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Poder

Após recuo de Ratinho Jr., Caiado articula chapa com Tereza Cristina

Movimento amplia influência do agronegócio e deve continuar orbitando bolsonarismo

Publicado em 24/03/2026 9:16 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A desistência do governador do Paraná, Ratinho Jr., de disputar as prévias do PSD para a Presidência da República desencadeou uma rápida reorganização no tabuleiro do centro-direita. Informado da decisão na manhã de segunda-feira (23), o presidente da sigla, Gilberto Kassab, iniciou uma rodada imediata de contatos com lideranças partidárias e possíveis presidenciáveis, sinalizando a urgência em redefinir a estratégia eleitoral.

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Em sequência de ligações, Kassab conversou com Ciro Nogueira (PP), Antônio Rueda (União Brasil), os governadores Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), além da senadora Tereza Cristina (PP-MS). O objetivo foi testar cenários de alianças e avaliar a viabilidade de uma composição entre o PSD e a chamada Federação União Progressista — ainda não formalizada junto à Justiça Eleitoral.

As respostas foram cautelosas. Não houve rejeição à ideia de coligação, mas tampouco adesão explícita. O impasse reflete a fragmentação nos estados, onde lideranças regionais mantêm projetos próprios que nem sempre convergem com as diretrizes nacionais. Nesse contexto, cresce a possibilidade de que a federação, caso confirmada, opte por liberar seus integrantes para apoios independentes na disputa presidencial.

Com Ciro Nogueira, a conversa avançou. Kassab mencionou diretamente o nome de Tereza Cristina como potencial candidata a vice em uma chapa liderada pelo PSD — hipótese que independe da participação formal do União Brasil. A sinalização indica que a federação pode deixar de ser peça central nas negociações, tornando-se dispensável diante de arranjos mais pragmáticos.

Definição acelerada no PSD

A saída de Ratinho Jr. também acelerou o cronograma interno do PSD. Kassab indicou aos governadores Caiado e Leite que pretende anunciar o candidato presidencial da legenda ainda nesta semana, com preferência por quarta-feira (25), embora o prazo máximo considerado seja sábado (28).

A pressa é explicada pelo calendário eleitoral. Ambos os governadores precisarão se desincompatibilizar dos cargos até 3 de abril, data-limite que coincide com a Sexta-feira Santa. A antecipação da definição permite organizar agendas de despedida e alinhar estruturas de campanha.

Nos bastidores, outro movimento ganhou relevância: a decisão de manter o marqueteiro Paulo Vasconcellos na equipe de Caiado. O publicitário havia iniciado conversas com o PL, ligado ao senador Flávio Bolsonaro, quando a candidatura de Ratinho Jr. parecia consolidada. Com a mudança de cenário, Caiado optou por retê-lo, reforçando sua pré-campanha.

Tereza Cristina como peça-chave

Kassab também sinalizou diretamente à senadora Tereza Cristina que a considera um nome estratégico para compor como vice, seja em uma chapa com Caiado ou com Leite. Ex-ministra da Agricultura no governo Jair Bolsonaro, ela é vista como ponte com o agronegócio — setor que tende a ganhar centralidade na narrativa eleitoral do bloco.

Entre dirigentes do PSD, cresce a percepção de que Caiado reúne as melhores condições para encabeçar a disputa interna. Nesse cenário, uma chapa formada por Caiado e Tereza Cristina desponta como a opção mais consistente após o realinhamento provocado pela saída de Ratinho Jr.

Caso as negociações externas não avancem, o partido ainda avalia lançar uma candidatura “puro-sangue”. Nessa hipótese, uma composição entre Caiado e Eduardo Leite — com o gaúcho como vice — surge como alternativa viável.

Trajetória e capital político

O favoritismo de Caiado se ancora em uma trajetória política mais longa e consolidada. Sua projeção nacional remonta à Assembleia Nacional Constituinte de 1987-88, quando atuou como liderança do movimento ruralista à frente da União Democrática Ruralista (UDR), em oposição a setores mais à esquerda.

Candidato à Presidência em 1989, teve desempenho modesto — 0,8% dos votos válidos —, mas construiu carreira parlamentar consistente a partir dos anos 1990. Foi deputado federal por vários mandatos e, em 2014, elegeu-se senador por Goiás. Chegou ao governo estadual em 2018 e foi reeleito em 2022, consolidando sua base política.

Com o novo arranjo, Caiado emerge como principal nome do PSD na corrida presidencial, beneficiado pela combinação de experiência política, desempenho administrativo e pelo peso crescente do agronegócio na equação eleitoral.

Candidatura de Caiado tende a orbitar bolsonarismo

Com a reorganização do campo da centro-direita, a eventual candidatura de Caiado surge menos como alternativa independente e mais como peça complementar dentro da órbita bolsonarista. O movimento altera o equilíbrio da disputa e enfraquece, na prática, a já rarefeita possibilidade de uma “terceira via” competitiva.

As pesquisas de intenção de voto indicam um cenário consolidado de polarização: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro aparecem à frente no primeiro turno e tecnicamente empatados em um eventual segundo. Nesse contexto, o eleitorado de centro — decisivo — tende a se orientar mais pela rejeição do que pela adesão, escolhendo entre evitar um ou outro polo.

A saída de Ratinho Jr. da corrida, nesse sentido, elimina um fator de dispersão relevante para o bolsonarismo. O governador paranaense combinava trânsito entre eleitores conservadores e capacidade de diálogo com setores moderados, o que poderia fragmentar votos à direita e tensionar a estratégia de Flávio Bolsonaro. Além disso, rivalidades regionais — como a disputa indireta no Paraná, onde Flávio se aproxima de Sergio Moro, adversário local de Ratinho — evidenciavam a falta de convergência entre os dois projetos.

Com Caiado, o desenho é distinto. Desde sua filiação ao PSD, o governador de Goiás tem sinalizado alinhamento político com Flávio Bolsonaro e rejeitado qualquer movimento que implique divisão do eleitorado conservador. Em declarações públicas, defendeu a coexistência de palanques estaduais dentro de uma mesma coligação, admitindo, na prática, uma campanha paralela e complementar.

Esse posicionamento redefine o papel de sua eventual candidatura. Caso supere Eduardo Leite na disputa interna do PSD, Caiado tende a entrar na corrida presidencial não como um vetor de renovação ou moderação, mas como extensão tática do bolsonarismo. A estratégia sugere uma divisão funcional de espaços: enquanto Flávio consolida o núcleo duro de apoiadores, Caiado poderia atuar na periferia desse campo, dialogando com segmentos menos ideologizados.

O cálculo, no entanto, envolve riscos. Para parte do eleitorado de direita, a preferência pode recair sobre o “herdeiro político” direto, reduzindo a competitividade de uma candidatura percebida como acessória. Já entre eleitores de centro, que oscilam entre antipetismo e antibolsonarismo, a associação explícita pode produzir efeito inverso, reforçando a rejeição ao bloco e, por consequência, ampliando a tolerância a uma recondução de Lula como opção menos indesejada.

Assim, longe de reconfigurar a polarização, a entrada de Caiado tende a consolidá-la — ainda que por vias indiretas.

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