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Poder

Bolsonarismo perde força nas ruas e Tarcísio topa tudo por um voto

Governador de SP se dobra ao golpismo para herdar eleitores do “mito”

Publicado em 30/06/2025 12:14 - Semana On

Divulgação Reprodução

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No último domingo de junho, enquanto Jair Bolsonaro discursava para pouco mais de 12 mil apoiadores na avenida Paulista, o vazio ao seu redor parecia mais eloquente que suas palavras. Com a voz embargada entre apelos por anistia e promessas de retorno, o ex-presidente reconheceu, pela primeira vez, uma possibilidade até então impensável para seus seguidores: “Nem preciso ser presidente”.

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A fala, dita entre devotos que diminuem a cada ato, ecoa como o suspiro de um projeto político em declínio. Segundo o Monitor do Debate Político da USP, que aplicou inteligência artificial sobre imagens aéreas do ato, o protesto de 29 de junho teve público 72% menor do que o de abril e apenas 7% do registrado em fevereiro de 2024. Em contraste, a Parada do Orgulho LGBT+, uma semana antes, atraiu quase quatro vezes mais pessoas para a mesma avenida. O bolsonarismo, que já foi sinônimo de mobilização de massa, hoje parece ser incapaz de encher uma quadra.

A explicação para esse esvaziamento é multifatorial, mas gira em torno de um eixo claro: a erosão da figura de Jair Bolsonaro como liderança política viável e a rejeição crescente à ideia de anistia aos réus de 8 de janeiro — incluindo ele próprio. A pesquisa Genial/Quaest mostra que 56% dos brasileiros são contrários à anistia, número que se mantém elevado inclusive entre seus próprios eleitores de 2022.

O fim da mística populista

Bolsonaro construiu sua carreira política a partir da ruptura com a institucionalidade democrática. Desde sua campanha de 2018, sustentou-se por meio da confrontação sistemática das instituições: o STF, o Congresso, a imprensa, os tribunais eleitorais. O capitão reformado virou símbolo de um ressentimento social cultivado desde as Jornadas de Junho de 2013 e catalisado pelo antipetismo que se espalhou após os escândalos de corrupção da Lava Jato.

Mas o projeto personalista e autoritário do bolsonarismo sempre teve como base um líder com poder de mobilização e aura de “salvador”. Agora, com o ex-presidente inelegível, investigado e prestes a ser julgado por tentativa de golpe, a fantasia começa a se dissolver. A retórica da “caça política” já não convence como antes. Em lugar da esperança de retorno, instala-se a dúvida sobre o futuro da extrema direita.

Como escreve a cientista política Wendy Brown, no livro Nas Ruínas do Neoliberalismo (Zahar, 2020), regimes populistas autoritários tendem a colapsar quando a figura central perde sua capacidade de oferecer coesão simbólica à sua base. O bolsonarismo parece ter alcançado esse ponto. Seu líder ainda mobiliza paixão, mas já não mobiliza massas.

Tarcísio de Freitas e a tentativa de reconfiguração da direita

Nesse vácuo de liderança, Tarcísio de Freitas desponta como um possível herdeiro. Mas seu percurso é tudo, menos simples. Engenheiro militar, ex-ministro da Infraestrutura, governador de São Paulo e atual “afilhado político” de Bolsonaro, Tarcísio tenta operar uma transição complexa: manter a fidelidade simbólica ao bolsonarismo, mas construir pontes com o centrão, com o mercado e até com parte do STF.

Durante o ato de domingo, ele poupou Alexandre de Moraes, não endossou ataques explícitos ao Supremo e preferiu direcionar suas críticas ao governo Lula. Falou em corrupção, juros altos, estatismo e “gastança”, tentando se posicionar como uma alternativa liberal-conservadora “responsável” — algo como um Bolsonaro sem a retórica golpista.

Mas esse jogo duplo carrega riscos. Ao apoiar atos cuja pauta central é o indulto a golpistas, Tarcísio legitima a ala mais radical da base bolsonarista. Ao mesmo tempo, ao buscar espaço em eventos como o Fórum de Lisboa — promovido pelo ministro Gilmar Mendes — e se aproximar do establishment jurídico e empresarial, tenta se tornar aceitável para a centro-direita e para o andar de cima do capital.

A ambiguidade é estratégia, mas também é armadilha. Como lembra o sociólogo Pierre Rosanvallon, em A Contrademocracia (Companhia das Letras, 2006), sociedades democráticas demandam clareza de projeto e responsabilidade pública — e não apenas habilidade retórica ou cálculo eleitoral.

A direita em disputa: entre a radicalização e o cálculo

O futuro político de Tarcísio está intrinsecamente ligado à reorganização da direita brasileira. Os governadores Romeu Zema (MG) e Cláudio Castro (RJ) também ensaiam seus movimentos rumo a 2026. Mas é Tarcísio quem mais atrai os olhares: governa o estado mais rico do país, tem acesso privilegiado à elite empresarial e desfruta da simpatia dos militares e do agronegócio.

Ao mesmo tempo, é pressionado pela ala bolsonarista mais radical. O senador Flávio Bolsonaro foi claro: o apoio do pai em 2026 depende do compromisso com a anistia. Em entrevista recente, afirmou que o candidato da direita deve “brigar com o STF, se necessário, com uso da força”.

É a promessa de “abrir a cela” em troca de apoio político. Uma chantagem institucional. E um risco imenso para qualquer presidenciável que deseje manter-se dentro dos limites democráticos. Aceitar essa barganha é aderir ao golpismo. Recusar é romper com a base que ainda idolatra o ex-presidente.

O STF, o Congresso e a batalha final

Enquanto as ruas minguam, a batalha institucional se acirra. O julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe, liderado pelo ministro Alexandre de Moraes, está em fase final. A expectativa é de que o Supremo o condene até setembro. Se isso ocorrer, Bolsonaro passará da condição de inelegível a condenado — o que muda radicalmente sua utilidade como capital político.

No Congresso, a tentativa de aprovar uma anistia aos réus do 8 de janeiro perdeu fôlego. A base bolsonarista afirma ter votos para a aprovação, mas não conseguiu sequer votar a urgência do projeto, sinal de que o apoio real está longe de ser majoritário. A pressão popular, que poderia acelerar o trâmite, também perdeu eficácia.

A anistia, como observa o professor Pablo Ortellado, da USP, “esfriou junto à militância”. Sem mobilização de massa, sem articulação parlamentar consistente e com o Judiciário firme em sua função de defesa da ordem constitucional, o bolsonarismo institucional começa a ruir.

O paradoxo conservador: antipetismo sem bolsonarismo?

A base conservadora que elegeu Bolsonaro em 2018 e quase o reelegeu em 2022 continua viva, mas já não caminha a reboque do “mito”. O antipetismo ainda é uma força potente — e Tarcísio sabe disso. Por isso, investe em discursos contra Lula, contra a corrupção e contra o que chama de “ineficiência do Estado”.

Mas há uma diferença essencial: antipetismo não é sinônimo de bolsonarismo. A direita brasileira pode até sobreviver sem Bolsonaro — mas apenas se for capaz de oferecer um projeto democrático, coerente e institucionalizado. Isso exige abandonar o flerte com o autoritarismo e a recusa das regras do jogo democrático.

Como escreveu o filósofo Karl Popper, “a democracia é a única forma de governo que permite sua própria substituição sem violência”. O Brasil, em sua história republicana, já pagou caro por desprezar essa lição.

O futuro em disputa

O esvaziamento do ato bolsonarista na avenida Paulista não foi apenas uma questão de público: foi um sintoma de exaustão. O bolsonarismo, enquanto fenômeno de massas e força mobilizadora, parece estar se despedindo da cena política.

Mas sua herança ainda está em disputa. Tarcísio de Freitas, com sua fala mansa e ambição crescente, tenta se posicionar como sucessor. A depender de suas escolhas — e da firmeza das instituições democráticas — ele pode se tornar um democrata conservador ou um continuador disfarçado de um projeto autoritário.

Cabe à sociedade civil, à imprensa, ao Congresso e ao Judiciário assegurar que a próxima direita seja, no mínimo, democrática. Porque mais importante do que quem ocupará o Palácio do Planalto em 2026, é garantir que esse poder seja conquistado por meios legítimos — e exercido com respeito à Constituição.

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