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Poder
Deputado ultrapassa os limites da imunidade parlamentar ao jogar contra o Brasil
Publicado em 07/08/2025 10:24 - Semana On
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“Exilado” nos Estados Unidos e cada vez mais isolado politicamente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) rompeu de vez com os limites institucionais e com o que ainda restava de respeito à soberania nacional. Ao ameaçar, de fora do país, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), insinuando que ambos poderiam ser sancionados pelo governo norte-americano caso não cedessem à pressão pela anistia aos golpistas do 8 de Janeiro e pelo impeachment do ministro Alexandre de Moraes, Eduardo cavou a própria ruína política. E arrasta consigo a imagem já deteriorada do bolsonarismo.
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Na entrevista concedida à jornalista Bela Megale, de O Globo, Eduardo agiu não como parlamentar eleito pelo povo brasileiro, mas como porta-voz informal de Donald Trump, a quem insiste em jurar lealdade em detrimento dos interesses nacionais. O gesto gerou reações imediatas no Legislativo. Embora a Mesa Diretora da Câmara ainda não tenha formalizado processo de cassação, Motta sinalizou que poderá suspender o mandato de Eduardo, enquanto Alcolumbre, enfrentando manobras bolsonaristas no Senado, marcou sessões remotas para destravar a pauta econômica.
Se a estratégia de intimidação visava mostrar força, o efeito foi inverso: isolou o deputado inclusive entre aliados ideológicos e colocou em evidência sua completa subserviência a um governo estrangeiro. Um parlamentar eleito para defender os interesses do Brasil agora atua deliberadamente contra eles, sabotando setores inteiros da economia nacional em nome de um projeto pessoal de impunidade familiar.
Um ciclo de traição e vassalagem
O episódio atual é apenas o ápice de uma trajetória que há tempos flerta com o crime de lesa-pátria. Em 2024, Eduardo Bolsonaro participou de reuniões nos EUA com parlamentares trumpistas e lobistas ligados à Heritage Foundation, incitando pressões comerciais contra o Brasil. Em consequência, o governo Trump impôs um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, afetando diretamente cadeias produtivas como a pesca no litoral catarinense e a fruticultura no Vale do São Francisco.
As perdas são tangíveis: estima-se que só o setor de frutas deve perder R$ 1,2 bilhão em exportações em 2025, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). Pequenos empresários e trabalhadores agrícolas são os primeiros a pagar a conta de uma chantagem internacional orquestrada por um deputado brasileiro.
Ao assumir o papel de lobista de interesses estrangeiros, Eduardo rompe não apenas com o decoro parlamentar, mas com o próprio conceito de representação democrática. Como alertou o filósofo francês Raymond Aron, “a traição política é o rompimento consciente entre os deveres de cidadão e as escolhas pessoais de poder”. A atuação de Eduardo Bolsonaro, nesse sentido, não pode mais ser interpretada como dissidência política: é traição no sentido mais cru da palavra.
STF, prisão e a inevitabilidade do julgamento
O ministro Alexandre de Moraes, na abertura do semestre judiciário, não mencionou nomes — mas deixou claro que o cerco se fecha contra Eduardo. “O golpismo é o mesmo”, disse ele, comparando os atos do 8 de Janeiro às ações de sabotagem lideradas pelo deputado nos EUA. Gilmar Mendes, por sua vez, qualificou o comportamento como “crime de lesa-pátria”, termo raramente usado em discursos jurídicos, mas poderoso em sua carga simbólica.
O inquérito da Polícia Federal deve resultar em denúncia formal por parte da Procuradoria-Geral da República nas próximas semanas. A avaliação majoritária entre ministros do Supremo é de que há elementos suficientes para prisão preventiva, caso o deputado retorne ao Brasil — o que ele evita fazendo da Flórida seu bunker político.
A queda inevitável do “03”
A cassação de Eduardo Bolsonaro, que hoje parece travada por cálculos de conveniência e medo de radicalização da base bolsonarista, inevitavelmente será cobrada pela História. Seu comportamento não encontra paralelo nem mesmo entre os traidores históricos do Brasil. Silvério dos Reis traiu por 30 moedas. Eduardo o faz por 2 milhões de reais transferidos por Jair Bolsonaro para garantir sua estadia no exterior, enquanto destrói empregos e promove insegurança jurídica no país.
Como apontou o historiador José Murilo de Carvalho, “a República brasileira foi sempre uma promessa adiada, cercada de oligarquias e traída por seus próprios filhos”. A atuação de Eduardo Bolsonaro é a materialização moderna dessa traição: um representante eleito que se converte em agente externo, disposto a ver o país de joelhos para salvar seu clã da Justiça.
Flávio Bolsonaro, irmão de Eduardo, escreveu em 2021: “A política pode até perdoar a traição, mas não perdoa o traidor”. O julgamento político pode tardar, mas a História, esta sim, já pronunciou sua sentença.
Entre o silêncio cúmplice e a urgência institucional
O Congresso Nacional, ao hesitar em cassar o mandato de Eduardo Bolsonaro, não apenas normaliza uma afronta sem precedentes à soberania, como envia à população uma mensagem perigosa: a de que há parlamentares acima da Constituição. Manter Eduardo impune é permitir que se consolide a ideia de que trair a pátria pode ser apenas mais uma estratégia política.
Mais que um escândalo, o caso Eduardo Bolsonaro é um teste de resistência das instituições democráticas. E como ensina Norberto Bobbio: “A democracia é o regime do poder visível”. A sombra em que o deputado opera precisa ser iluminada pela responsabilização pública e legal. Não se trata de vingança política, mas de preservação da ordem democrática.
“Nenhum desconforto”, diz Mendes sobre prisão domiciliar de Bolsonaro
O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, negou ontem (6) haver mal-estar entre os ministros da Corte por causa da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes na última segunda (4).
Mendes foi questionado por jornalista sobre notícias de que haveria insatisfações entre os colegas com a postura de Moraes. Para o decano, a decisão de prender Bolsonaro em casa não causou “nenhum desconforto”. Acesse aqui a íntegra do documento. “O Alexandre de Moraes tem toda a nossa confiança e o nosso apoio”, acrescentou Mendes.
O decano também negou que Moraes esteja sozinho no entendimento que levou à prisão domiciliar de Bolsonaro. “Não tem isolamento algum”, afirmou Mendes. “O Brasil teria se tornado um pântano institucional não fosse a ação de Moraes”, acrescentou.
Mendes frisou a gravidade das acusações sobre a trama golpista, que, segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), envolveram planos para o sequestro e assassinato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice Geraldo Alckmin e do próprio Moraes.
“Estamos falando de coisas sérias, não de um passeio no parque. Então é preciso que isso seja reconhecido”, afirmou o decano do Supremo, que falou após evento do Instituto Esfera Brasil, em Brasília.
Gilmar ironiza cancelamento de visto dos EUA
Gilmar Mendes também ironizou a decisão do governo do presidente Donald Trump que cancelou o visto de entrada de ministros da Corte nos Estados Unidos.
Durante o lançamento do livro Jurisdição Constitucional da Liberdade para a Liberdade, escrito pelo próprio ministro, o decano no STF disse que a democracia constitucional envolve limites e “não há soberanos”.
“Nós temos falado em nossos desafios institucionais. Eu já tive a oportunidade de dizer que poderia estar contando [isso] em Roma, Paris e Lisboa, agora não em Washington”, disse o ministro, provocando risos da plateia.
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