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Poder

Alguém ganhou muito dinheiro especulando com as tarifas de Trump

Operações com dólar levantam suspeitas de informação privilegiada antes de tarifaço

Publicado em 06/08/2025 11:09 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Poucas horas antes da Casa Branca anunciar o adiamento das tarifas contra o Brasil, um movimento incomum no mercado de contratos futuros de dólar chamou atenção de analistas e operadores. Com ordens executadas em milissegundos e valores que superaram R$ 1,2 bilhão, as transações destoaram radicalmente do padrão habitual e coincidiram com um anúncio de alto impacto econômico e político. O volume e o timing levantam uma hipótese preocupante: o uso de informação privilegiada para lucrar com o chamado “tarifaço” do governo Trump. É o que mostra reportagem de Cleber Lourenço e Deborah Magagna no ICL Notícias.

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A operação aconteceu na tarde de 30 de julho. Às 15h, a Casa Branca anunciou que o pacote de tarifas contra produtos brasileiros seria adiado. Até aquele momento, mesas como as do BTG Pactual e da Tullett Prebon já haviam intermediado 24.430 contratos do tipo DOLQ25, equivalentes a R$ 1,221 bilhão em valor nocional — cada contrato representa R$ 50 mil. O número não apenas supera em centenas de vezes a média das negociações diárias como também concentra-se em uma janela temporal crítica, minutos antes da comunicação oficial dos EUA.

A operação mais expressiva ocorreu às 12h29, quando o BTG intermediou quase 20 mil contratos em apenas quatro ordens, executadas com um intervalo de 47 milissegundos. Às 10h42, a Tullett Prebon já havia operado 4.500 contratos em uma única transação — 497 vezes mais do que a média usual. A discrepância não se limita ao volume. No dia seguinte, 31 de julho, o número de contratos negociados pelas mesmas mesas despencou para 570. A diferença de mais de 97% reforça a hipótese de que as ordens de 30 de julho foram motivadas por informações que ainda não haviam sido tornadas públicas.

O velho dilema do “insider”

No Brasil, o uso de informação relevante não pública para obter vantagem nos mercados — o chamado insider trading — é crime, de acordo com a Lei nº 6.385/76. O artigo 27-D da lei prevê pena de reclusão de um a cinco anos, além de multa, para quem se beneficiar de informações estratégicas antes de sua divulgação oficial. As operações de 30 de julho reúnem características típicas para acionar os mecanismos de investigação da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e do Ministério Público Federal.

“Movimentos tão coordenados, com execução em altíssima frequência e volumes desproporcionais ao padrão histórico, são indicativos claros de que havia mais do que apenas feeling de mercado envolvido”, alerta o economista e ex-diretor do Banco Central, Luiz Eduardo Assis. “Se confirmado o uso de informação privilegiada, trata-se de uma fraude que fere não só os investidores, mas a integridade do sistema financeiro como um todo”, completa.

As consequências não são apenas éticas ou jurídicas. Elas são profundamente econômicas. Oscilações abruptas no mercado de câmbio futuro afetam diretamente empresas exportadoras e importadoras, fundos de investimento atrelados ao dólar, e, em última instância, o consumidor. Como lembra o sociólogo francês Pierre Bourdieu, “os mercados não são apenas espaços de troca, mas arenas de poder”, onde o acesso à informação delimita quem perde e quem lucra — muitas vezes, às custas da própria democracia econômica.

A suspeita que se repete

Não foi a primeira vez que esse tipo de movimentação atípica ocorreu em torno das decisões tarifárias dos EUA. Em 9 de julho, horas antes do então presidente Donald Trump anunciar oficialmente o tarifaço contra o Brasil, o mercado já dava sinais de que algo grande estava por vir. Entre 11h30 e 12h45, apenas nove negociações somaram mais de R$ 6,6 bilhões em contratos de dólar futuro — quase 10% de todo o volume do dia.

A mais expressiva, também conduzida pelo BTG Pactual, foi registrada às 11h38, com quase 10 mil contratos negociados, equivalentes a R$ 2,7 bilhões. O anúncio de Trump viria às 16h17. A coincidência, somada ao padrão que se repetiria no fim do mês, atraiu a atenção do Supremo Tribunal Federal, que agora apura se houve vazamento de informações estratégicas de dentro do governo ou de canais diplomáticos.

O pano de fundo geopolítico

O contexto não é trivial. O tarifaço integra uma política mais ampla de nacionalismo econômico impulsionada por Trump desde 2017, com foco na guerra comercial com a China e em medidas protecionistas em relação a parceiros tradicionais. O Brasil, então governado por Jair Bolsonaro — aliado declarado de Trump —, figurava como peça estratégica nesse tabuleiro. Episódios como esses revelam como a interseção entre geopolítica e mercado financeiro pode ser terreno fértil para ações ilícitas por parte de agentes com acesso privilegiado.

A conexão entre política e mercado financeiro, ainda que nem sempre criminosa, é estrutural. Como escreveu o filósofo Michel Foucault, “o neoliberalismo não é apenas uma política econômica, mas uma racionalidade governamental”, em que o Estado atua para criar e preservar mercados, inclusive por meio do controle da informação. Quando essa lógica é capturada por interesses privados e cruzada com favores políticos, o resultado é um desequilíbrio profundo nas regras do jogo democrático.

A urgência de respostas

A CVM informou que acompanha os dados e pode abrir investigação formal caso os indícios se consolidem. O Ministério Público Federal, por sua vez, tem prerrogativa para iniciar inquérito e até acionar cooperação internacional caso haja suspeitas de vazamento entre governos. O silêncio, porém, permanece ensurdecedor.

Para especialistas, como a jurista Helena Regina Lobo da Costa, professora da Faculdade de Direito da USP, “a responsabilização em casos de insider trading exige provas diretas ou uma cadeia lógica irrefutável de evidências. Mas o simples fato de haver esse padrão reiterado já deveria ser suficiente para acionar os órgãos reguladores com rigor”.

Em um sistema financeiro que se pretende transparente, operações bilionárias baseadas em informações que só deveriam se tornar públicas horas depois não são apenas suspeitas — são uma ameaça à ordem institucional e à confiança dos investidores. “Não é apenas um problema de mercado”, diz Lobo da Costa. “É um problema de democracia.”

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