18/07/2024 - Edição 550

Palavra do Editor

Viva os picolés de chuchu

Publicado em 09/10/2014 12:00 -

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“Cui­dado com as crí­ticas e de­sa­bafos… Cui­dado com os as­suntos po­lê­micos, dis­cutir sobre fu­tebol, re­li­gião, po­lí­tica nas redes so­ciais não é muito acon­se­lhável, até por que o tempo passa e as con­sequên­cias ficam… Não fale mal da em­presa que você tra­balha… pro­cure ser lem­brado como aquela pessoa agra­dável que sabe se com­portar no on-line e no off-line.”

O pa­rá­grafo acima é com­posto por tre­chos de um dos mi­lhares de “ma­nuais de com­por­ta­mento nas redes so­ciais” que pu­lulam na in­ternet. A pro­li­fe­ração de “es­pe­ci­a­listas” em redes so­ciais criou este tipo de fenô­meno, no qual gente an­te­nada em tec­no­logia – mas muitas vezes mal saída dos cu­eiros – se ima­gina em po­sição de dizer o que é ou não vá­lido em termos com­por­ta­men­tais na minha e na sua vida.

É ver­dade: a cada dia as fron­teiras entre o vir­tual e o “real” de des­fazem. A cada dia pas­samos mais tempo co­nec­tados. Com­pramos, ven­demos, con­ver­samos, es­tu­damos, tra­ba­lhamos, fa­zemos e des­fa­zemos ami­zades e até re­la­ci­o­na­mentos via in­ternet. Des­ven­ci­lhar o “eu ana­ló­gico do eu di­gital” torna-se um de­safio que se acirra a cada mi­nuto.

Há quem de­fenda que nossa iden­ti­dade vir­tual deva ser re­gida também pela dis­crição po­lí­tica. É a ode ao pi­colé de chuchu. Seja ele­gante, não dis­cuta temas po­lê­micos. Seja cui­da­doso, não emita opi­niões di­ver­gentes. Seja cau­te­loso, não ex­ponha suas crenças.

Não há dú­vidas de que as es­feras pú­blica e pri­vada, que antes eram muito bem definidas, hoje se con­fundem e geram con­flitos. O que é dito na rede se mul­ti­plica ex­po­nen­ci­al­mente, saindo do âm­bito par­ti­cular e atin­gindo (po­ten­ci­al­mente) pa­ta­mares glo­bais. Cui­dados bá­sicos, in­clu­sive no que se re­fere à se­gu­rança, são acon­se­lhá­veis. Não há ne­ces­si­dade, por exemplo, de avisar ao mundo que você vi­a­jará pelas pró­ximas duas se­manas. A não ser que você queira voltar de vi­agem e en­con­trar a mu­dança feita pela ban­di­dagem. Não há ne­ces­si­dade de pu­blicar uma foto de nu frontal e desinibido para a apreciação do mundo. A não ser que você seja adepto do nu­dismo e queira di­vulgar a prá­tica. O bom senso na rede é o mesmo que ado­tamos fora dela.

Há, no en­tanto, quem vá além destes cuidados básicos com a imagem a segurança e a privacidade e de­fenda que nossa iden­ti­dade vir­tual deva ser re­gida também pela dis­crição po­lí­tica. É a ode ao pi­colé de chuchu. Seja ele­gante, não dis­cuta temas po­lê­micos. Seja cui­da­doso, não emita opi­niões di­ver­gentes. Seja cau­te­loso, não ex­ponha suas crenças. Não diga isso no Fa­ce­book, você pode se com­pro­meter. Não diga isso em pú­blico, você pode fe­char portas. Não diga isso nem mesmo em pen­sa­mento, você pode se pre­ju­dicar.

Con­fesso que, apesar dos flames e trolls que im­pregnam a rede, me in­co­modo menos com quem se lança ao de­bate aca­lo­rado do que com aqueles que passam de­sa­per­ce­bidos, com­par­ti­lhando apenas ame­ni­dades, ven­dendo a imagem de bons moços e moças con­for­mados e ade­quados às re­gras de com­por­ta­mento do status quo ou das rodinhas intelectualóides que frequentam. Da mesma forma, no con­vívio face to face, me in­quieto com quem não se po­si­ciona, com quem se exime de opinar, com quem exerce a pri­meva arte de se equi­li­brar sobre muros.

Estamos sob a ameaça constante da pasmaceira política que, se por um lado parece gerar frutos imediatos, por outro nos condena ao limbo das ideias. Não se constrói mundos com o silêncio. O conflito de ideias é fundamental para que novos conceitos floresçam na busca pelo desenvolvimento humano. E esta eterna busca ocorre hoje, especialmente, nos ambientes virtuais. Seguir todos os mandamentos dos “magos das redes sociais” é abrir mão do contraditório, do debate, da troca de ideias. Tenhamos cuidado com as fórmulas prontas.


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