25/07/2024 - Edição 550

Palavra do Editor

O linchamento da democracia

Publicado em 16/05/2014 12:00 -

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A disputa judicial entre o ex-prefeito Alcides Bernal – cassado em sessão de julgamento realizada pela Câmara Municipal de Campo Grande (MS) no dia 12 de março – e o prefeito Gilmar Olarte, ambos do PP, não tem nada de anormal.

Bernal sustenta ter sido vítima de um golpe político perpetrado pela oposição e orquestrado pelo grupo político liderado pelo PMDB. Seus opositores, por outro lado, garantem que ele cometeu atos de improbidade que justificaram sua cassação. Dos 29 vereadores, 23 votaram a favor de sua saída do cargo devido a irregularidades em contratos.

A ação da Câmara Municipal seguiu os ritos do Legislativo, assim como a luta de Bernal para retornar ao cargo tem seguido os ritos do Judiciário. Trata-se de uma disputa política, legitimada no âmbito do estado democrático de direito.

O que é anormal, o que vilipendia as regras básicas de uma disputa política em uma democracia é o espírito de turba e de linchamento que tomou conta de alguns seguidores do prefeito cassado na noite de quinta-feira (16), quando, de posse de uma liminar concedia pelo juiz David de Oliveira Gomes Filho, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, invadiram a Prefeitura de Campo Grande intimidando servidores públicos, revistando bolsas, adentrando gabinetes ainda ocupados pelo secretariado de Olarte, fazendo ameaças em uma ação que demonstra descontrole emocional e credo na impunidade.

A ação da Câmara Municipal seguiu os ritos do Legislativo, assim como a luta de Bernal para retornar ao cargo tem seguido os ritos do Judiciário. Trata-se de uma disputa política, legitimada no âmbito do estado democrático de direito.

Nas redes sociais apoiadores de Bernal garantem que não houve violência nem intimidação. Não é o que mostram diversos vídeos feitos durante a invasão e divulgados pela internet. Não é o que apontam os depoimentos de servidores públicos que presenciaram a cena.

“Nunca vi coisa igual: gritaria, murros, xingamentos. Primeiro, entraram de sala em sala mandando os comissionados irem embora. Antes das 17h30, mandaram os demais. Estou chocada”, afirmou a este jornalista uma funcionária pública concursada com anos de Casa.

Uma funcionária comissionada disse que por volta das 16h30 todos já sabiam da decisão judicial e boa parte já tinha separado seus itens pessoais. “Quando chegou a multidão ninguém descia, pois era bomba, gritos. As pessoas que defendiam o Bernal entraram nas salas ordenando todo mundo a sair, gritando e insultando os servidores”.

Nas redes sociais, uma súcia de fakes – que desde a queda de Bernal havia sossegado – voltou a agir insultando opositores, trolando postagens e ofendendo qualquer um que não comungasse de seu credo político. A mesma selvageria protagonizada na invasão da Prefeitura foi reproduzida na internet.

À meia noite de hoje (16), o desembargador Vlademir Abreu da Silva cassou a liminar concedida pelo juiz David de Oliveira Gomes Filho. Com isto, Gilmar Olarte voltou a comandar a administração do município. A confusão está longe de acabar. O STJ julga o caso no próximo dia 21, mas até lá a guerrinha de liminares continuará.

O fato é: se Alcides Bernal e seus apoiadores consideram que tem o direito legal de retornar à Prefeitura de Campo Grande, o caminho para isso é o Judiciário não o linchamento ético e moral de servidores públicos.


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