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Poder

Ato em Brasília expõe força midiática de Nikolas e fragilidade do bolsonarismo

Manifestação reuniu cerca de 18 mil pessoas e rendeu visibilidade nacional ao deputado do PL

Publicado em 26/01/2026 9:18 - Semana On

Divulgação Instagram

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Poucos participantes, muitos holofotes. O ato realizado em Brasília neste domingo (25), liderado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), mobilizou aproximadamente 18 mil pessoas, de acordo com o Monitor do Debate Político. Considerando a margem de erro de 12%, o público pode ter oscilado entre 15,8 mil e 20,1 mil manifestantes — números modestos para um evento anunciado como demonstração de força popular.

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Mesmo que se admita alguma elasticidade estatística — ou mesmo a hipótese benevolente de dobrar o contingente — o fato central permanece: a relevância do ato não esteve na rua, mas na repercussão. O desempenho de Nikolas foi menos o de um líder de massas e mais o de um operador eficiente da lógica do noticiário e das redes sociais, onde engajamento não se traduz automaticamente em voto.

O pano de fundo político é conhecido. Jair Bolsonaro, hoje preso, segue sendo um ativo simbólico para a extrema direita, embora com retorno eleitoral limitado. A tentativa de converter mobilização em pressão institucional — especialmente para alimentar a narrativa de uma eventual prisão domiciliar — mostrou-se, no mínimo, inócua. Não há histórico recente de o ministro Alexandre de Moraes ceder a clamores de rua, sobretudo quando embalados por retórica de confronto com o Supremo Tribunal Federal.

A própria ausência física de Bolsonaro e a participação protocolar de familiares, como Michelle e os filhos, sinalizaram cautela. O risco político parecia maior do que o possível ganho. Quem capitalizou, de fato, foi o organizador. No campo da direita radical, o ato consolidou Nikolas como figura central: alguém disposto a ir além dos limites que seus pares evitam cruzar.

Esse traço ajuda a explicar sua projeção. Parlamentar moldado pela dinâmica das plataformas digitais, Nikolas depende da criação contínua de eventos — ainda que de eficácia política duvidosa — para sustentar relevância. Se algo favorável ocorrer, reivindicará o mérito; se nada mudar, restará a narrativa do sacrifício pessoal. Em ambos os casos, o saldo simbólico tende a ser positivo para ele.

Há, contudo, efeitos colaterais. O discurso proferido em Brasília e o tom de enfrentamento explícito ao Judiciário alimentam a radicalização e dificultam a estratégia de figuras do mesmo campo que buscam se apresentar como “moderadas”, caso do senador Flávio Bolsonaro. A lógica é centrífuga: espalha sementes de conflito em vez de construir pontes de pacificação.

O episódio ganhou contornos ainda mais delicados com o acidente climático que atingiu participantes durante o ato, quando dezenas foram atingidos por um raio em meio à chuva. A exposição ao risco foi tratada por apoiadores como fatalidade, mas ilustra um padrão recorrente: lideranças políticas raramente pagam o preço direto das mobilizações que convocam.

Nada disso impediu que a manifestação ocupasse espaço expressivo na cobertura jornalística, desproporcional ao seu impacto prático. O fenômeno revela menos a força do bolsonarismo do que a dificuldade de setores do debate público em lidar com ele sem amplificá-lo.

Com visão de futuro — ou cálculo oportunista — Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal, já lançou Nikolas como pré-candidato à Presidência da República. À luz do cenário atual, a hipótese pode parecer extravagante, mas está longe de ser impensável.

Ao final, o balanço é claro: Bolsonaro sai politicamente mais isolado; Nikolas, maior. O ato fracassou como demonstração de força popular, mas teve êxito como operação de visibilidade. É nesse terreno — o da atenção, não o da maioria — que parte do que se chama hoje de “conservadorismo” encontra sua liderança mais estridente.

Resta a pergunta, ecoando T. S. Eliot: o que brota da terra devastada? Se depender da lógica do espetáculo político, brotam personagens cada vez mais ruidosos — e um debate público cada vez mais empobrecido.

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