21/02/2024 - Edição 525

Palavra do Editor

O poder primeiro, as convicções depois

Publicado em 24/09/2015 12:00 -

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A provável entrega do Ministério da Saúde ao PMDB marcou nesta semana o início da barganha política com intenção de evitar a queda da presidente Dilma Roussef. Marca, também, o derradeiro momento de um governo que perdeu todas as suas características de esquerda.

Ao entregar uma pasta tão sensível às políticas progressistas ao fisiologismo peemedebista, Dilma mostra claramente que fará tudo para permanecer no cargo, o que, por si só, a desmerece enquanto estadista oriunda (ao menos na teoria) de um viés político ao qual projetos como o Sistema Único de Saúde (SUS) deveriam ter um significado que ultrapassassem o mero jogo político partidário.

Dilma pode ter evitado um desastre econômico e político ao garantir a manutenção dos vetos a medidas votadas pelo Congresso, que representariam despesas calculadas em R$ 127,8 bilhões até 2019 – uma delas, a que determinava a isenção de impostos sobre o óleo diesel, esvaziaria dos cofres públicos um montante superior a R$ 64 bilhões em quatro anos. No entanto, ao ceder à chantagem da turma de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Renan Calheiros (PMDB-AL), mostra que é, de fato, igual a eles: é o lulismo, no que ele tem de pior.

O currículo dos três indicados pelo PMDB para ocupar a pasta tem como principal característica o fato de terem tido suas campanhas patrocinadas por laboratórios e planos de saúde.

O balcão de negócios do Planalto está aberto e as propostas são da pior qualidade. O currículo dos três indicados pelo PMDB para ocupar a pasta tem como principal característica o fato de terem tido suas campanhas patrocinadas por laboratórios e planos de saúde.

Manoel Júnior (PB), Saraiva Felipe (MG) e Marcelo Castro (PI) são deputados federais e médicos de formação. Manoel Júnior recebeu R$ 355.667 reais dessas empresas para sua campanha – 32% do total que arrecadou. Já Saraiva Felipe amealhou R$ 700 mil reais, 17% do arrecadado. Marcelo Castro teve as doações mais modestas: recebeu R$ 25mil, ou 4% do que declarou ao Tribunal Superior Eleitoral.

Favorito, Manoel Junior limita sua experiência na gestão da saúde como administrador do hospital de Pedras de Fogo, um município de 28 mil habitantes. Em 2014, foi relator da MP das Farmácias, salpicada de artigos para dificultar a vida de pequenos frigoríficos. Deputados do PSOL o acusaram de favorecer a JBS, grande doadora de campanhas. Neste ano, ele relatou a MP 668, que ganhou "jabutis" para facilitar a construção do "parlashopping" e anular multas a igrejas evangélicas que sonegaram imposto.

Ou seja, gente muito boa…

É preocupante a substituição de Arthur Chioro e sua equipe com o único intuito de reacomodar forças políticas da coalisão que compõe a base do Governo Federal.

Parafraseando a nota oficial da Rede Unida sobre este desastre, fica um alerta: a utilização da pasta da Saúde como moeda de troca na composição de coalisões de partidos, com foco deslocado do debate sobre política de saúde, ameaça a consolidação do direito à saúde e o fortalecimento do SUS; fragiliza sobremaneira todo o apoio às iniciativas governamentais conquistadas nas bases docentes e discentes da área da Saúde; e empobrece o papel que o poder público vinha aprendendo a desenvolver na gestão do trabalho e da educação na saúde.


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