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Poder

Bolsonarismo perde fôlego e já não ultrapassa os próprios limites

Atos contra Lula e o STF reúnem menos da metade do público de 2023 e expõem isolamento da extrema direita

Publicado em 02/03/2026 9:20 - Semana On

Divulgação Divulgação

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A extrema direita voltou às ruas neste domingo (1º) com críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas os números revelam um movimento cada vez mais restrito à própria bolha. Em São Paulo, o ato na avenida Paulista reuniu 20,4 mil pessoas; no Rio de Janeiro, 4,7 mil. Os dados são do Monitor do Debate Político da Universidade de São Paulo (USP) e do Cebrap, em parceria com a ONG More in Common. A margem de erro é de 12%.

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A comparação com 7 de setembro de 2023 escancara a perda de mobilização: há um ano, 42,2 mil pessoas estiveram na Paulista pedindo “liberdade” para o ex-presidente Jair Bolsonaro e a prisão do ministro Alexandre de Moraes. Em Copacabana, o recuo foi ainda mais expressivo: de 42,7 mil para 4,7 mil — uma queda próxima de 90%.

A contagem foi feita no pico das manifestações, com base em fotos aéreas analisadas por software de inteligência artificial, metodologia já consolidada pelo Monitor da USP.

Discurso repetido, público encolhido

Convocada nacionalmente pelo deputado federal Nikolas Ferreira, a mobilização “Acorda, Brasil” teve participação de pré-candidatos à Presidência, como o senador Flávio Bolsonaro, e dos governadores Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Também discursaram parlamentares do PL e o pastor Silas Malafaia.

Ausências relevantes marcaram o ato: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e Michelle Bolsonaro não compareceram, alegando compromissos prévios. Ambos vêm sendo pressionados por setores do bolsonarismo, como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, a se engajar na campanha de Flávio.

O professor Pablo Ortellado, da USP e um dos coordenadores do levantamento, avaliou que a manifestação paulista não foi um fracasso, mas tampouco demonstrou força renovada. “Não foi uma mobilização muito forte, mas também não foi um fracasso de público”, afirmou. Sobre o Rio, foi mais direto: “A manifestação no Rio foi uma das menores que já medimos”. Segundo ele, as divisões internas — entre apoiadores de Flávio e de Tarcísio ou Michelle, e entre defensores ou não do impeachment do ministro Dias Toffoli — ajudam a explicar o esvaziamento.

As divergências revelam uma disputa menos ideológica do que estratégica: quem herdará o capital político de Jair Bolsonaro e com qual discurso. A pauta, no entanto, permanece a mesma: ataques ao STF, pedidos de anistia ao ex-presidente e retórica de confronto institucional.

Radicalização simbólica e isolamento político

Na Paulista, faixas pediam intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Bonés com “Flávio Bolsonaro presidente” eram vendidos por R$ 50. A cena remete ao 7 de setembro do ano passado, quando uma bandeira gigante dos Estados Unidos foi ostentada em pleno Dia da Independência do Brasil — gesto que sintetiza a contradição simbólica do movimento.

No Distrito Federal, ato anterior organizado pelo mesmo grupo reuniu cerca de 18 mil pessoas após uma marcha de 240 quilômetros liderada por Nikolas Ferreira. O evento terminou ofuscado por um raio que atingiu manifestantes. Já em Campo Grande, lideranças do PL organizaram concentração na Praça do Rádio Clube, com estimativa de mil participantes, seguida de carreata. As críticas repetiram o repertório: ataques ao governo federal, decisões do STF e menções a supostos escândalos envolvendo estatais e benefícios previdenciários.

A insistência na narrativa de perseguição judicial e na deslegitimação do Supremo não é nova. Desde 2021, relatórios do projeto V-Dem (Varieties of Democracy), da Universidade de Gotemburgo, alertam para o risco de erosão democrática no Brasil durante o ciclo bolsonarista, apontando ataques sistemáticos às instituições como um dos principais vetores de degradação institucional (V-Dem Institute, Democracy Report 2022). O padrão retórico permanece, mas a capacidade de mobilização diminuiu.

A bolha como limite

O cientista político Steven Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem, afirmou em entrevista à revista piauí que movimentos populistas autoritários tendem a perder força quando deixam o governo e passam a depender exclusivamente da mobilização ideológica, sem a máquina estatal como catalisador. O fenômeno parece visível no Brasil atual: sem o controle do Executivo, o bolsonarismo mantém sua base mais fiel, mas demonstra dificuldade de expandi-la.

Os números deste domingo sugerem exatamente isso. Mesmo com forte convocação digital, presença de lideranças nacionais e clima de pré-campanha presidencial, os atos ficaram muito aquém das mobilizações de 2023.

A extrema direita mantém o discurso antidemocrático, centrado na contestação das instituições e na personalização da política. O que mudou foi o alcance. O que antes conseguia mobilizar dezenas de milhares em diferentes capitais agora enfrenta retração significativa — especialmente no Rio, tradicional reduto eleitoral da família Bolsonaro.

Não se trata de desaparecimento político. Como apontou Ortellado, houve mobilização “significativa” mesmo sem a presença de Jair Bolsonaro. Mas os dados indicam um teto: a capacidade de furar a própria bolha ideológica parece cada vez mais limitada.

Em política, mobilização é termômetro. E, neste momento, o termômetro do bolsonarismo aponta estabilidade entre os convertidos — e dificuldade crescente de convencer além deles.

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