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Poder

Bolsonaristas articulam nos EUA ataque ao STF

Grupo liderado por Eduardo Bolsonaro alimenta ofensiva contra a democracia brasileira

Publicado em 26/05/2025 9:51 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Na mais recente ofensiva da extrema direita brasileira contra as instituições democráticas, uma rede de políticos, influenciadores e fugitivos da Justiça encontrou nos Estados Unidos o palco ideal para tentar internacionalizar o ataque ao Supremo Tribunal Federal e, especialmente, ao ministro Alexandre de Moraes. À sombra do trumpismo e com apoio de figuras do Partido Republicano, a ação liderada por Eduardo Bolsonaro sinaliza um novo estágio na tentativa de enfraquecimento do Estado de Direito no Brasil: a guerra híbrida feita de conspirações, fake news e lobby internacional.

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As ameaças do senador americano Marco Rubio de enquadrar Alexandre de Moraes na “Lei Magnitsky”, legislação destinada a punir violadores de direitos humanos, escancaram a inversão orwelliana promovida por esta rede: transformar um defensor da democracia em pária internacional. A lei, criada para coibir crimes reais, como os perpetrados por oligarquias autoritárias e ditadores em regimes repressivos, é instrumentalizada agora como arma retórica contra um magistrado que tem sido protagonista no combate à desinformação e ao golpismo no Brasil.

O movimento não é isolado. Dias antes, Donald Trump submeteu o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa a um constrangimento diplomático ao repetir a farsa do “genocídio branco” – uma fantasia racista disseminada por grupos supremacistas e já desmentida até mesmo por representantes dos afrikaners, como o partido Freedom Front Plus. O que une essas duas ações é o mesmo substrato ideológico: a paranoia conspiratória que substitui a política pelo delírio.

Da conspiração à ação: o lobby bolsonarista nos EUA

Com Eduardo Bolsonaro à frente, uma comitiva de parlamentares brasileiros de extrema direita tem articulado encontros com políticos e agentes do governo americano para fabricar uma “realidade paralela” sobre a democracia brasileira. Na agenda, a tentativa de construir uma narrativa de perseguição judicial, censura institucional e violação de direitos fundamentais – justamente por parte das instituições que resistiram ao avanço autoritário.

No dia 14 de maio, Eduardo Bolsonaro e o comentarista Paulo Figueiredo Filho, este último denunciado por tentativa de golpe de Estado, estiveram pela segunda vez em um mês na Casa Branca. Também participaram da ofensiva os deputados Rodrigo Valadares, Caroline de Toni, Filipe Barros, Maurício Neves, Dr. Frederico, Paulo Bilynskyj e o senador Jorge Seif. Parte das viagens foi bancada com recursos públicos, segundo confirmação da Câmara dos Deputados.

O objetivo? Municiar congressistas republicanos como Cory Mills e Brian Mast com supostos “subsídios” que justifiquem a acusação de que o STF age como órgão autoritário. Mills, por exemplo, é o mesmo que qualificou como “autoritária” a suspensão do X (ex-Twitter) no Brasil por desrespeito a decisões judiciais. A manipulação dos fatos atinge aqui seu grau máximo: transformar medidas legais de contenção à desinformação em provas de uma ditadura judicial.

O exílio como estratégia: da fuga da Justiça à propaganda migratória

Para além da retórica, o bolsonarismo exportado à América opera em três frentes: a articulação política com republicanos trumpistas; a disseminação de desinformação por meio de mídias alternativas como a Revista TimeLine; e a construção de uma rede de apoio migratório para conservadores brasileiros, como se os Estados Unidos fossem um “porto seguro” para os que se consideram perseguidos.

A ex-juíza Ludmila Lins Grilo, afastada por má conduta nas redes, moveu denúncia contra Alexandre de Moraes na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O comentarista Allan dos Santos, foragido após ter prisão decretada por incitação ao crime e lavagem de dinheiro, criou nova empresa de mídia e participa de lives em que o Brasil é descrito como “regime opressor”. Ao seu lado, nomes como Cristiane Brasil, Rodrigo Constantino, Luís Ernesto Lacombe e Max Cardoso ajudam a manter viva a máquina de fake news fora do alcance da Justiça brasileira.

A cereja do bolo é a promoção sistemática de serviços de imigração voltados a simpatizantes do bolsonarismo. Em vídeos e transmissões ao vivo, esses influenciadores vendem a ideia de que o governo de Donald Trump acolherá “perseguidos políticos brasileiros”. A advogada Ingrid Domingues-McConville, por exemplo, foi apresentada em lives como especialista em “tirar conservadores do Brasil”, sob o lema: Trump quer você!

O paradoxo é brutal: enquanto a extrema direita americana promove uma agenda restritiva e hostil à imigração, bolsonaristas vendem o sonho da liberdade sob o guarda-chuva de um governo que prende estudantes estrangeiros por protestar, como no caso de Mahmoud Khalil, detido sem julgamento desde março por organizar atos pró-Palestina.

Uma ameaça à soberania, à democracia e à verdade

A tentativa de transformar Alexandre de Moraes em símbolo de autoritarismo não visa apenas intimidar o magistrado. Trata-se de uma estratégia mais ampla: deslegitimar o sistema judicial brasileiro, minar a credibilidade das eleições e fragilizar o próprio pacto democrático.

Ao exportar uma narrativa forjada para o exterior, os conspiradores tentam operar sob outra lógica de dominação: a da política imperial que se vale de alianças ideológicas para interferir em soberanias nacionais. A história do século XX está repleta de exemplos de como forças internas colaboraram com potências estrangeiras para sabotar democracias em nome de agendas autoritárias — do Chile de Allende à Guatemala de Árbenz. O Brasil, hoje, vive sua versão digitalizada e globalizada desse drama histórico.

Como observa o cientista político Steven Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018): “os ataques à Justiça, à mídia e ao processo eleitoral são sinais claros de erosão democrática, especialmente quando promovidos por quem está dentro do sistema e se vale de suas instituições para destruí-las.” Alexandre de Moraes, ao contrário do que alegam seus algozes, representa justamente o esforço de preservar esse sistema — por isso é alvo prioritário.

A democracia resiste, mas está sob ataque. E esse ataque, agora, fala português com sotaque gringo.

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