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Quaest: rejeição à anistia cresce e maioria considera penas justas: aprovação de Lula sobe
Publicado em 08/10/2025 9:49 - Semana On
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O protesto bolsonarista realizado na Esplanada dos Ministérios ontem (7) frustrou até os mais fiéis seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Após semanas de mobilização nas redes e convocação por figuras centrais da extrema direita, o ato reuniu apenas algumas centenas de pessoas, sinal claro do desgaste político e da perda de fôlego de um movimento que, até pouco tempo atrás, arrastava multidões.
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O cortejo — liderado por nomes como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) — foi menor do que muitos blocos de Carnaval de bairro. A pauta, agora repetitiva, girava em torno da defesa da anistia para os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, críticas ao Supremo Tribunal Federal (com ênfase no ministro Alexandre de Moraes) e ataques a figuras centrais da República, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Mas o baixo comparecimento não significa o fim do bolsonarismo. Segundo cientistas políticos ouvidos pelo El País, o fenômeno continua relevante — embora esteja em fase de reorganização. “O bolsonarismo é mais do que um político. É um ecossistema. Está se adaptando, testando novas narrativas e formas de manter sua base mobilizada”, afirmou o cientista político Camilo Aggio, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Cálculo político e sobrevivência
Na prática, as lideranças da extrema direita parecem cientes da inviabilidade de aprovar uma anistia ampla e irrestrita no Congresso. Mesmo uma eventual redução de pena para Bolsonaro — que enfrenta múltiplos inquéritos e ações judiciais, incluindo o caso das joias sauditas e a trama golpista revelada pela Polícia Federal — é considerada improvável nos bastidores de Brasília.
Diante da realidade jurídica desfavorável, o foco passou a ser outro: preservar o capital simbólico e manter o rebanho unido. Para isso, atos como o desta terça funcionam menos como instrumentos de pressão institucional e mais como exercícios de fidelização — ainda que com plateia minguada. “É um movimento de reafirmação identitária”, avalia o sociólogo Celso Rocha de Barros. “Eles estão dizendo: ‘Ainda estamos aqui’.”
O gesto de Lula, o incômodo bolsonarista
O timing do ato coincidiu com um movimento diplomático que causou desconforto visível entre os aliados de Bolsonaro. A aproximação entre Lula e Donald Trump — ainda que discreta e envolta em ambiguidades — gerou reações intensas nas redes bolsonaristas. O incômodo se explica: por anos, o bolsonarismo construiu a fantasia de que só o clã Bolsonaro tinha acesso privilegiado à Casa Branca.
Recentemente, Lula teceu comentários respeitosos sobre Trump, mesmo discordando politicamente do republicano. “Ele é uma figura central na política dos EUA. Você pode gostar ou não, mas ignorar Trump é um erro estratégico”, disse Lula em entrevista à CNN Brasil. Do lado americano, Trump respondeu com um tom igualmente respeitoso, afirmando que “Lula entende a importância do Brasil para o mundo”.
A retórica bolsonarista, que por anos se enrolou literal e simbolicamente na bandeira dos EUA, viu-se subitamente deslocada. Sem a ilusão de exclusividade no diálogo com Washington, o bolsonarismo perde mais um elemento de sua narrativa mitológica.
Da multidão à miragem
O esvaziamento do ato de terça-feira deve ser entendido como um reflexo de múltiplas frentes de desgaste. Além da perda de tração nas ruas, o bolsonarismo enfrenta uma sequência negativa nos tribunais, com condenações de aliados e a expectativa de novas denúncias contra o próprio Jair Bolsonaro.
Mas a principal ameaça, talvez, seja o tempo. A fadiga é visível até mesmo entre os mais engajados. Os discursos inflamados, antes capazes de mobilizar milhões, hoje soam repetitivos. A esperança de retorno ao poder parece menos um plano e mais uma saudade mal resolvida. Como resume a psicanalista Maria Rita Kehl: “A paixão política também esfria quando não encontra reciprocidade institucional. E isso o bolsonarismo começa a experimentar”.
Ainda assim, especialistas alertam para o risco de subestimar o movimento. “O bolsonarismo não acabou. Está em modo de espera. A prisão de Bolsonaro, se ocorrer, pode catalisar uma nova onda de mobilização violenta”, advertiu o historiador José Murilo de Carvalho.
Rejeição à anistia cresce e maioria considera penas justas
A pesquisa mostra que a rejeição à anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro cresceu significativamente entre os brasileiros. O percentual de entrevistados contrários a qualquer tipo de anistia subiu de 41% para 47% desde setembro, atingindo o maior nível do ano. Já o grupo que defende o perdão a todos os envolvidos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, recuou de 41% para 36%, enquanto 8% apoiam anistia apenas aos manifestantes e 10% não souberam opinar.
O levantamento também investigou a percepção sobre o chamado “PL da dosimetria”, proposta alternativa à anistia que reduz as penas dos condenados. A maioria – (52%) discorda da medida e acredita que as punições aplicadas pelo Supremo Tribunal Federal foram justas, contra 37% que avaliam que as penas foram duras demais.
Entre os eleitores lulistas, 75% dizem que as penas são proporcionais, enquanto 57% dos bolsonaristas afirmam que as punições foram excessivas. O resultado reflete o divisor ideológico que ainda marca o debate sobre o 8 de Janeiro.
Rejeição à PEC da Blindagem também cresce
Na esteira desse movimento, a rejeição à PEC da Blindagem, que buscava restringir o alcance do Supremo Tribunal Federal sobre parlamentares, saltou de 53% para 63% em um mês, o maior índice de oposição desde que a proposta começou a ser discutida. Apenas 22% dos entrevistados se disseram favoráveis à emenda.
A pesquisa também mostra que 51% dos brasileiros tomaram conhecimento das manifestações de rua contra a anistia e a PEC da Blindagem, e 43% as consideraram grandes. Para 39%, o governo saiu mais forte politicamente após esses atos, enquanto 30% avaliaram que saiu mais fraco. A proposta, aprovada pela Câmara, foi arquivada pelo Senado após as manifestações populares.
“Vitória da narrativa governista”, avalia Felipe Nunes
O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, afirma que os números sobre a anistia representam “outra vitória da narrativa governista”. Segundo ele, o aumento da rejeição à anistia, a crítica majoritária ao PL da dosimetria e a maior oposição à PEC da Blindagem demonstram que a opinião pública tem se alinhado ao discurso do governo em defesa das instituições e contra a impunidade.
“Neste último mês, cresceu o percentual de brasileiros contrários a qualquer tipo de anistia, o que mostra que a sociedade ainda rejeita a ideia de perdão político. Também aumentou a rejeição à PEC da Blindagem, o que reflete um movimento de desconfiança em relação ao Congresso e de apoio às decisões do STF”, afirmou Nunes.
Para o pesquisador, o governo conseguiu ampliar o apoio à sua narrativa ao associar a defesa da democracia à punição dos responsáveis pelos ataques de 8 de janeiro, enquanto a oposição “não conseguiu construir um discurso convincente” em defesa da anistia.
“Esses dados indicam que o eleitor médio – especialmente fora do núcleo bolsonarista – entende que as punições foram justas. É um sinal de que o governo vence o debate moral sobre o tema”, avalia o diretor da Quaest.
Aprovação de Lula sobe
A pesquisa também revela que a aprovação do governo do presidente Lula alcançou o melhor patamar de 2025. 48% dos brasileiros aprovam a gestão petista, enquanto 49%, desaprovam. Os números configuram um empate dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Esta é a primeira vez, desde janeiro, que há empate entre os dois indicadores. No início do ano, 49% desaprovavam Lula, já a aprovação era de 47%. A diferença de um ponto é a menor desde dezembro de 2024, quando a aprovação era maior que a desaprovação (52% a 47%).
Desde julho, a aprovação do presidente Lula tem apresentado melhora, quando 43% passaram a aprovar. Em agosto e setembro, foram 46%. A desaprovação chegou ao ápice em maio, com 57%. A queda passou a acontecer nos meses seguintes: 53%, em julho; e 51% em agosto e setembro.
A pesquisa foi encomendada pela Genial Investimentos e ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais entre os dias 2 e 5 de outubro. A margem de erro é de 2 pontos para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.
De acordo com a pesquisa, as mulheres voltaram a aprovar mais Lula do que desaprovar: 52% a 45%, indicadores que estavam empatados em 48% no levantamento anterior. Os católicos também voltaram a aprovar mais o governo petista, após empate registrado em setembro: 54% aprovam, e 44%, desaprovam.
Os mais ricos (renda familiar de 5 salários mínimos ou mais) apresentam empate entre os indicadores: 52% desaprovam e 45%, aprovam. O público mais desaprovava o governo até setembro. A margem de erro é de 4 pontos.
O levantamento aponta um empate técnico entre o público de 35 a 59 anos, mas com aprovação e reprovação invertendo posições: enquanto 51% desaprovaram e 46% aprovavam em setembro, agora 51% aprovam e 46%, desaprovam. Entre o público de 60 anos ou mais, 50% aprovam o governo e 46% desaprovam.
A percepção sobre Lula frente ao governo anterior melhorou. Caiu de 51% para 42% o percentual dos que consideram a atual gestão pior que o esperado, enquanto subiu de 14% para 20% a fatia que acha o governo melhor do que imaginava.
Por região, Lula mostrou uma recuperação da aprovação no Nordeste, passando de 53% para 62 % e no Sul, de 35% para 41%. No Sudeste, a popularidade do governo oscilou positivamente desde o anúncio do tarifaço (de 40% para 44%).
43% acreditam que a situação da economia vai melhorar nos próximos 12 meses, contra 40% em setembro. Já a fatia que espera piora caiu de 37% para 35%. 56% acham que o Brasil está na direção errada, enquanto apenas 36% acreditam que segue no caminho certo.
49% acham que Lula saiu mais forte após encontro com Trump na ONU
A Quaest mediu, ainda, a opinião dos entrevistados sobre a relação de Lula com Trump e sobre assuntos econômicos. De acordo com o levantamento, 49% acham que Lula saiu mais forte após encontro com Trump na ONU; 27% acham que saiu mais fraco. O discurso político de Lula na ONU também repercutiu bem. Embora só 44% ficaram sabendo, 52% desses acharam que foi um bom discurso, contra 34% que avaliaram mal o discurso.
79% dos entrevistados são a favor de isentar Imposto de Renda (IR) de quem ganha R$ 5 mil. 41% dos brasileiros acreditam que a medida vai trazer uma melhora importante para suas finanças.
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