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Poder

A farsa na construção do “Bolsonaro moderado”

Flávio tenta ampliar seu eleitorado com um discurso mais suave e pautas antes rejeitadas pelo bolsonarismo

Publicado em 12/03/2026 9:21 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

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A política brasileira conhece bem o poder das máscaras. Em momentos de disputa acirrada, personagens são reescritos, discursos são recalibrados e antigas convicções parecem ceder lugar a novas narrativas. É nesse terreno que surge a tentativa de apresentar o senador Flávio Bolsonaro (PL) como uma versão moderada do bolsonarismo — um movimento que, para críticos e analistas, revela mais sobre as necessidades estratégicas da direita brasileira do que sobre uma real transformação ideológica.

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A estratégia ocorre em um contexto eleitoral marcado por polarização e forte rejeição a lideranças políticas. Segundo avaliação do cientista político Maurício Moura, fundador e presidente do Instituto Ideia, um dos principais desafios para Flávio Bolsonaro é justamente o peso do legado do governo de seu pai, Jair Bolsonaro.

“Será muito mais difícil para o Flávio se dissociar da gestão Bolsonaro do que fazer uma batalha de quem é mais corrupto e quem é menos corrupto”, afirmou Moura ao comentar dados da pesquisa Meio/Ideia. Para ele, a rejeição construída ao longo de um governo costuma ser um fator determinante em disputas polarizadas.

Moura aponta ainda que alguns temas estruturais da gestão passada — sobretudo a condução da pandemia — continuam a influenciar a percepção pública sobre o bolsonarismo.

“É importante para o Flávio se desassociar dos temas que fizeram o governo de Jair Bolsonaro ser reprovado e não ser reeleito. O tema central para o Flávio é a questão da Covid-19, cuja gestão foi crucial para a reprovação do Bolsonaro”, disse o analista.

Ao mesmo tempo, a disputa eleitoral tende a ser decidida por uma pequena faixa do eleitorado, sensível sobretudo a temas econômicos.

“Quando olhamos para esses 3% ou 4% [de eleitores decisivos], o principal tema é a economia, o custo de vida. Eles têm dificuldade de fechar o mês”, acrescentou Moura.

A reinvenção de uma imagem

É nesse cenário que o senador tenta reposicionar sua figura pública. Nas redes sociais e em discursos recentes, Flávio Bolsonaro tem adotado um tom mais descontraído, frequentemente acompanhado por memes e mensagens que dialogam com temas tradicionalmente associados à esquerda — como igualdade de gênero, racismo ou inclusão social.

No Dia Internacional da Mulher, por exemplo, o senador publicou um vídeo defendendo a ampliação de vagas em creches e argumentando que mulheres não deveriam ser obrigadas a escolher entre carreira e maternidade.

Em outro episódio, manifestou solidariedade ao jogador Vinícius Jr. após ataques racistas durante uma partida de futebol, afirmando que “não podemos nos calar diante do racismo”.

A estratégia também inclui gestos simbólicos destinados a ampliar seu alcance político. Após o carnaval, o senador exaltou os desfiles das escolas de samba como expressão da criatividade brasileira e da geração de empregos. Em tom irônico nas redes sociais, chegou a pedir votos de “todas, todos, todes, todys e todXs”.

Esses movimentos contrastam com o histórico discursivo do bolsonarismo, marcado por críticas às chamadas “pautas identitárias”. Ao mesmo tempo, eles evidenciam uma tentativa clara de dialogar com segmentos que tradicionalmente se mantiveram distantes da base eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O peso da herança política

A tentativa de construir um bolsonarismo mais moderado não é inédita na política brasileira. Em diferentes momentos, setores da direita buscaram apresentar versões mais palatáveis de projetos originalmente associados a discursos duros ou autoritários.

O problema, segundo diversos analistas políticos, é que a moderação se torna difícil quando o líder carrega uma herança política tão fortemente identificada com um movimento ideológico específico.

O próprio histórico da família Bolsonaro continua a reaparecer nos debates públicos. Declarações passadas do ex-presidente — como a afirmação de que preferiria “um filho morto a um filho gay” — ou episódios envolvendo comentários racistas seguem sendo lembrados por críticos e opositores.

Também pesa sobre o senador um histórico de investigações e controvérsias relacionadas ao caso das chamadas “rachadinhas” em seu gabinete quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, episódio investigado pelo Ministério Público e que marcou o início de uma série de questionamentos sobre seu patrimônio e relações políticas.

Além disso, declarações recentes do próprio senador têm sido apontadas como incompatíveis com a imagem de moderação que tenta construir. Em julho do ano passado, por exemplo, Flávio afirmou que um presidente poderia “usar a força” caso o Supremo Tribunal Federal negasse um eventual indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para críticos do bolsonarismo, episódios como esse revelam a dificuldade de separar a nova narrativa eleitoral do histórico político da família.

A lógica da polarização

A tentativa de reposicionar Flávio Bolsonaro também reflete uma característica central da política contemporânea: a disputa por eleitores situados entre polos ideológicos.

O cientista político americano Steven Levitsky, professor de Harvard e coautor de How Democracies Die, observa que democracias entram em risco quando lideranças políticas flertam com discursos autoritários enquanto mantêm aparência institucional.

“As democracias morrem quando líderes rejeitam as regras democráticas, negam a legitimidade de seus oponentes, toleram a violência ou demonstram disposição para restringir as liberdades civis”.

A advertência não se refere especificamente ao Brasil, mas ilustra um fenômeno recorrente: projetos políticos podem tentar suavizar sua imagem sem alterar necessariamente seus fundamentos.

A disputa pela narrativa

No caso brasileiro, o debate sobre o chamado “bolsonarismo moderado” envolve também setores do mercado financeiro e da imprensa que, em determinados momentos, demonstraram interesse em lideranças conservadoras com perfil mais técnico ou institucional.

Com a candidatura de Flávio Bolsonaro, essa discussão ganha novos contornos. O senador procura apresentar-se como alguém capaz de dialogar com diferentes setores da sociedade e do empresariado, ao mesmo tempo em que mantém a fidelidade à base eleitoral bolsonarista.

A tarefa, contudo, não é simples. O próprio Maurício Moura observa que eleições polarizadas tendem a cristalizar percepções já estabelecidas entre os eleitores.

Nesse ambiente, a tentativa de reinventar uma identidade política enfrenta um obstáculo central: a memória coletiva do eleitorado.

O que está em jogo

A questão, portanto, vai além da biografia de um candidato. Ela diz respeito ao modo como narrativas políticas são construídas em democracias contemporâneas.

Para eleitores e analistas, o debate central será determinar se a moderação apresentada por Flávio Bolsonaro representa uma mudança substantiva de projeto político ou apenas uma adaptação estratégica às exigências de uma campanha presidencial.

Em última instância, como lembram estudiosos da democracia, o eleitorado precisa decidir não apenas entre candidatos, mas entre visões de país.

E, como ensina o historiador britânico Timothy Snyder, especialista em regimes autoritários, “as instituições democráticas não se protegem sozinhas; dependem das escolhas dos cidadãos”.

Nas próximas eleições, essa escolha — entre narrativas, memórias e projetos de poder — voltará a estar no centro do debate político brasileiro.

DE CABO A RABO


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