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Poder

61% dos brasileiros não votarão em quem defende anistia

Manifestações de ontem mostram que Bolsonaro ainda tem força na sua bolha

Publicado em 04/08/2025 10:00 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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A menos de um ano das eleições presidenciais, o tema da anistia a Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados ressurge como um dos principais pontos de tensão no debate político. Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana mostra que 61% dos brasileiros afirmam que não votariam em um candidato que prometesse livrar o ex-presidente e seus aliados de punições relacionadas a ataques à democracia, incluindo os envolvidos nos atos de 8 de Janeiro.

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O levantamento, realizado nos dias 29 e 30 de julho com 2.004 entrevistados, tem margem de erro de dois pontos percentuais. De acordo com o instituto, 19% dos entrevistados disseram que votariam com certeza em um candidato com esse perfil, enquanto 14% afirmaram que talvez o fizessem. Outros 6% não souberam responder.

A questão representa um desafio para setores da direita, especialmente os ligados ao bolsonarismo. Embora presidentes da República tenham prerrogativa para conceder indultos, o Supremo Tribunal Federal (STF) já sinalizou que essa medida não se aplica a crimes contra a democracia. Foi o que ocorreu, por exemplo, quando a Corte derrubou o perdão concedido por Bolsonaro ao ex-deputado Daniel Silveira, condenado por ameaças às instituições democráticas.

Bolsonaro, que é réu no STF no processo sobre a tentativa de golpe de Estado, classifica as investigações como perseguição política – discurso semelhante ao adotado por seu aliado nos Estados Unidos, Donald Trump. O ex-presidente norte-americano chegou a utilizar a situação jurídica de Bolsonaro como justificativa para aumentar tarifas de importação sobre produtos brasileiros, medida que elevou os impostos a até 50%.

A iniciativa gerou constrangimento entre governadores aliados de Bolsonaro, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Romeu Zema (Novo-MG), que inicialmente saíram em defesa do ex-presidente. Tarcísio, lançado à vida política por Bolsonaro e hoje visto como possível presidenciável, precisou recuar em seu posicionamento após a repercussão negativa. No domingo (3), o governador marcou um procedimento médico e evitou comparecer ao ato pró-anistia na avenida Paulista, o que foi interpretado como tentativa de se afastar do desgaste.

Apesar das tentativas de modulação no discurso, Tarcísio, Zema e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) já se manifestaram publicamente a favor da anistia a Bolsonaro. Em posição mais cautelosa, o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), também declarou apoio à anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de Janeiro.

No Congresso Nacional, uma proposta de lei que visava conceder anistia a cerca de 480 condenados relacionados aos atos antidemocráticos perdeu força. O projeto, que poderia beneficiar diretamente o ex-presidente, esbarrou na resistência da opinião pública e na crise diplomática com os Estados Unidos.

A anistia aos perpetradores dos atos golpistas do 8 de janeiro é rejeitada por 55% dos brasileiros. Outros 35%, por sua vez, aprovam a ideia.

Os números indicam estabilidade de cenário ante o registrado em abril passado. Ali, 56% eram contra e 37% a favor da anistia, numa mudança ante o patamar registrado nas duas aferições de 2024. Em março do ano passado, os números eram 63% e 31%, respectivamente, e em dezembro, 62% e 33%.

Ato pró-Bolsonaro na Av. Paulista reuniu 37,6 mil pessoas USP

O ato em apoio a Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo, reuniu 37,6 mil pessoas no domingo (3), segundo metodologia do Monitor do Debate Político do Cebrap em parceria com a ONG More in Common. O método usa imagens da multidão capturadas por drones.

A contagem foi feita no momento de pico da manifestação, às 15h33, a partir de fotos aéreas analisadas com software de Inteligência Artificial. A margem de erro de 12% indica um público entre 33,1 mil e 42,1 mil participantes.

A última manifestação pró-Bolsonaro em São Paulo, ocorrida no final de junho, reuniu 12,4 mil pessoas na Av. Paulista, número obtido pela mesma metodologia. Em abril, outra manifestação convocada pelo ex-presidente reuniu 44,9 mil pessoas. Em fevereiro de 2024, ato com o ex-presidente reuniu 185 mil pessoas no mesmo local.

O ato foi organizado pelo pastor Silas Malafaia. Os apoiadores do ex-presidente levaram faixas e cartazes com críticas ao STF e pedidos de anistia aos condenados pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, medida que pode beneficiar Bolsonaro.

Manifestação gera desgaste interno e reações contrárias

As manifestações de ontem (3) mostraram que o bolsonarismo mantém capacidade de mobilização nas ruas, com boa presença de apoiadores tanto nas capitais quanto em cidades do interior. No entanto, o evento também revelou contradições que vêm fragilizando o movimento — desta vez, ligadas à estratégia internacional de Eduardo Bolsonaro.

Ao buscar apoio de Trump para defender Jair Bolsonaro das acusações relacionadas à tentativa de golpe, Eduardo provocou uma reação inesperada. A presença simbólica de Trump nas manifestações — em faixas, cartazes e agradecimentos pelas sanções contra o ministro Alexandre de Moraes — despertou críticas até entre apoiadores tradicionais do ex-presidente, ao acionar sentimentos de subordinação política ao exterior.

Governadores aliados e com pretensões eleitorais, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), optaram por não comparecer aos atos. Jair Bolsonaro, impedido pela Justiça de participar de atividades políticas nos fins de semana, também não discursou.

A ofensiva internacional liderada por Eduardo teve efeitos colaterais amplos. Ao incentivar Trump a pressionar o Brasil economicamente — o que culminou no aumento de tarifas de importação por parte dos EUA —, o deputado contribuiu para uma deterioração ainda maior da imagem de Bolsonaro. A campanha por anistia perdeu força, e a vinculação com medidas que afetam diretamente a economia brasileira foi reprovada por 89% dos entrevistados na pesquisa Datafolha.

O resultado, para analistas e integrantes da própria direita, é considerado desastroso. Além de reforçar o isolamento de Bolsonaro, o movimento acabou por deslocar o debate para um terreno que expôs contradições ideológicas no campo conservador. No mesmo fim de semana, durante o encontro nacional do PT, parte da militância petista adotou as cores verde e amarela — tradicionalmente associadas ao bolsonarismo — em sinal de resgate simbólico da bandeira nacional.

O PL, partido de Bolsonaro, passou a enfrentar pressões internas por maior controle sobre a atuação política e internacional de Eduardo. Reservadamente, dirigentes da legenda avaliam que a condução errática da campanha pró-anistia e o envolvimento direto com Trump têm produzido mais prejuízos do que ganhos.

Maioria aprova tornozeleira em Bolsonaro

A maioria dos brasileiros aprova a imposição de medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica a Bolsonaro. Para 55%, a decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes foi correta, mesmo índice daqueles que acreditam que o ex-presidente pretendia sair do país antes de ser julgado.

Entre os que aprovam as medidas, 44% dizem fazê-lo totalmente. Já entre os 41% que discordam, 32% são convictos. Não opinaram 3%, e 1% se disse indiferente.

Há duas semanas, Moraes determinou a colocação da tornozeleira em Bolsonaro, que também foi proibido de sair de casa à noite e nos fins de semana, além de outras restrições. A decisão ocorreu após o presidente americano, Donald Trump, justificar o anúncio de um tarifaço contra importações brasileiras ao que chamou de “caça às bruxas” contra Bolsonaro.

O episódio tornou-se uma crise diplomática e política ainda em curso, com as tarifas elevadas para 50% sendo decretadas na quarta (30). Moraes considerou que, com seu filho Eduardo atuando diretamente contra o Brasil junto a trumpistas nos EUA, havia risco de Bolsonaro fugir.

Em 2024, o ex-presidente já havia feito aquilo que havia sido visto como um test-drive para evitar a prisão, dormindo dois dias na embaixada da Hungria, país governado pelo seu aliado Viktor Orbán, após ter seu passaporte retido. A operação da Polícia Federal contra Bolsonaro ainda encontrou dólares em espécie em sua casa.

Segundo a pesquisa Datafolha, enquanto 55% dizem acreditar que o ex-presidente tinha intenção de sair do país, 36% disseram o contrário e 10% não opinaram.

A aprovação à tornozeleira e outras restrições é maior entre aqueles menos instruídos (59%) do que entre os que têm ensino superior (51%). O apoio também é mais expressivo entre quem ganha até 2 salários mínimos (57%), enquanto na classe média baixa associada ao bolsonarismo o índice cai a 44%.

Outras divisões seguem as cunhas da polarização brasileira. Evangélicos, grupo identificado com o ex-presidente, são mais críticos das medidas de Moraes: 40% as apoiam e 56% as desaprovam. Homens também discordam mais (44%) do que as mulheres (38%), e o Nordeste, base eleitoral lulista, lidera a aprovação regional das restrições, com 63%.

Após a decretação das medidas, Moraes ainda ameaçou Bolsonaro de prisão porque ele descumpriu a regra de não se pronunciar em redes sociais de forma indireta, ao dar uma entrevista envergando o aparelho no tornozelo para ser fotografado.

O episódio resultou apenas em uma advertência e a clarificação das regras de comportamento do ex-presidente até o julgamento, que ele diz ser uma farsa política com fins persecutórios.

71% veem Lula na disputa; Alckmin cresce como plano B

Enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro segue inelegível e com apoio limitado a uma anistia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como o nome mais certo na disputa de 2026 — ainda que não consensual. O Datafolha mostrou que 71% dos brasileiros acreditam que Lula tentará a reeleição, um número em alta desde abril, quando era de 62%.

Apesar dessa percepção consolidada, a maioria dos eleitores (54%) afirma que preferiria que Lula desistisse da candidatura. O apoio à reeleição ficou em 44%, revelando uma divisão expressiva no eleitorado. Mesmo enfrentando avaliação negativa em seu governo, o petista ampliou a vantagem sobre nomes da direita nas simulações de primeiro turno, segundo o instituto.

Vice-presidente ganha espaço como possível sucessor

Diante da possibilidade de Lula não concorrer, o nome do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) tem ganhado força como plano B dentro da base governista. Segundo o Datafolha, 26% dos entrevistados apoiariam uma candidatura de Alckmin com o aval de Lula — uma alta de oito pontos em relação à pesquisa anterior. Com isso, ele se aproxima de Fernando Haddad (PT), que caiu de 37% para 29% das preferências como sucessor do presidente.

Alckmin ganhou visibilidade recente ao liderar as negociações com os Estados Unidos após o aumento das tarifas de importação anunciado pelo governo de Donald Trump. Embora não tenha revertido as medidas, sua atuação foi bem recebida nos bastidores diplomáticos e na imprensa.

Enquanto isso, Haddad enfrenta dificuldades no Congresso e desgaste com o eleitorado, especialmente após a polêmica em torno do aumento do IOF. Outros nomes do governo aparecem com menos força: Simone Tebet (MDB) tem 13%, Rui Costa (PT) aparece com 5% e a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, soma 3%.

Bolsonaro fora da disputa, mas seu grupo se movimenta

Mesmo inelegível até 2030 por decisão da Justiça Eleitoral, Jair Bolsonaro ainda é visto como potencial candidato por 30% dos eleitores. A maioria (67%), no entanto, considera que ele deveria abrir espaço para uma nova liderança dentro do campo da direita.

Entre os nomes cogitados para herdar o capital político do bolsonarismo, Michelle Bolsonaro aparece em primeiro lugar, com 23%, seguida pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (21%). Também são lembrados Eduardo Bolsonaro (11%), Ratinho Júnior (10%), Flávio Bolsonaro (9%), Ronaldo Caiado (6%) e Romeu Zema (5%).

A pesquisa Datafolha foi realizada nos dias 29 e 30 de julho, com 2.004 entrevistas em 130 municípios do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Maioria acredita que Bolsonaro escapará da prisão

A proximidade do julgamento de Bolsonaro no STF, marcado para setembro, acirra ainda mais a polarização no país. Segundo o Datafolha, 48% dos brasileiros defendem que o ex-presidente seja preso por envolvimento na tentativa de golpe de Estado em 2022, enquanto 46% preferem que ele fique em liberdade. Apesar da divisão, 51% dos entrevistados acreditam que Bolsonaro conseguirá escapar da cadeia.

A articulação internacional em defesa de Bolsonaro conta com o apoio direto do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se mudou temporariamente para os EUA com o objetivo de promover uma campanha contra o Judiciário brasileiro e a favor da anistia ao pai.

Os dados mostram uma leve oscilação em relação à pesquisa anterior, feita em abril, quando 52% defendiam a prisão do ex-presidente e 42% eram contrários. Já a expectativa sobre o resultado do julgamento permanece relativamente estável: 52% acreditavam que ele escaparia da punição, número que agora está em 51%. Apenas 6% dos entrevistados não souberam opinar.

O recorte por perfil demográfico mantém as tendências já observadas: o apoio à inocência de Bolsonaro é mais forte entre eleitores evangélicos, moradores da região Sul, bolsonaristas e segmentos da classe média baixa. Já a defesa da prisão concentra-se entre eleitores de baixa renda, moradores do Nordeste e apoiadores do PT.

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