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Palavra do Editor

Intolerância à esquerda e à direita

Publicado em 26/10/2015 12:00 -

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Todo o radicalismo é essencialmente anti-democrático. Quando não permitimos que o outro pense diferente de nós, quando não admitimos a manifestação de seus pontos de vista, abrimos espaço para o totalitarismo.

Este foi a minha primeira reação diante da barbárie cometida por uma turba de militantes (Anti-petistas? Anti-governistas? Anti-esquerdistas?) contra o senador Eduardo Suplicy e o prefeito de São Paulo, Eduardo Haddad, sábado (24), na Livraria Cultura, em São Paulo.

Não estou dizendo que estas pessoas não tenham o direito de se manifestar. É direito de qualquer cidadão manifestar o seu descontentamento diante da política, protestar, expor seu ponto de vista. Mas há um tipo de manifestação que extrapola estes direitos básicos da cidadania: trata-se daquela manifestação que impede a livre expressão, que coage o outro – inclusive com medidas invasivas, como contato físico, como ocorreu com o deputado federal Zeca do PT (MS), na quinta-feira passada (22), no Aeroporto Internacional de Campo Grande (MS).

“Comunista, comunista!”, gritavam os manifestantes para Suplicy e Hadad. Não dá para entender. Parafraseando o jornalista Raphael Tsavkko Garcia, não há nada mais ridículo do que atribuir qualquer cacoete comunista ao PT. “Para um partido que já abandonou senão todas, mas a ampla maioria das suas bandeiras originais de esquerda, implantar o comunismo só com um milagre. O PT abandonou a Reforma Agrária, abandonou movimentos sociais (hoje os coopta, imobiliza e quando resolvem reclamar apoiam a repressão da polícia e mandam exército para silenciar favelas), abandonou a inclusão social substituindo pelo consumo desenfreado (hoje nem mais isso). Se há algo de esquerda no PT é apenas a cor de sua bandeira, porque na prática Dilma está à direita de qualquer governo pós-Ditadura e em alguns aspectos recuou em direitos sociais que sequer a Ditadura foi capaz”, afirma Garcia, e eu subscrevo.

O fato é que cenas deste tipo se espalham pelo país e não são direcionadas apenas contra petistas, governistas e esquerdistas: elas ocorrem também no sentido inverso do arco ideológico e político. Há pouco mais de dois anos, na mesma Livraria Cultura, a dissidente cubana Yoani Sánchez foi impedida de falar num debate por um grupo de esquerda usando o mesmíssimo expediente autoritário: gritar mais alto que o adversário.

Há um tipo de manifestação que extrapola estes direitos básicos da cidadania: trata-se daquela manifestação que impede a livre expressão, que coage o outro.

Em 2013, durante a Festa Literária Internacional da Bahia (FLICA), o filósofo Demétrio Magnoli também foi impedido de falar por manifestantes de esquerda, bem agressivos por sinal. No mesmo ano, o deputado-pastor Marco Feliciano (PSC-SP) foi constrangido durante um voo entre o Distrito Federal e São Paulo.

Estes são apenas alguns exemplos que apontam a escalada da intolerância no cenário nacional. Um retrato das últimas leituras do Latinobarômetro, que no recorte temporal de 2003-2013 mostrou que 19% dos brasileiros são contra a democracia e defendem regimes/intervenções autoritárias.

Voltando a agressão contra Suplicy, há quem sugira que ela não poderia ser explicada somente pelo anti-petismo, mas pelo fato de que o senador, uma das figuras mais eticamente inatacáveis na política brasileira, tem se calado sistematicamente ante as ações de um governo cujas ações representam o oposto de tudo aquilo que ele sempre pregou.

Nada justifica esta violência. Nem mesmo o fato dela ter como uma de suas gêneses a lógica do “nós contra eles” implementada pelo PT nos últimos 30 anos. Leia-se entre “eles” não apenas a direita, mas todos aqueles que trouxeram críticas ao modo petista de fazer política e governar.

Os frutos desta lógica perversa estão se mostrando mais amargos do que imaginávamos.


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