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Poder
Julgamento no STF definirá se ex-presidente e aliados responderão por tentativa de golpe
Publicado em 24/03/2025 8:51 - Semana On
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O Brasil está prestes a vivenciar um momento histórico. Nos dias 25 e 26 de março, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidirá se o ex-presidente Jair Bolsonaro e sete de seus aliados se tornarão réus por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado. A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) descreve Bolsonaro como o centro de uma articulação golpista que visava impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em 2023, subvertendo a ordem democrática.
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O julgamento ocorre em um contexto de profunda polarização política e marcará um dos mais relevantes embates jurídicos da história recente do Brasil. Pela primeira vez, um ex-presidente pode ser formalmente responsabilizado por uma ação contra o Estado Democrático de Direito. Os desdobramentos desse caso não apenas influenciarão a trajetória política de Bolsonaro, mas também estabelecerão precedentes para a consolidação – ou fragilização – da democracia brasileira.
Mas qual será o impacto desse julgamento? Como se estrutura a acusação contra Bolsonaro? Quais são os argumentos da defesa? E, mais importante, o que está em jogo para o futuro institucional do Brasil?
O rito do julgamento
O julgamento será conduzido pela Primeira Turma do STF, composta pelos ministros Cristiano Zanin (presidente), Alexandre de Moraes (relator), Cármen Lúcia, Flávio Dino e Luiz Fux. O rito processual prevê uma sequência clara:
Abertura e relatório: O ministro Zanin abre a sessão, apresenta os pontos a serem discutidos e estabelece a ordem dos trabalhos. Em seguida, Moraes lê seu relatório, sintetizando a denúncia da PGR.
Sustentação oral: A PGR, representada por Paulo Gonet, tem 30 minutos para sustentar a acusação. Os advogados dos oito acusados dispõem de 15 minutos cada para suas defesas.
Questões preliminares: Os ministros analisam eventuais nulidades ou impedimentos processuais antes de discutir o mérito.
Votação do mérito: Alexandre de Moraes, como relator, vota primeiro. Os demais ministros votam na seguinte ordem: Flávio Dino, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin.
Proclamação do resultado: Zanin anuncia a decisão final da Turma. Para que a denúncia seja aceita, são necessários ao menos três votos favoráveis.
Se a maioria aceitar a denúncia, Bolsonaro e os demais se tornarão réus e o processo avançará para uma fase de instrução, na qual serão coletadas novas provas e ouvidas testemunhas. Se rejeitada, a acusação será arquivada, encerrando a ação penal antes do julgamento do mérito.
A denúncia da PGR se baseia em um inquérito da Polícia Federal que descreve Bolsonaro como líder de uma articulação que tentou desacreditar o sistema eleitoral, disseminando desinformação e mobilizando apoio militar para um golpe de Estado. Além do ex-presidente, os réus incluem nomes de peso do alto escalão do governo anterior, como os ex-ministros da Defesa (Paulo Sérgio Nogueira e Braga Netto), da Justiça (Anderson Torres) e do Gabinete de Segurança Institucional (Augusto Heleno), além do ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, do ex-comandante da Marinha, Almir Garnier, e do ex-ajudante de ordens Mauro Cid, que fez delação premiada.
Os argumentos da defesa
A defesa dos acusados adotou uma estratégia de ataque múltiplo, contestando desde o foro adequado até a validade das provas. Alguns dos principais pontos levantados são:
Competência da Primeira Turma: A defesa sustenta que, dada a gravidade do caso e a presença de um ex-presidente e ex-ministros, o julgamento deveria ser realizado pelo plenário do STF. A PGR rebate essa alegação, lembrando que uma alteração no regimento do Supremo, feita em 2023, definiu que as turmas devem julgar ações penais da Corte.
Imparcialidade do relator: Os advogados tentam afastar Moraes da relatoria, argumentando que sua atuação foi excessivamente ativa durante a fase de investigação. A PGR refuta essa tese, destacando que a relatoria seguiu os trâmites normais e que a atuação proativa de Moraes decorreu da gravidade do caso.
“Document dump” e excesso de provas: A defesa acusa a PGR de ter apresentado uma quantidade excessiva de documentos para dificultar a análise dos advogados. A Procuradoria, por sua vez, nega a acusação e argumenta que a complexidade do caso exige a apresentação de um grande volume de provas.
Validade da delação de Mauro Cid: A defesa de Bolsonaro pede a anulação do acordo de delação premiada do ex-ajudante de ordens, alegando que ele mentiu e que sua prisão comprometeu a voluntariedade do acordo. A PGR rejeita esse argumento e reforça que o acordo foi validado judicialmente.
Ausência de ligação direta com o 8 de janeiro: Os advogados afirmam que a denúncia contra Bolsonaro carece de provas que o conectem diretamente aos atos golpistas. A PGR rebate, destacando que a tentativa de golpe não se limitou ao 8 de janeiro, mas foi um processo articulado ao longo de meses.
O futuro de Bolsonaro e da democracia brasileira
O julgamento de Bolsonaro transcende a esfera jurídica e se insere em um debate político maior sobre a responsabilização de lideranças autoritárias. A questão central é: um ex-presidente pode ser punido por atentar contra a democracia?
O Brasil já enfrentou crises institucionais severas, mas a responsabilização penal de um ex-mandatário por tentativa de golpe é um evento sem precedentes. O caso será um termômetro para medir a resiliência das instituições democráticas diante de ameaças internas.
A literatura política oferece perspectivas importantes para compreender o momento. O historiador Timothy Snyder, em Sobre a Tirania, alerta que “as instituições só se mantêm quando são defendidas”. Se o STF aceitar a denúncia, o Brasil dará um passo importante para reafirmar que ataques à democracia não serão tolerados. Por outro lado, caso a denúncia seja rejeitada, a decisão poderá ser interpretada como um sinal de impunidade, incentivando novas tentativas de ruptura institucional no futuro.
Outro aspecto relevante é o impacto na base bolsonarista. Desde que deixou o poder, Bolsonaro tem explorado a narrativa de que é vítima de perseguição política. O julgamento no STF alimentará esse discurso e poderá reforçar sua posição como líder da extrema-direita, mesmo que, juridicamente, esteja mais fragilizado.
Um momento decisivo para o Brasil
Independentemente do resultado, o julgamento de Bolsonaro será um marco para a história do Brasil. Se a denúncia for aceita, abrirá caminho para a primeira responsabilização penal de um ex-presidente por tentativa de golpe. Se for rejeitada, será um duro golpe na luta contra a impunidade de crimes contra a democracia.
A democracia brasileira, ainda jovem, precisa mostrar que é capaz de se proteger. A decisão da Primeira Turma do STF não será apenas sobre Bolsonaro, mas sobre o futuro do próprio país. Afinal, como alertava Karl Popper, “a democracia não pode ser tolerante com aqueles que querem destruí-la”.
Resta saber se o Brasil aprenderá essa lição a tempo.
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