18/05/2024 - Edição 540

Palavra do Editor

Indo para o brejo

Publicado em 27/06/2014 12:00 -

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Meu ca­chorro é uma lin­deza. Cal­minho que só. No en­tanto ele tem um pro­blema grave, não pode ver nin­guém pas­sando rente à grade que isola meu pe­queno reino da selva das ruas que en­lou­quece. Se al­guém passar com o ombro pró­ximo a grade ar­risca tomar uma den­tada. Nino (meu cão) pula, rosna, ar­re­mete contra a grade e, pior, tenta mor­discar os tran­seuntes en­fi­ando o fo­cinho no vão das barras de ferro que me pro­tegem.

Ci­vi­li­zado que sou ime­di­a­ta­mente pro­curei no Go­ogle uma em­presa que pu­desse pro­vi­den­ciar a ins­ta­lação de uma tela na grade, pro­te­gendo os in­cautos da fúria do feroz Nino. Ra­pi­da­mente o orá­culo vir­tual me apre­sentou al­gumas op­ções. Optei pela que me pa­receu mais “pro­fis­si­onal”.

Pensei: “Vou acertar de cara”. Ledo en­gano. Do outro lado da linha, um aten­dente so­no­lento me fez re­petir três ou quatro vezes minha ne­ces­si­dade. “Nós ven­demos a tela sim, mas não ins­ta­lamos”, disse. “Ok, mas vocês in­dicam um pro­fis­si­onal que ins­tale?”, per­guntei. “Não, não temos nin­guém para in­dicar. O se­nhor pode amarrar a tela na grade…”.

A em­presa é “es­pe­ci­a­li­zada” na venda de telas e não pode in­dicar nin­guém que as ins­tale? Será que ouvi di­reito? Eu posso amarrar a tela na grade?

Cada qual em sua de­vida pro­porção, os se­tores de nossa eco­nomia ainda não avançam em ritmo ori­ental por sim­ples in­com­pe­tência.

Re­solvi ligar para outra em­presa. Si­te­zinho ba­cana, cheio de efeitos di­gi­tais. Re­pito a mesma la­dainha e ouço a aten­dente dizer que não, eles não podem mandar nin­guém à minha re­si­dência para fazer um or­ça­mento. Devo ir até a loja e es­co­lher o tipo de tela que de­sejo. Ora bolas, mas quero que a em­presa me dê al­gumas su­ges­tões vendo o tipo de grade de minha casa, me­dindo o es­paço, su­ge­rindo so­lu­ções. “Não temos nin­guém para aten­di­mento ex­terno, se­nhor…”. Tá, obri­gado.

Já ca­bis­baixo, me sen­tindo um chato de ga­lo­chas, fiz uma ter­ceira ten­ta­tiva. A em­presa ficou de mandar uma pessoa. Mar­camos para o dia se­guinte, no pe­ríodo da manhã. Que horas? “Pe­ríodo da manhã, se­nhor…”.

Certo. Or­ga­nizei meu dia para tra­ba­lhar em casa e aguardei. O pe­ríodo da manhã passou e nada. Li­guei. “Houve um pro­blema, nosso fun­ci­o­nário não pode ir”. Não po­de­riam ter li­gado para avisar? Si­lêncio do outro lado da linha.  Certo… Po­demos marcar outro dia, su­geri.

Dois dias de­pois, “no pe­ríodo” da tarde, re­cebo a vi­sita de um pro­fis­si­onal que tira as me­didas e diz que vai me ligar para passar o or­ça­mento su­ge­rindo dois ou três tipos de tela. Já se pas­saram sete dias, me es­que­ceram.

Somos uma grande nação. Em meio ao caos econô­mico que as­sola todo o mundo, o Brasil na­vega em re­la­tiva cal­maria. Nossa eco­nomia cresce a passo de cá­gado, mas cresce. Es­tamos evo­luindo aos pou­qui­nhos. Apesar disso, somos um bando de ama­dores. Cada qual em sua de­vida pro­porção, os se­tores de nossa eco­nomia ainda não avançam em ritmo ori­ental por sim­ples in­com­pe­tência.


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