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Poder

Alta desaprovação de Lula excita extrema-direita e “extremistas de centro”

Com queda na popularidade, governo enfrenta ofensiva de opositores e incertezas sobre o cenário eleitoral de 2026

Publicado em 27/02/2025 10:05 - Semana On

Divulgação Ricardo Stuckert

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A recente pesquisa da Quaest revelou um cenário desafiador para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em seis estados brasileiros — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás — a desaprovação ao governo ultrapassou 60%. Além disso, pela primeira vez, o petista enfrenta índices negativos de avaliação na Bahia e em Pernambuco, dois de seus redutos históricos. A notícia foi recebida com euforia pela extrema-direita e pelo que se convencionou chamar de “extremismo de centro”, grupos que veem no desgaste do presidente uma oportunidade para redefinir os rumos do poder.

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Mas o que esses números realmente significam? Representam o fim do lulismo, como parte da oposição apregoa, ou são parte da volatilidade característica da política brasileira? Mais do que uma simples queda na popularidade, a pesquisa expõe o jogo de forças em que governo, oposição, mercado e opinião pública tentam se posicionar diante de um futuro eleitoral ainda incerto.

A crise da popularidade e o peso do cotidiano

Os dados revelam que a avaliação negativa de Lula não é homogênea. Em estados do Sul e Sudeste, onde a rejeição ao PT já vinha crescendo nos últimos anos, a desaprovação atinge índices alarmantes: 70% em Goiás, 69% em São Paulo e 68% no Paraná. Já no Nordeste, a desaprovação ainda não superou a barreira simbólica dos 50%, mas vem em tendência de alta.

A grande questão, no entanto, não é apenas geográfica. O principal fator por trás dessa deterioração na imagem do governo tem nome: inflação. Mais especificamente, o preço dos alimentos. Como apontam diversos analistas políticos e econômicos, a percepção popular sobre o governo está muito mais ligada à experiência cotidiana no mercado do que a indicadores macroeconômicos.

Os números são claros: apesar do crescimento do PIB, da queda do desemprego e da melhora no salário mínimo, a alta no custo de vida segue corroendo a sensação de bem-estar econômico. Em termos políticos, isso significa que, enquanto o preço do arroz, do feijão, da carne e da cerveja continuar elevado, os avanços econômicos terão impacto limitado sobre a aprovação presidencial.

Diante desse cenário, o governo tem adotado medidas emergenciais para tentar conter o desgaste. A ampliação do Farmácia Popular, tornando 100% dos medicamentos gratuitos, e o lançamento do programa Pé-de-Meia, que oferece um auxílio financeiro a estudantes do ensino médio, são tentativas de mostrar serviço e manter o apoio de segmentos estratégicos do eleitorado. Contudo, esses programas têm impacto localizado e dificilmente conseguirão, sozinhos, reverter o sentimento de insatisfação generalizada.

O governo aposta também na comunicação direta com a população. Lula tem intensificado seus pronunciamentos em rádio e TV, buscando criar uma narrativa de proximidade e reafirmando que medidas para reduzir a inflação estão sendo adotadas. Mas até que os preços dos alimentos comecem a ceder, a sensação de descontrole econômico continuará pesando sobre sua popularidade.

O oportunismo da direita e a tese da “terceira via”

Se para o governo o momento é de tensão, para a oposição, é de euforia. A extrema-direita, capitaneada pelo bolsonarismo, vê na queda de popularidade de Lula a confirmação de seu discurso de que o país estaria “rumo ao caos”. Figuras como Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e Romeu Zema, governador de Minas Gerais, despontam como possíveis alternativas para 2026. Mas a direita não está sozinha nesse jogo.

Um segmento que pode ser classificado como “extremismo de centro” também tenta capitalizar a crise de Lula. São setores da política, do mercado e da mídia que rejeitam tanto o petismo quanto o bolsonarismo e veem no atual cenário a oportunidade para consolidar uma “terceira via”. A tese central desse grupo é a necessidade de “superar a polarização”, removendo tanto Lula quanto Bolsonaro do cenário eleitoral.

O problema dessa narrativa, no entanto, é que ela ignora a assimetria entre os dois polos. Por mais críticas que se possa fazer ao governo, Lula é um democrata, enquanto Bolsonaro representou uma ameaça real às instituições. Ao equiparar os dois, esse “extremismo de centro” acaba normalizando o autoritarismo da extrema-direita.

Além disso, essa tese esbarra em um obstáculo concreto: a ausência de uma candidatura competitiva. Nenhum nome da chamada “terceira via” conseguiu, até agora, se viabilizar eleitoralmente. O ex-ministro Sergio Moro, que já tentou se lançar como alternativa, enfrenta forte rejeição. Candidatos como Eduardo Leite e João Doria não conseguiram conquistar apoio popular suficiente para se tornarem opções viáveis.

O tabuleiro de 2026 e o fator Bolsonaro

A pesquisa da Quaest também trouxe simulações para 2026, com cenários de disputa entre Lula e diversos possíveis adversários. Em estados como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, Lula aparece atrás de Tarcísio de Freitas. Já no Nordeste, o petista mantém ampla vantagem.

O grande mistério, no entanto, é quem será o principal adversário de Lula — ou de seu eventual sucessor — na próxima eleição. Bolsonaro, embora inelegível no momento, ainda é a maior referência da direita. Seu futuro, porém, depende da Justiça. A Procuradoria-Geral da República deve apresentar em breve uma denúncia contra ele, o que pode aprofundar sua fragilidade política.

Caso Bolsonaro seja definitivamente afastado da disputa, o bolsonarismo precisará encontrar um novo nome. Tarcísio de Freitas é o mais cotado, mas enfrenta o desafio de se tornar uma figura nacional. Segundo a própria pesquisa da Quaest, mais da metade dos eleitores fora de São Paulo sequer o conhece. Outros nomes, como Romeu Zema e Ronaldo Caiado, tentam se viabilizar, mas têm pouca penetração eleitoral fora de seus estados.

Se por um lado a direita enfrenta incertezas, Lula também terá desafios pela frente. Se o cenário econômico não melhorar, sua popularidade pode continuar em queda. E, em um Congresso cada vez mais fragmentado, isso significa que seu governo terá ainda mais dificuldades para aprovar medidas importantes.

O lulismo ainda pode se reinventar?

A política brasileira é marcada por reviravoltas inesperadas. Em 2005, no auge do mensalão, Lula foi dado como politicamente morto — e se reelegeu em 2006. Em 2017, Bolsonaro era um deputado irrelevante e, um ano depois, virou presidente. Em 2022, Lula saiu da prisão para vencer uma eleição contra um incumbente que tinha a máquina do Estado a seu favor.

A pesquisa da Quaest revela um momento difícil para o governo, mas não determina seu futuro. Lula ainda tem tempo para reverter sua popularidade, principalmente se conseguir conter a inflação de alimentos e melhorar a percepção econômica da população.

O que os números deixam claro, porém, é que a oposição já começou sua mobilização para 2026. A extrema-direita tenta consolidar um sucessor para Bolsonaro, enquanto setores do centro tentam vender a tese de uma “terceira via”.

O lulismo já foi dado como morto diversas vezes — e sempre voltou. O desafio agora é saber se, diante desse novo cenário, ele ainda tem força para mais uma ressurreição.

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