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Poder

Banco Master, STF e o poder do dinheiro

A delação que ameaça o sistema político-financeiro e testa os limites das instituições brasileiras

Publicado em 30/12/2025 10:00 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A história política brasileira ensina que escândalos não se medem apenas pelo volume de recursos desviados ou pelo número de envolvidos, mas pelo potencial de revelar como o poder realmente funciona. Em certos momentos, uma investigação deixa de ser apenas criminal e se transforma em um espelho incômodo do Estado.

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O caso do Banco Master caminha exatamente nessa direção. Se a delação do tenente-coronel Mauro Cid expôs a engrenagem de um projeto autoritário liderado por Jair Bolsonaro, uma eventual colaboração premiada de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ameaça algo ainda mais profundo: o condomínio político-financeiro que atravessa governos, parlamentos, tribunais e o mercado, unido menos por ideologia do que por dinheiro — muito dinheiro.

Não se trata de comparação retórica. A delação de Cid atingiu um setor específico do “andar de cima”: o bolsonarismo radicalizado, civil e militar, organizado em torno da tentativa de golpe de Estado. Já o caso Master toca no único elemento capaz de reunir centrão, Faria Lima, governadores bolsonaristas, setores do STF e operadores do sistema financeiro em um mesmo balaio: o financiamento da política por meio da captura de recursos públicos.

https://youtu.be/nckjcNG4cSk

Um banco, bilhões públicos e a política como sócia

As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal apontam que o Banco Master operava com carteiras de crédito fictícias, usando empresas de fachada para criar ativos inexistentes. Com base nesses papéis, o banco teria recebido R$ 12,2 bilhões do BRB e, no total, R$ 16,7 bilhões em pouco mais de um ano, entre julho de 2024 e outubro de 2025. Trata-se de um volume que, segundo o próprio Banco Central, colocava em risco a estabilidade do sistema financeiro nacional.

Esses números ganham contornos ainda mais graves quando se observa a origem do dinheiro. O BRB é um banco estatal. Governos estaduais também injetaram recursos no Master quando a fragilidade da instituição já era conhecida. No Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha defendeu com veemência a compra de participação no banco. No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro autorizou investimentos da ordem de R$ 1 bilhão, provenientes de fundos previdenciários. Não era capital especulativo: era dinheiro de professores adoecidos pelo burnout, enfermeiras em plantões exaustivos e garis que mantêm cidades funcionando sob chuva e abandono.

A história econômica brasileira conhece bem esse roteiro. Como descreveu o economista Celso Furtado, em Formação Econômica do Brasil, a apropriação privada de recursos públicos não é um desvio ocasional, mas um traço estrutural das elites nacionais, capazes de moldar o Estado aos seus interesses. O caso Master parece atualizar esse padrão para o capitalismo financeiro do século XXI.

Congresso, centrão e o medo da cantoria

No Congresso Nacional, o nervosismo não é disfarçado. O Banco Master era descrito, nos bastidores, como o banco preferido do centrão. E isso ajuda a explicar movimentos aparentemente desconectados, mas que formam um mosaico coerente quando observados em conjunto.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) é apontado como um dos articuladores contra a instalação de uma CPMI para investigar o Master. Também apoiou uma emenda constitucional que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF, medida que beneficiaria diretamente o banco, cujos CDBs estavam escorados no fundo. Além disso, defendeu a compra de ações do Master pelo BRB — operação posteriormente reprovada pelo Banco Central.

Não se trata de um caso isolado. Uma eventual delação de Vorcaro teria capacidade de apontar pressões diretas sobre o Banco Central, governos estaduais e estatais financeiras para sustentar operações bilionárias com ativos podres. Como se diz em Brasília, não seria uma bomba — seria um caminhão de explosivos estacionado na garagem do Congresso.

Banco Central, independência e o risco da canetada

Foi nesse contexto que a Polícia Federal ouve nesta terça (30) Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos. O objetivo é apurar as condições e motivações que levaram o BC a negar a venda do Master ao BRB e, posteriormente, decretar a liquidação extrajudicial da instituição.

A condução do caso pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, gerou forte controvérsia. Antes mesmo de os depoimentos individuais serem colhidos, Toffoli havia convocado uma acareação (marcada para esta terça- 30), medida considerada fora de hora por investigadores e questionada pelo próprio Banco Central. A insistência inicial do ministro, somada à decisão de avocar o caso para o STF e manter sigilo, provocou indignação no corpo técnico da autoridade monetária.

Entidades do sistema financeiro — Febraban, ABBC, Acrefi e Zetta — divulgaram nota conjunta em defesa da autoridade técnica e da independência institucional do Banco Central, alertando para os riscos de interferência política em decisões regulatórias. Ex-diretores do BC afirmam que a liquidação do Master é, do ponto de vista técnico, irreversível, mas reconhecem que, no “vale tudo institucional” brasileiro, qualquer coisa pode acontecer.

A preocupação não é abstrata. Segundo a colunista Carla Araújo, do UOL, há ministros do STF que veem na postura de Toffoli uma possibilidade concreta de o magistrado, “na canetada”, anular a liquidação do banco, o que representaria um abalo sem precedentes à autonomia do Banco Central — conquista institucional recente, aprovada em 2021 justamente para blindar a política monetária e a supervisão bancária de pressões políticas.

Pizza, sistema e memória histórica

A metáfora da “pizza” não é gratuita. A ciência política brasileira já diagnosticou essa dinâmica. O sociólogo Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, descreveu como o Estado patrimonialista cria mecanismos de autoproteção, capazes de metabolizar escândalos sem se depurar. O sistema não colapsa: ele se ajusta, acomoda culpados menores e preserva os elos centrais.

O temor, hoje, é que se asse uma pizza dupla: a do Banco Master e a das emendas do Orçamento Secreto, cujo julgamento no STF está previsto para começar em 2026. Não é coincidência que parte do Congresso flerte com a ideia de impeachment do ministro Flávio Dino, relator de casos sensíveis envolvendo desvios de recursos públicos. A lógica é antiga: atacar o mensageiro para salvar a mensagem.

Enquanto isso, o debate público se distrai com polêmicas laterais — as Havaianas de dezembro — e o essencial fica para depois. Assar a pizza e adiar o apocalipse sempre foi uma especialidade nacional.

Mais que um escândalo, um teste democrático

O caso Master não é apenas um escândalo financeiro. Ele toca no modo de financiamento da política brasileira, na promiscuidade entre bancos, fundos públicos, campanhas eleitorais, consultorias de fachada e patrimônio oculto. Reportagem de Amanda Rossi e Mateus Coutinho, no UOL, mostrou que negócios ligados a Vorcaro receberam investimentos bilionários de fundos investigados na operação Carbono Oculto, que apura lavagem de dinheiro do PCC — evidência de como o sistema financeiro pode ser instrumentalizado por interesses ilícitos.

Como lembrou o cientista político Guillermo O’Donnell, democracias não morrem apenas por golpes, mas também por erosão institucional, quando regras são torcidas para proteger poderosos e a lei deixa de valer igualmente para todos. A febre institucional que o caso Master provoca pode ser sintoma de que o organismo ainda reage. Mas reação não basta: é preciso tratamento.

Em um país que costuma tratar banqueiros como gênios disruptivos mesmo quando vendem vento por bilhões, talvez seja simbólico que a maior bomba política do momento não esteja em quartéis, mas em um banco em liquidação. A pergunta que permanece é simples e brutal: as instituições brasileiras estão dispostas a ir até o fim, ou mais uma pizza já está pronta para ser servida?

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