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Poder
As provas, os bastidores e o legado de um projeto golpista que desafiou a democracia
Publicado em 15/05/2025 9:56 - Victor Barone
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Nos últimos cinco anos, o Brasil testemunhou a corrosão sistemática da direita democrática, um processo que atingiu seu ápice com a ascensão do bolsonarismo como força hegemônica no campo conservador. Mais do que um episódio isolado da política nacional, esse fenômeno revela uma dinâmica perversa: a normalização do golpismo como “visão de mundo” aceitável no debate público. O legado imediato desse processo é um cenário em que a direita tradicional — aquela que se reconciliou com a democracia após a redemocratização — está politicamente aniquilada, sequestrada por uma extrema-direita que não reconhece os limites do Estado de Direito.
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A estratégia bolsonarista se baseou em um movimento contínuo e deliberado de ataque às instituições republicanas. A metáfora da “água mole em pedra dura” — presente na poesia de Horácio, na canção “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, e agora na política brasileira — ilustra com precisão a persistência com que esse projeto corroeu resistências históricas. O que parecia inamovível — como o compromisso da imprensa e das elites conservadoras com a democracia — foi sendo gradualmente desgastado pela retórica golpista, até que o inaceitável se travestiu de “opinião legítima”.
Essa não é uma originalidade brasileira. Como ensina o historiador Timothy Snyder, em “Sobre a tirania” (Companhia das Letras, 2017), regimes autoritários frequentemente avançam pela erosão paulatina das normas democráticas, deslocando os limites do aceitável até que a própria ideia de verdade se torne irrelevante.
A tática da relativização e o papel da imprensa
Mesmo após a derrota eleitoral de 2022, os bolsonaristas mantiveram-se ativos na tentativa de reivindicar legitimidade no debate público. Parte da imprensa — sob o pretexto de garantir “pluralidade de vozes” — aderiu a um falso equilíbrio (o “declaracionismo”) que coloca no mesmo nível fatos comprovados e teses conspiratórias. Essa prática, longe de informar, desinforma. Como alerta a jornalista e pesquisadora Claire Wardle, especialista em desinformação digital, “o excesso de zelo com a neutralidade pode legitimar a mentira e comprometer a missão jornalística de informar com base em evidências”.
O episódio recente envolvendo o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) é emblemático desse embate entre o bolsonarismo e as instituições democráticas. Ao sustar parte da ação penal contra Ramagem, o Supremo Tribunal Federal (STF) não inovou: apenas aplicou o que dispõe o Parágrafo 3º do Artigo 53 da Constituição. Ainda assim, o bolsonarismo reagiu com a retórica habitual de vitimização, acusando o STF de usurpar prerrogativas do Legislativo.
Na sessão que analisou o caso, o ministro Flávio Dino foi didático ao rebater a deturpação do conceito de separação de Poderes: “Se assim fosse, nós teríamos uma dissolução da República porque aí cada Poder, cada ente federado, faz a sua bandeira, o seu hino, a sua moeda […]” (STF, 2024). Dino resgatou, ainda, os ensinamentos de Aristóteles, Locke e Montesquieu, lembrando que a separação de Poderes não significa ausência de controle entre eles — ao contrário, é a partir do equilíbrio entre freios e contrapesos que se evita a tirania.
A “nova era” da distorção
O cenário atual se assemelha à “nova era” descrita por Robert Musil em “O Homem sem Qualidades”, onde “há um pouco de ruindade demais misturado ao que era bom”, e “engano demais na verdade”. O bolsonarismo, ao distorcer conceitos como liberdade de expressão, separação de Poderes e soberania popular, cria uma realidade paralela em que a Constituição se torna um mero obstáculo a ser contornado pela retórica.
Essa distorção conecta-se ao conceito de “pós-verdade”, definido pela filósofa e jornalista Hannah Arendt como “a aceitação consciente da mentira política como meio de manipulação das massas” (“Truth and Politics”, 1967). A banalização da mentira, observada na recente entrevista de Jair Bolsonaro ao UOL, evidencia essa lógica. Com naturalidade, o ex-presidente reiterou falsidades sobre vacinas, suas próprias ações golpistas e até a suspensão de processos judiciais que o envolvem.
A direita sem compromisso com o Estado de Direito
O bolsonarismo não apenas dominou o espaço da direita, mas redefiniu seus contornos de forma a torná-la incompatível com os valores basilares do Estado de Direito. Não se trata mais de uma disputa entre projetos conservadores e progressistas dentro das regras democráticas, mas de uma direita que nega as próprias regras do jogo.
O cientista político Steven Levitsky, em “Como as democracias morrem” (Zahar, 2018), alerta que a recusa em aceitar a legitimidade das instituições — incluindo o Judiciário — é um dos primeiros sinais de declínio democrático. O Brasil se encontra exatamente nesse ponto: uma parcela significativa da direita não admite a legitimidade de um Supremo que ousa aplicar a Constituição.
No centro desse embate está uma escolha estrutural: preservar as instituições republicanas ou apostar na sua degradação como meio de disputa política. Trata-se de uma encruzilhada que define não apenas o presente, mas o futuro da democracia brasileira. O golpe de 2022 malogrou, mas o estrago persiste. Reconstruir uma direita democrática, capaz de conviver com as regras do Estado de Direito, será uma tarefa árdua e longa — mas inadiável.
Como ensina o filósofo Norberto Bobbio, “a democracia não é um estado, mas um processo contínuo de luta contra a desigualdade e o arbítrio” (“O futuro da democracia”, Paz e Terra, 1986). O Brasil, mais uma vez, está chamado a essa luta.
O Golpe que Bolsonaro Ensaiou — e o Brasil Rejeitou
Às 16h36 de 8 de janeiro de 2023, quando vândalos bolsonaristas quebravam vidraças e destruíam símbolos da democracia nas sedes dos Três Poderes, um influenciador bolsonarista rogava desesperadamente por um gesto pacificador de Jair Bolsonaro. Paulo Figueiredo Filho, neto do último general-presidente da ditadura, enviava uma mensagem ao tenente-coronel Mauro Cid, pedindo que o ex-presidente interviesse. O pedido era claro: Bolsonaro deveria se manifestar publicamente contra a destruição, para tentar conter uma escalada que fugia do controle.
Do outro lado da linha, a resposta foi seca e reveladora: “Não vai [se manifestar]… Acabei de falar com ele. Isso já deixou de ser por ele. O povo já não aguenta mais tanta arbitrariedade.” A recusa de Bolsonaro em condenar os atos de violência enquanto eles aconteciam, preferindo o silêncio e a omissão estratégica, expõe mais do que covardia política. Expõe a cumplicidade ativa em um projeto de subversão institucional que vinha sendo articulado muito antes da data fatídica.
Da recusa em passar a faixa à recusa em aceitar a derrota
A trajetória de Jair Bolsonaro nos últimos meses de seu governo já indicava que o respeito às regras democráticas não fazia parte de seu horizonte. Sua recusa em passar a faixa presidencial a Lula em 1º de janeiro de 2023 foi mais do que um gesto simbólico: foi um ato político calculado. Ao deixar o país no dia 30 de dezembro e se exilar temporariamente nos Estados Unidos, Bolsonaro buscou manter a narrativa de ilegitimidade das eleições, ao mesmo tempo em que evitava formalizar sua derrota.
O cientista político Adam Przeworski, em “Democracy and the Market” (Cambridge University Press, 1991), define a democracia como um sistema no qual os atores políticos aceitam perder. Quando esse princípio básico é rejeitado, o jogo democrático deixa de existir. Bolsonaro nunca aceitou perder. E sua permanência nos Estados Unidos, enquanto seus seguidores cercavam quartéis e pediam intervenção militar, foi parte de uma estratégia de desestabilização, não de afastamento.
O caso Mauro Cid: o arquivo vivo do golpismo
O celular de Mauro Cid, apreendido pela Polícia Federal, se revelou uma verdadeira caixa-preta da conspiração golpista. As 158 mil mensagens e 77 gigabytes de dados guardados no aparelho oferecem uma radiografia minuciosa do projeto de ruptura constitucional. Entre as conversas, destaca-se o diálogo com Paulo Figueiredo, em que fica claro que Bolsonaro foi diretamente instado a agir — e recusou.
Essa documentação integra agora o inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal, no qual Bolsonaro é réu por tentativa de golpe. Como observou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, as ações do ex-presidente, ao longo de seu governo e especialmente após a derrota eleitoral, criaram o ambiente de legitimidade simbólica para os atos violentos do 8 de Janeiro.
Em sua defesa, Bolsonaro tenta sustentar que sua presença em Orlando, nos Estados Unidos, o desvincula das ações ocorridas em Brasília. O argumento é frágil. A distância física não o exime da responsabilidade por atos que foram, em larga medida, consequência de sua liderança política e de sua retórica sistemática de ataque às instituições.
As mensagens de Mauro Cid e as declarações do próprio Bolsonaro em entrevistas posteriores mostram que ele não apenas sabia dos planos e das mobilizações, mas também fazia cálculos políticos sobre o impacto desses movimentos. Como já advertia Hannah Arendt em “Verdad y Política” (1967), a negação da verdade factual — como a recusa em reconhecer a legitimidade das eleições — é o primeiro passo para a destruição da política como espaço de convivência democrática.
O núcleo armado do golpismo: o caso Wladimir Soares
Se as mensagens de Cid expõem a omissão estratégica de Bolsonaro, as declarações do policial federal Wladimir Matos Soares revelam a face mais violenta e explícita da tentativa de golpe. Em áudios periciados pela PF, Wladimir confessou fazer parte de uma equipe de operações especiais pronta para agir “com muita vontade” para impedir a posse de Lula. Suas palavras não deixam dúvidas: “A gente ia empurrar meio mundo de gente, pô. Matar meio mundo de gente.”
O grupo, denominado “Punhal Verde e Amarelo”, não era composto por aloprados isolados. Incluía militares da ativa e da reserva, além de agentes da própria Polícia Federal, e tinha planos concretos para a execução de líderes do Executivo e do Judiciário. A tentativa de prisão do ministro Alexandre de Moraes, mencionada nos áudios, revela a intenção de golpear diretamente o centro de resistência institucional à escalada autoritária.
Esses elementos indicam a existência de uma organização criminosa armada, com objetivos claros de subverter o Estado Democrático de Direito. Trata-se de uma configuração que se aproxima da definição de “autogolpe”, conceito analisado pelo jurista Bruce Ackerman em “The Decline and Fall of the American Republic” (Harvard University Press, 2010), no qual líderes eleitos tentam usar as próprias estruturas do Estado para aniquilar a democracia por dentro.
Outro ponto crucial revelado pelas investigações foi a tentativa de Bolsonaro em cooptar os comandos militares para validar juridicamente a ruptura institucional. Segundo Wladimir Soares, Bolsonaro teria recuado de uma ação mais drástica após ser “traído” pelos generais, que se recusaram a apoiar abertamente o golpe.
A recusa das Forças Armadas em aderir ao projeto golpista não foi, porém, um gesto de fidelidade democrática sem ambiguidades. A conivência com os acampamentos golpistas em frente aos quartéis, tolerados durante semanas, evidenciou a dificuldade histórica do Brasil em consolidar a subordinação das Forças Armadas ao poder civil, como estabelece a Constituição de 1988.
O 8 de Janeiro como síntese de uma era de degradação democrática
O ataque aos Três Poderes foi o ápice de uma sequência de agressões à ordem institucional que começaram ainda em 2019, com as investidas de Bolsonaro contra o STF, o Congresso e a imprensa. O bolsonarismo não foi um desvio isolado: foi a expressão brasileira de uma onda global de autoritarismo, que inclui Donald Trump, Viktor Orbán e outros líderes que, segundo Yascha Mounk em “O Povo Contra a Democracia” (Companhia das Letras, 2019), utilizam as ferramentas democráticas para corroer a própria democracia.
No caso brasileiro, a combinação de uma elite econômica conservadora, setores das Forças Armadas com nostalgia autoritária e uma base popular radicalizada criou o ambiente propício para a tentativa de golpe. A singularidade do 8 de Janeiro está em ter transformado a ameaça em ação concreta, ainda que fracassada.

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