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Poder

A dança farsesca de Bolsonaro e Tarcísio

Ex-presidente dita rumos da direita, enquanto Tarcísio ensaia candidatura trocando lealdade pela própria credibilidade

Publicado em 30/09/2025 9:18 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A política brasileira segue sequestrada por um enredo farsesco. Enquanto Jair Bolsonaro se equilibra entre o messianismo e a autocomiseração, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cumpre o roteiro de herdeiro obediente. Diz que não será candidato à Presidência em 2026, mas multiplica sinais de que o será — desde que autorizado pelo clã. O gesto mais recente foi uma visita simbólica à casa do ex-presidente, em meio a rumores de crise de saúde.

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A narrativa que sustenta Bolsonaro desde sua ascensão continua operando em três atos: épico, lírico e trágico. Como bem definiu o jornalista Reinaldo Azevedo, “nunca se diz de um mitômano ser ele um narrador” — e é nesse ponto que reside o engodo. A palavra “narrativa”, capturada pela direita e pela extrema direita como sinônimo de mentira, perdeu seu sentido original para virar ferramenta de manipulação emocional e estratégia de comunicação política.

Bolsonaro não apenas conta histórias; ele as encena. Sua figura pública é construída sobre elementos de epopeia: o herói outsider, o capitão que enfrenta as forças do mal — comunismo, globalismo, STF — numa jornada messiânica. O 7 de setembro de 2021 é o exemplo mais acabado dessa construção, quando o então presidente prometeu ruptura institucional em praça pública. Mas o clímax desse enredo foi o fracasso: o negacionismo da pandemia, os ataques à democracia e, por fim, os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, com invasão e destruição das sedes dos Três Poderes.

Esse delírio épico teve consequências concretas: mais de 700 mil mortos pela COVID-19 no Brasil, muitos dos quais poderiam ter sido poupados com uma política sanitária responsável. O país foi transformado em pária internacional, alvo de inquéritos e investigações que resultaram na inelegibilidade do ex-presidente e em sua atual prisão domiciliar — decretada pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento em tentativa de golpe de Estado.

A retórica do mártir

Mas quando a narrativa heroica se esgota, entra em cena o lirismo. O Bolsonaro do “mito” cede lugar ao homem ferido. Em publicações recentes, Carlos Bolsonaro pediu orações pelo pai, dizendo que ele sofria de vômitos e soluços — sintomas vagos, mas dotados de forte apelo emocional. A culpa, insinuou, seria do ministro Alexandre de Moraes. O objetivo: transformar o ex-presidente em vítima da Justiça, mesmo quando os fatos o colocam como agressor da ordem democrática.

Essa dramaturgia do sofrimento é conhecida. Em 2022, no auge das investigações sobre o esquema de joias sauditas, Bolsonaro apareceu cabisbaixo, acolhido por Michelle, sua esposa, símbolo feminino da nova direita evangélica. A comoção vira cálculo. O afeto vira argumento. O drama vira estratégia.

Tarcísio, o discípulo em busca da bênção

Neste teatro político, Tarcísio de Freitas desempenha o papel do filho pródigo. Afirma que buscará a reeleição em São Paulo, mas articula discretamente sua viabilidade nacional. Sem o apoio de Bolsonaro, seu nome não unifica a direita. Com esse apoio, pode vir a ser “o escolhido” — caso o patriarca esteja juridicamente impedido de concorrer.

A visita de Tarcísio ao ex-presidente, seguida da súbita divulgação do estado de saúde de Bolsonaro por Carlos, escancara a simbiose entre encenação e cálculo político. Pela manhã, Bolsonaro é líder em ação. À noite, vira homem combalido. E Tarcísio participa da mise-en-scène com entusiasmo — mesmo sabendo que a bênção do clã pode não ser suficiente para legitimar sua candidatura em 2026.

Como analisou a jornalista Daniela Lima, “Tarcísio está cumprindo o roteiro que ele precisa. Ele não tem como ser candidato à presidência sem ter o apoio do Bolsonaro e da família”. Segundo ela, sem esse endosso, a direita se fragmentaria, com chances reduzidas contra o presidente Lula, que tenta a reeleição.

Tarcísio sabe disso — e age em conformidade. Multiplicou acenos ao bolsonarismo radical. Atacou o ministro Alexandre de Moraes em tom inédito. Participou de atos públicos na Paulista. Recolheu-se estrategicamente em momentos de tensão e agora volta a fazer gestos de submissão simbólica. Para ter alguma chance, precisa cumprir o rito: elogiar Bolsonaro, defender anistia, tratar a Justiça como inimiga e reproduzir a estética do “mito”.

Entre a amnésia e a cumplicidade

Mas o que está em jogo não é apenas a eleição. É a memória. A insistência em uma aliança incondicional com Bolsonaro exige que Tarcísio embarque num projeto de amnésia coletiva. Como apontou a jornalista Vera Magalhães, “gratidão política é uma coisa. Cumplicidade é outra. Tarcísio confunde pacificação com apagamento”.

Ao fazer-se de herdeiro legítimo, o governador de São Paulo também herda o passivo moral e institucional do bolsonarismo: as mortes na pandemia, o desmonte ambiental, a misoginia, o racismo e o desprezo pela democracia. Não se trata de especulação. Os números estão aí: segundo levantamento da Fiocruz e da USP, o negacionismo institucional contribuiu diretamente para o agravamento da crise sanitária e para o atraso na vacinação.

Tarcísio, que poderia ser uma alternativa racional à direita, optou por disputar o espaço da extrema direita — mesmo que isso signifique sabotar sua própria imagem pública. Sua trajetória recente revela mais do que estratégia: revela abdicação. Como escreveu o cientista político Christian Lynch, da UERJ, “a nova direita brasileira não é liberal nem conservadora. É iliberal e reacionária”.

Ao encenar sua epopeia, Bolsonaro arrastou o país para um teatro de delírios e mitologias políticas. Agora, vê-se convertido em personagem de tragicomédia. Seu herdeiro aparente, Tarcísio, se contenta em ser coadjuvante, desde que o script garanta sua sobrevivência eleitoral.

A questão central não é se Tarcísio será candidato, mas se ele merece ser. Afinal, um país que passou por tudo o que o Brasil passou nos últimos anos não precisa de mitos. Precisa de memória, responsabilidade e líderes que respeitem a verdade — e não de narradores dispostos a tudo para agradar a um personagem que já deveria ter saído de cena.

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