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Poder
Objetivo é 'congelar' crise e evitar ingerência americana em 2026
Publicado em 07/10/2025 1:12 - Semana On
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A conversa direta entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizada por videoconferência na segunda-feira (6), inaugurou um novo canal de diálogo entre Brasil e Estados Unidos e enfraqueceu de forma significativa a retórica bolsonarista de monopólio no acesso à Casa Branca. O gesto político, considerado simbólico e estratégico, desmancha a narrativa construída por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro — como Eduardo Bolsonaro e o comentarista Paulo Figueiredo — de que apenas eles manteriam pontes com o governo norte-americano.
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A aproximação, que começou com um gesto público de cordialidade durante a Assembleia Geral da ONU, ganha agora contornos diplomáticos concretos. A troca de elogios entre os líderes, a postagem de Trump classificando a conversa como “muito boa” e o compartilhamento de contatos diretos entre os dois presidentes selam uma mudança de rota. Para o governo Lula, trata-se de um movimento decisivo para reposicionar o Brasil na geopolítica hemisférica — e um duro golpe na estratégia do bolsonarismo de se apresentar como único interlocutor legítimo junto aos Estados Unidos.
Aquilo que Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo tentavam vender — que o Brasil de Lula não teria canal de diálogo com Washington — se mostrou uma falácia. No mercado, a repercussão foi imediata: o dólar recuou, e analistas viram na conversa um sinal de abertura para uma possível distensão comercial entre os dois países.
A expectativa agora se desloca para os desdobramentos práticos da agenda. A condução das negociações será feita por Marco Rubio, senador republicano da Flórida e atual secretário de Estado no gabinete informal de Trump. Conhecido por seu perfil ideológico rígido, Rubio não esconde seu ceticismo em relação ao governo brasileiro. Ele fará o que Trump mandar.
Trump, por sua vez, parece motivado por interesses muito mais pragmáticos do que lealdades políticas. A crise interna nos Estados Unidos — com alta nos preços de carne, café e outros produtos importados do Brasil — também pesou na mudança de tom. Para o ex-embaixador do Brasil em Washington, Roberto Abdenur, o ex-presidente norte-americano percebeu que a postura de isolamento em relação ao Brasil estava penalizando os próprios consumidores americanos.
“Trump percebeu o quão prejudicial a ele próprio, aos Estados Unidos, é essa situação anômala totalmente despropositada com o Brasil”, afirmou Abdenur, em entrevista ao UOL News. O diplomata também elogiou o trabalho de bastidores realizado por figuras como Celso Amorim, Mauro Vieira e Geraldo Alckmin, destacando a atuação coordenada entre diplomatas, empresários e ministros para reconstruir canais de diálogo com Washington. “O que ocorreu foi o resultado de um trabalho muito bem feito, diplomático, no sentido amplo da palavra”, resumiu.
Segundo Abdenur, o que está em jogo agora é uma reconfiguração profunda da relação bilateral, com menos ênfase em afinidades ideológicas e maior foco em interesses de Estado. “As relações estão, pela primeira vez, passando a ser conduzidas de Estado a Estado, e não mais em termos da picuinha política de um ou da preferência ideológica de outro”, observou.
A pauta econômica predominou na conversa. Lula teria pedido a revogação do chamado tarifaço e das sanções aplicadas contra autoridades brasileiras, mas evitou menções diretas a temas sensíveis como Alexandre de Moraes. A ausência de Bolsonaro na pauta, tanto de forma literal quanto simbólica, foi vista como outro sinal claro de que o bolsonarismo deixou de ser protagonista — ao menos por ora — nas interlocuções com os Estados Unidos.
Como apontou o jornalista Josias de Souza, do UOL, “o bolsonarismo foi retirado da tuba” — metáfora usada para indicar o fim do monopólio ruidoso que aliados de Bolsonaro exerciam sobre o discurso de relações exteriores com os EUA. A conversa entre Lula e Trump marcou, nesse sentido, uma inflexão diplomática que reposiciona o Brasil e enfraquece a retórica beligerante de exclusividade cultivada pelo clã Bolsonaro no exterior.
A mudança no eixo da interlocução não implica, no entanto, em facilidades. Marco Rubio representa um desafio. Além de sua rigidez ideológica, há desconfiança em relação à aproximação do Brasil com a China e ao interesse americano sobre minerais estratégicos brasileiros. Mas ao menos um obstáculo foi removido: a exigência implícita de impunidade para Jair Bolsonaro como pré-condição para o diálogo. O gesto de Lula, ao deixar esse tema fora da conversa, pavimenta a possibilidade de tratativas econômicas sem amarras políticas.
No fim, como disse Abdenur, não foi milagre: foi diplomacia. E, mais do que isso, foi a quebra de um cerco político construído com base em exclusividade, alinhamento ideológico e isolamento calculado. O Brasil, ao que tudo indica, voltou a falar com os Estados Unidos — por conta própria.
Blindagem contra 2026
A videoconferência entre Lula e Trump, além de romper o bloqueio diplomático bolsonarista, marca também uma operação mais ambiciosa: congelar a escalada de tensão com os Estados Unidos e neutralizar qualquer tentativa de interferência direta do ex-presidente norte-americano nas eleições brasileiras de 2026. No Planalto, o gesto foi lido como um “passo importante” para isolar o bolsonarismo e despolitizar a relação bilateral.
A avaliação interna é de que, diante da condenação de Jair Bolsonaro, Trump busca uma saída estratégica. A ligação, portanto, não teria sido apenas um aceno de aproximação comercial, mas uma tentativa calculada de Trump de se reposicionar frente a um novo cenário no Brasil, menos dependente de figuras da extrema direita.
A diplomacia brasileira enxerga o momento como uma oportunidade para “encapsular a crise”, expressão usada por interlocutores do governo para definir o esforço de estancar a deterioração da relação e conter os efeitos da ingerência bolsonarista no ambiente internacional. A movimentação, segundo um assessor de Lula ouvido sob condição de anonimato, é pautada por realismo: “Sem ilusões. Trump é errático. Mas qualquer distensão depende de diálogo”.
Desde o encontro informal entre Lula e Trump nos bastidores da ONU, em setembro, Washington cessou publicações ofensivas contra o governo brasileiro nas redes sociais — um primeiro sinal de que a Casa Branca alternativa de Trump começa a recalibrar o tom. O passo seguinte, segundo diplomatas, é estruturar uma agenda que permita correções graduais na relação, com foco em temas comerciais sensíveis, como o corte de tarifas sobre produtos brasileiros.
A escolha de Marco Rubio como negociador não causou estranheza ao Itamaraty. Apesar do perfil conservador e hostil ao atual governo brasileiro, Rubio atua também como figura de peso nas disputas internas do Partido Republicano. A designação do senador pode representar uma tentativa de institucionalizar o canal de diálogo, mesmo que por meio de um interlocutor duro. “É o preço para legitimar o processo dentro do contexto político dos EUA”, explicou um diplomata.
Mas a meta final é política: evitar que Trump ou seus emissários repitam em 2026 o papel de catalisadores da desinformação e do radicalismo bolsonarista. Em 2022, figuras próximas ao ex-presidente americano atuaram de forma coordenada com influenciadores brasileiros, alimentando teorias conspiratórias e incentivando a contestação do resultado das urnas. Para o governo Lula, neutralizar esse tipo de influência é parte da defesa da democracia brasileira.
A conversa entre os dois líderes, segundo os relatos, transcorreu sem tensões. Lula citou as sanções impostas contra membros do Executivo e do Supremo Tribunal Federal, mas Trump se limitou a ouvir, sem se comprometer ou justificar as medidas — o que já foi considerado um avanço por Brasília, dada a postura usualmente combativa do ex-presidente norte-americano.
Um dos elementos decisivos para a reviravolta no posicionamento de Trump foi o papel de Richard Grenell, ex-diretor de Inteligência Nacional dos EUA e enviado especial de Trump em missões sensíveis. Em setembro, Grenell esteve no Brasil, onde passou horas em reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin, no Rio de Janeiro. De acordo com Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM, foi Grenell quem “levou outra visão do Brasil para Trump”.
“Foi ele que resolveu o problema da Chevron na Venezuela. Foi ele que abriu caminho na Arábia Saudita. Grenell esteve aqui e levou outra visão. Trump tem hoje dois interlocutores. Se ele recebe uma pressão muito forte por parte das coligações em torno de Bolsonaro, ele tem um outro ouvido que também escuta, que diz que não é bem assim com o Brasil”, afirmou Trevisan, em entrevista ao UOL News.
A mudança de postura, na avaliação do professor, também decorre da ação combinada entre diplomacia e empresariado brasileiro. Pressionados pelos impactos das tarifas e com interesses comerciais claros, grupos econômicos brasileiros e americanos atuaram de forma coordenada para abrir caminho ao diálogo.
“O profissionalismo dos nossos diplomatas aliado a uma ação absolutamente eficiente do empresariado brasileiro foi essencial. Eles foram bater na porta dos empresários americanos e pediram ajuda. Foram bem-sucedidos”, explicou Trevisan.
A reconfiguração das relações bilaterais, portanto, não é obra do acaso. Representa um movimento coordenado que envolve agentes diplomáticos, interesses econômicos e, sobretudo, uma leitura estratégica de que a permanência da crise com os EUA serviria apenas ao bolsonarismo.
Ao fazer um gesto calculado em direção a Trump, Lula tenta resgatar a centralidade do Brasil nas negociações com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, desarmar potenciais bombas políticas colocadas no caminho da próxima eleição presidencial. A disputa de 2026 já começou — e o campo diplomático é hoje uma das trincheiras decisivas.
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