposiciona a direita na sucessão presidencial

Publicado em 28/01/2026 12:04 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Depois de adiar o encontro na semana passada, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), deve ouvir nesta quinta-feira (29), diretamente de Jair Bolsonaro (PL), uma mensagem que vinha sendo evitada nos bastidores: o ex-presidente escolheu Flávio Bolsonaro (PL) como seu herdeiro político na disputa presidencial.

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Segundo relatos de integrantes da cúpula do PL, Bolsonaro pretende ser explícito. No encontro marcado para a chamada “Papudinha”, no Complexo Penitenciário da Papuda, onde está preso, ele deve afirmar que o senador é o nome da família para a corrida ao Planalto e que cabe à direita se organizar em torno dessa candidatura para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A sinalização já era aguardada pelo bolsonarismo mais fiel. O teor da conversa circulou entre parlamentares e dirigentes do partido durante o ato final da caminhada organizada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), em Brasília, no domingo passado. A expectativa era de que o recado tivesse sido dado ainda na última quinta-feira, quando o Supremo Tribunal Federal autorizou a visita de Tarcísio ao ex-presidente.

O encontro, porém, foi cancelado na terça-feira anterior, alimentando especulações e desconforto no campo conservador. A desistência ocorreu depois de a imprensa noticiar que Bolsonaro deixaria claro a Tarcísio que Flávio é o escolhido para a disputa presidencial — o que foi interpretado, por setores do bolsonarismo, como resistência do governador em ouvir uma decisão que frustra seus próprios apoiadores.

Publicamente, Tarcísio tem buscado se afastar do debate eleitoral nacional. No domingo, afirmou que não seria candidato à Presidência nem mesmo se Bolsonaro lhe fizesse um pedido direto. Disse também que a visita ao ex-presidente teria caráter pessoal, como gesto de solidariedade, e não trataria de sucessão presidencial.

“Na última visita que fiz a Bolsonaro, quando ele estava em prisão domiciliar, ele me perguntou qual era a minha posição na eleição presidencial. Eu respondi: ‘a minha posição é ficar em São Paulo’”, declarou o governador à rádio Jovem Pan Sorocaba.

Apesar do discurso, o cancelamento da visita aprofundou o mal-estar. Nos círculos mais radicalizados do bolsonarismo, começaram a surgir acusações de que Tarcísio estaria “em cima do muro” — ou mesmo sendo um “traíra” — por não deixar claro qual cargo pretende disputar em 2026. A justificativa oficial de agenda cheia não convenceu aliados, já que o dia reservado ao encontro foi ocupado por despachos internos no Palácio dos Bandeirantes.

A pressão surtiu efeito. Ainda na quinta-feira, Tarcísio remarcou a visita à Papuda e, no dia seguinte, afirmou publicamente que pretende ajudar Flávio Bolsonaro. A declaração, feita de forma pouco habitual em conversas com a imprensa, foi interpretada como sinal de recuo diante do desgaste crescente.

Para lideranças do centrão, o episódio revela mais do que um ruído momentâneo. Na avaliação desses políticos, a família Bolsonaro optou deliberadamente por preterir o nome considerado mais competitivo da direita — o governador paulista — para preservar sua hegemonia sobre o campo conservador. Ao escolher Flávio, o clã evita o surgimento de uma nova liderança nacional capaz de rivalizar com o bolsonarismo tradicional e mantém o controle sobre o discurso e o capital político da direita.

Filiação de Caiado ao PSD reposiciona a direita na sucessão presidencial

A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD reconfigurou o tabuleiro da sucessão presidencial dentro da legenda e reforçou a avaliação de que não haverá disputa formal por meio de prévias. A leitura foi explicitada nesta quarta-feira (28) pelo governador do Paraná, Ratinho Júnior, também citado como potencial presidenciável.

Com a chegada de Caiado, o PSD passa a concentrar ao menos três governadores com projeção nacional, somando-se a Ratinho Jr. e a Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Ainda assim, a direção partidária e seus principais quadros apostam em uma definição negociada. A avaliação predominante é a de que o processo ocorrerá por convergência política, sem enfrentamentos internos.

Em entrevista ao podcast Warren Política, Ratinho Jr. afirmou que o ambiente na legenda é de construção coletiva. Segundo ele, não há clima de disputa aberta, mas de disposição para apoiar aquele que demonstrar maior capacidade de articulação, formação de alianças e apresentação de um projeto consistente para o país. “Quem conseguir unir forças naturalmente será o escolhido”, resumiu.

O governador paranaense também comentou o papel de Tarcísio de Freitas no cenário nacional. Embora o presidente do PSD, Gilberto Kassab, tenha sinalizado preferência por uma eventual aliança com o chefe do Executivo paulista, Ratinho avalia que Tarcísio tende a priorizar a reeleição em São Paulo. Na sua análise, ele é hoje o nome mais competitivo do campo conservador, mas carrega uma trajetória nacional ainda curta, impulsionada decisivamente pelo apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro — ativo político que amplia sua visibilidade, mas também impõe limites.

Enquanto Tarcísio adota postura cautelosa, Caiado faz o movimento oposto. Após perder espaço no União Brasil, o governador goiano passou a se apresentar como alternativa presidencial no campo conservador, buscando diferenciar-se do bolsonarismo mais estridente. As conversas para mudança de legenda avançaram sobretudo com o PSD e com siglas como Podemos e Solidariedade, dentro de uma estratégia de reposicionamento político.

A aposta inclui a formação de uma coligação com partidos pequenos e médios do centro e do centro-direita. Kassab ofereceu a Caiado a garantia central para qualquer presidenciável: uma legenda assegurada para disputar o Planalto. O movimento ocorre em meio à sinalização dos grandes partidos do centrão de que devem se manter fora da corrida presidencial, evitando associação direta ao nome de Flávio Bolsonaro — sobretudo por causa da elevada rejeição ao bolsonarismo em regiões como o Nordeste.

Nesse contexto, a legislação eleitoral favorece candidaturas lançadas por partidos médios. O tempo de propaganda de siglas sem candidato ao Planalto tende a ser redistribuído, o que daria a Caiado, já na largada, uma vitrine relevante em rádio e televisão. Não por acaso, sua decisão frustrou os planos da família Bolsonaro de atrair, por gravidade, os principais nomes da direita e evitar fragmentação no primeiro turno.

Entre os possíveis candidatos do PSD, Caiado é hoje o único que já estruturou uma equipe profissional de comunicação, sinalizando disposição concreta para a disputa. Ainda assim, sua viabilidade política depende de um fator central: o grau de distanciamento em relação a Bolsonaro.

Atualmente, Caiado integra um grupo de governadores conservadores — que inclui Ratinho Jr., Romeu Zema e o próprio Tarcísio — que enfrenta dificuldades para se desvincular do ex-presidente, figura associada à disseminação de desinformação durante a pandemia e à tentativa de anular o resultado das eleições de 2022. As pesquisas indicam que o sobrenome Bolsonaro ainda garante visibilidade inicial, mas carrega uma taxa elevada de rejeição, que limita o crescimento eleitoral.

Para se afirmar como um contraponto racional ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Caiado precisará marcar distância inequívoca do bolsonarismo. Caso contrário, corre o risco de entrar na disputa como coadjuvante de um projeto político em declínio, não como líder de uma alternativa conservadora autônoma.

Em síntese, o governador de Goiás está diante de uma encruzilhada estratégica: ou contribui para qualificar o debate presidencial, oferecendo uma direita institucionalmente responsável, ou compromete a própria trajetória ao insistir em uma vinculação que já demonstrou seus limites eleitorais e democráticos.

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