18/07/2024 - Edição 550

Palavra do Editor

Política, partidos e voto

Publicado em 06/08/2014 12:00 -

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O voto que co­me­temos a cada eleição não é um in­di­cador con­fiável da par­ti­ci­pação efe­tiva na po­lí­tica, mas, isso sim, apenas o exer­cício de um dever, posto que é obri­ga­tório. A maior parte da po­pu­lação bra­si­leira não in­cor­pora a po­lí­tica ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada. Para ela, po­lí­tica é “coisa de po­lí­tico” e, a ela, cabe apenas o ato de votar.

A con­sequência é o cres­cente des­cré­dito em re­lação à po­lí­tica e aos po­lí­ticos. No fim das contas, o que o eleitor es­pera é apenas que os po­lí­ticos não atra­pa­lhem sua vida. A po­lí­tica passa de­sa­per­ce­bida de sua rotina, quase como parte do mundo da ficção, uma te­le­no­vela em que há ca­pí­tulos mais emo­ci­o­nantes e ou­tros mais xoxos. No fundo, ele não se sente per­ten­cente aquele mundo. Os po­lí­ticos estão em outro nível de exis­tência.

Clas­si­fi­cado como ali­e­nado, anal­fa­beto po­lí­tico, este eleitor se en­caixa per­fei­ta­mente nas fa­tias do con­ser­va­do­rismo, são a de­lícia dos po­lí­ticos pro­fis­si­o­nais, tão de­pen­dentes do voto des­qua­li­fi­cado.

O ob­je­tivo prin­cipal de um par­tido po­lí­tico é chegar ao poder, o que acaba sig­ni­fi­cando a con­quista do go­verno e de es­paços dentro da má­quina pú­blica. É exa­ta­mente aí que a mula em­paca.

Mas es­pere aí… Há uma di­fe­rença entre ser apo­lí­tico e anti-po­lí­tico (contra os po­lí­ticos e a po­lí­tica par­ti­dária). Não par­ti­cipar da po­lí­tica ins­ti­tu­ci­onal não sig­ni­fica não fazer po­lí­tica: a ne­gação é também uma ação po­lí­tica.

É fato que o ser hu­mano age por in­te­resse. Somos cãe­zi­nhos a es­pera de uma re­com­pensa. É exa­ta­mente a ex­pec­ta­tiva deste afago que gira as en­gre­na­gens da po­lí­tica par­ti­dária. Até mesmo aqueles mi­li­tantes ide­a­listas es­peram al­cançar algo, seja apenas o sim­ples re­co­nhe­ci­mento de que são ti­mo­neiros de uma nova ordem ou vantagens pecuniárias ainda que ralas.

De origem la­tina, a pa­lavra in­te­resse sig­ni­fica “estar entre”, “no meio”, “par­ti­cipar”. Nada mais ine­rente a um par­tido po­lí­tico, or­ga­ni­za­ções cuja es­sência é exa­ta­mente a cons­trução de me­ca­nismos que vi­a­bi­lizem a con­quista de in­te­resses, e de um lugar entre os que têm acesso a de­ter­mi­nados bens sim­bó­licos e ma­te­riais ina­ces­sí­veis à mai­oria dos re­pre­sen­tados e go­ver­nados.

O ob­je­tivo prin­cipal de um par­tido po­lí­tico é chegar ao poder, o que acaba sig­ni­fi­cando a con­quista do go­verno e de es­paços dentro da má­quina pú­blica. É exa­ta­mente aí que a mula em­paca. Neste mo­mento ocorre uma in­versão na qual são as ins­ti­tui­ções do Es­tado que acabam por con­quistar os par­tidos. Pro­jetos e pro­postas caem por terra e o ob­je­tivo primal se reduz sim­ples­mente à ga­rantia dos cargos con­quis­tados e, em con­sequência, na cons­trução de uma es­tru­tura que trans­fira estes es­paços a mem­bros do mesmo grupo nos go­vernos se­guintes.

É exa­ta­mente por isso que todos os par­tidos soam iguais. Os dis­cursos pré-elei­to­rais e as ações pós-elei­ções não são di­fe­rentes para PT, PMDB, PSDB, PP ou seja lá que sigla for. A única forma de que­brar este pa­ra­digma obs­ceno é en­tender que po­lí­tica não se li­mita a par­tido. Ela se faz di­a­ri­a­mente, em cada de­cisão que to­mamos.


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