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Poder
Com Bolsonaro preso, Tarcísio se equilibra entre o pragmatismo do centrão, a herança bolsonarista e o próprio projeto
Publicado em 29/11/2025 10:16 - Semana On
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Quem herdará a direita brasileira em 2026? A pergunta, que até pouco tempo parecia não fazer sentido, passou a dominar as conversas em gabinetes, planilhas de campanha e colunas políticas desde que Jair Bolsonaro, ex-presidente e líder incontestável da extrema direita nacional, viu-se fora do jogo eleitoral após sua inelegibilidade ser confirmada e agravada por processos judiciais. Seu espólio político, porém, continua vivo – difuso, ressentido, barulhento. E o nome que desponta como figura central nesse novo xadrez é o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
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Filho dileto de Bolsonaro nas eleições de 2022, Tarcísio é, hoje, ao mesmo tempo, a maior vitrine da direita institucional e o alvo preferencial do centrão em busca de um nome competitivo para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. Seu percurso, entretanto, revela não apenas uma biografia administrativa discreta e eficiente, mas também um personagem que encarna os dilemas históricos da direita brasileira: a tensão entre autoritarismo e liberalismo, entre populismo e tecnocracia, entre o carisma pessoal e o pragmatismo das engrenagens de poder.
A engenharia do poder
Formado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), Tarcísio ganhou visibilidade em cargos técnicos durante os governos Dilma Rousseff e Michel Temer, chegando ao ápice da projeção no Ministério da Infraestrutura sob Bolsonaro. Em todos esses momentos, sobreviveu ileso a escândalos e crises institucionais, cultivando uma imagem de gestor eficiente e discreto — uma raridade na política brasileira recente, marcada pela radicalização e pelo personalismo exacerbado.
Com o apoio de Bolsonaro, e com ajuda decisiva do centrão, venceu o pleito para o governo paulista em 2022, tornando-se o primeiro governador não paulista a comandar o estado. Agora, com 66% de aprovação, 52% das intenções de voto para uma eventual reeleição e a menor taxa de rejeição entre os nomes da direita (38,8%), Tarcísio se encontra num ponto crítico: optar pela segurança da reeleição em São Paulo ou arriscar a candidatura à presidência, carregando o peso de um campo político fragmentado.
A sucessão sem herdeiro
A prisão de Jair Bolsonaro, embora simbolicamente explosiva, produziu um vácuo que seus filhos e aliados mais próximos tentam preencher com discursos agressivos e fidelidade incondicional. O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), em entrevista à jornalista Letícia Casado (UOL), admitiu que poderia apoiar Tarcísio, mas deixou claro que estará sempre “do outro lado” de Lula — uma confissão mais ideológica do que estratégica.
O centrão, por sua vez, tenta a todo custo evitar o sobrenome Bolsonaro nas urnas de 2026, mas sem alienar a base bolsonarista, numerosa e fiel. Nesse jogo de ambivalências, Tarcísio desponta como a ponte possível: não tão radical quanto os filhos de Bolsonaro, nem tão moderado a ponto de romper com o legado bolsonarista. Sua relação com o ex-presidente se torna, assim, simultaneamente um trunfo e uma armadilha.
Além dele, outros nomes ventilados — como Rogério Marinho e Ronaldo Caiado — não conseguem romper o teto eleitoral nem construir alianças além de seus redutos ideológicos. O risco de uma direita pulverizada, portanto, é real e, como alertam analistas, pode favorecer diretamente a reeleição de Lula, que aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno contra 21,7% de Tarcísio, segundo as últimas pesquisas. No segundo turno, porém, a disputa se estreita para uma diferença de cinco a sete pontos percentuais — um cenário longe de ser confortável para o PT.
Os quatro caminhos de Tarcísio
Diante desse contexto, o governador paulista tem pela frente quatro caminhos possíveis, como bem descreve o jornalista Alexandre Borges (UOL). Cada um deles carrega seus próprios riscos e promessas:
O Inevitável: disputar a reeleição em São Paulo, onde a vitória é quase certa, e adiar o sonho presidencial para 2030. Evitaria o confronto com Lula e a instabilidade de um cenário nacional em crise, mantendo capital político e evitando o desgaste precoce. Mas, como lembra o ditado em Brasília, planejar para daqui a seis anos no Brasil é como prever o tempo para a semana que vem: tudo pode mudar.
O Indigente: submeter-se completamente ao bolsonarismo, mesmo sendo alvo da ala mais radical, que já o rotula como “candidato do sistema” e “protegido de Alexandre de Moraes”. Nesse cenário, Tarcísio perderia sua autonomia e viraria refém do bolsonarismo delirante das redes — um papel que ele, até agora, evitou com sucesso.
O Improvável: romper de forma aberta com Bolsonaro e tentar se firmar como líder de uma direita renovada. A história recente de ex-bolsonaristas mostra o custo dessa decisão: Joice Hasselmann, General Santos Cruz, Alexandre Frota — todos tornaram-se irrelevantes politicamente. Ainda assim, a ruptura pode se tornar inevitável se o bolsonarismo continuar a apodrecer em escândalos e teorias conspiratórias.
O Imprevisível: liderar uma recomposição ampla da direita, unindo bolsonaristas moderados, liberais da Faria Lima, o centrão e eleitores independentes. Esse é o caminho mais difícil, mas também o mais promissor. Exigirá habilidade retórica, articulação política, concessões estratégicas e, talvez, a criação de um novo “ismo” — o tarcisismo.
Um nome próprio?
A história política brasileira não perdoa vácuos. Getúlio, Jango, Collor, Lula — todos ocuparam espaços deixados por rupturas, crises ou ausências. O momento atual, com a saída de Bolsonaro, pode permitir o surgimento de uma nova liderança à direita. Mas, para isso, é preciso mais do que evitar erros: é necessário ter projeto, identidade e coragem.
Tarcísio de Freitas ainda parece relutar em assumir essa missão. Mas o fato de ter fixado março de 2026 como prazo para decidir seu futuro indica que o sonho presidencial segue vivo. E se quiser viabilizá-lo, precisará fazer escolhas que envolvem muito mais do que cálculos eleitorais: implicam um posicionamento claro diante da história recente do Brasil — marcada por polarização, autoritarismo e ataques constantes à democracia.
Como ensina o sociólogo Pierre Rosanvallon, “a legitimidade de um governo democrático não está apenas no voto, mas na capacidade de representar a complexidade social e manter o equilíbrio institucional”. Se Tarcísio pretende ser mais do que um gestor eficiente, precisará mostrar que compreende esse desafio. O tempo — e o centrão — não costumam esperar demais.
DDD’s
Sem a modéstia de quem hesita, o governador de São Paulo tem se apresentado com desenvoltura como o nome mais viável da direita em 2026 — e não mais apenas como um tecnocrata discreto ou um administrador eficiente.
Em mais uma de suas habituais palestras ao mercado financeiro — desta vez, na XP Asset Management — Tarcísio lançou mão de um slogan que ecoa diretamente da cartilha de Paulo Guedes: os “Ds” da economia. Segundo ele, são a chave para a solução dos problemas brasileiros: desregulamentação, digitalização, desvinculação, desindexação e desinvestimento.
O apelo à fórmula encantada do ex-ministro da Economia parece, em primeiro plano, um aceno claro à Faria Lima. Mas a ausência de clareza sobre o que exatamente se pretende “desregulamentar” ou “desvincular” levanta preocupações legítimas. Estaria o governador sugerindo o fim da vinculação constitucional de recursos para saúde e educação? Pretende desindexar o salário mínimo da aposentadoria? Promover nova rodada de privatizações na Petrobrás e demais estatais? Nada foi especificado ao público geral. Talvez o detalhe tenha ficado reservado aos ouvidos mais seletos — os dos investidores, que aplaudem antes mesmo do discurso terminar.
Essa retórica embalada em tecnicismos, porém, tende a colidir com as exigências do debate eleitoral, onde será necessário traduzir esses conceitos para o eleitor comum — especialmente os mais pobres, que hoje compõem a base social mais sólida do lulismo. Como explicará Tarcísio, por exemplo, que “desvincular” pode significar, na prática, cortes em políticas sociais essenciais? Ou que “desinvestir” pode implicar menos presença do Estado em áreas críticas como infraestrutura e segurança pública?
Entre o mercado e o bolsonarismo, um dilema programático
Ao mesmo tempo em que tenta seduzir o capital financeiro com promessas de liberalismo radical, Tarcísio enfrenta fogo amigo dentro do próprio campo bolsonarista. O deputado Eduardo Bolsonaro já declarou abertamente ao UOL que considera o governador paulista apenas um “tecnocrata centrista”, acusando-o de “dividir a direita” — o que, segundo ele, não lhe causa incômodo algum. A crítica, embora exagerada, expõe a fissura crescente entre os radicais fiéis à figura de Bolsonaro e aqueles que buscam refundar a direita sobre bases menos ideológicas e mais gerenciais.
De fato, Tarcísio busca hoje se apresentar como o “imperativo categórico” da direita, alternativa inevitável a ser aceita — ainda que a contragosto — pela família Bolsonaro. E para garantir essa posição, acena com o que pode interessar a todos: a promessa de tentar anistiar o ex-presidente, seja por via parlamentar ou por meio de indulto, em caso de vitória nas urnas. O projeto — ainda não assumido publicamente — carrega consigo o D mais perigoso do seu repertório: a desinstitucionalização.
Se eleito, caberia a Tarcísio não apenas suceder Bolsonaro, mas resgatar seu legado — o que significaria, para muitos, confrontar diretamente o Estado Democrático de Direito. A questão é: qual Tarcísio se imporá? O engenheiro que valoriza a estabilidade institucional ou o aliado de um projeto que desafiou abertamente o Supremo, o Congresso e o processo eleitoral?
O liberalismo seletivo e os limites da retórica de mercado
O governador também não poupou elogios ao Congresso, que classificou como “liberal e reformista” — em uma leitura, no mínimo, generosa. Afinal, trata-se do mesmo Parlamento que, sob forte pressão de lobbies ruralistas, derrubou vetos presidenciais na área ambiental, liberando a boiada para o desmatamento. É também o mesmo Congresso que institucionalizou o orçamento secreto, torra R$ 50 bilhões anuais em emendas e transfere sistematicamente ônus fiscais aos cofres da União.
Esse é o modelo de “liberalismo” que Tarcísio se dispõe a defender — com o apoio do centrão e sob aplausos do mercado. Um liberalismo que desinveste em políticas públicas, mas investe sem limites em clientelismo político. Que clama por desregulamentar a economia, mas regula a máquina pública segundo os interesses de grupos parlamentares organizados.
Faltou lembrar, ainda, que na área da segurança pública — uma de suas principais bandeiras — o governador tentou, nos bastidores, emplacar o D da “desinvestigação”, ao defender o esvaziamento da Polícia Federal. Diante da forte reação institucional e popular, recuou e optou pela desconversa.
A batalha de narrativas em 2026
Tarcísio também repetiu, na XP, um dos mantras favoritos da direita ultraliberal: “o Brasil vai quebrar”. Segundo ele, mesmo que Lula se reeleja, será obrigado a promover “reformas profundas” que afetariam diretamente sua base social — uma afirmação que carrega, nas entrelinhas, a ideia de que governar exige enfrentar os mais pobres. Em outras palavras, Tarcísio não apenas reconhece quem são os principais beneficiários das políticas lulistas, como sugere que, para manter a “racionalidade econômica”, será preciso reduzir os ganhos dessa população.
É um discurso tecnocrático que se afina com as expectativas do mercado, mas que, numa eleição presidencial, precisará ser confrontado com as realidades da desigualdade brasileira. Se pretende liderar a direita num projeto de poder duradouro, Tarcísio terá que encontrar um ponto de equilíbrio entre a promessa de eficiência administrativa e a necessidade de ampliar sua base popular — algo que nem Bolsonaro conseguiu fazer.
A julgar pelos movimentos recentes, Tarcísio quer ser tudo ao mesmo tempo: o herdeiro institucional da máquina bolsonarista, o queridinho da Faria Lima, o rosto moderno do centrão e, eventualmente, o presidente da República. Mas, como ensinou Max Weber, toda liderança carismática precisa um dia dar lugar à legitimidade racional-legal. O desafio de Tarcísio é saber se conseguirá fazer essa transição sem trair a si mesmo — ou ao projeto que agora tenta carregar nas costas.
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