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Palavra do Editor

Campo de sangue

Publicado em 02/09/2015 12:00 -

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A morte do índio terena Oziel Gabriel, 35, durante conflito entre indígenas e policiais durante a desocupação da Fazenda Buriti, em Sidrolândia (MS), na última quinta-feira, 30, é uma tragédia anunciada…

Com o trecho acima eu abria a reportagem de capa da edição número 77 da revista Semana On, em 1º de junho de 2013. Impossível não traçar um paralelo com a morte do índio Semião Fernandes Vilhalva, 24 anos, ocorrida no último sábado (29), em mais um conflito de terras em Mato Grosso do Sul. Desta vez, o cenário foi a Fazenda Piquiri, no município de Antonio João – 279 km da capital, Campo Grande.

Doze lideranças indígenas foram assassinadas no Estado nos últimos 31 anos. No próximo dia 25 de novembro completam-se 32 anos do assassinato de Marçal de Souza, líder da etnia Guarani Ñhandeva, conhecido também como Marçal Tupã-i, um dos símbolos da luta indígena no Mato Grosso do Sul.

Em janeiro 2003 foi morto aos 72 anos o kaiowá Marcos Veron, que dedicou sua vida a recuperar a terra ancestral de seu povo na área chamada de Taquara, no município de Juti. Em 2009, o “desaparecimento” dos irmãos kaiowá Genivaldo Vera e Rolindo Vera, após confronto com seguranças de uma fazenda em Paranhos, deu sequencia ao ciclo de violência contra as populações indígenas no Estado. O corpo de Genivaldo foi encontrado no dia 7 de novembro. O irmão, ainda desaparecido, é considerado morto. 

A morte de Semião Fernandes Vilhalva marca mais um capítulo da falta de políticas de governo sérias para o campo no país.

Em novembro de 2011, em Aral Moreira, foi assassinado o kaiowá Nísio Gomes. Ele tinha 59 anos de idade e morreu na terra Guaiviry. Mesmo sem encontrar o corpo, a polícia concluiu o inquérito e o Ministério Público Federal (MPF) denunciou 23 pessoas, entre elas fazendeiros, o dono e nove funcionários de uma empresa de segurança e um advogado. Dois anos depois, em maio de 2013, foi a vez do índio terena Oziel Gabriel, de 36 anos. Ele foi morto durante reintegração de posse da fazenda Buriti, em Sidrolândia. O crime permanece impune.  

O Conselho do Povo Terena classifica a violência no campo em Mato Grosso do Sul como “agrobanditismo” e aponta, ainda, a morte de Dorival Benites, 36 anos, (2005); Dorvalino Rocha, 39 anos (2005); Xurite Lopes, 73 anos (2007); Ortiz Lopes, 46 anos (2007); Oswaldo Lopes (2009) e Teodoro Ricarde (2011).

Boa parte das propriedades rurais em Mato Grosso do Sul foi distribuída aos fazendeiros pelo próprio Governo Brasileiro como parte de programas de colonização ou de reforma agráriao. Mas ninguém levou em conta que as áreas já eram ocupadas por outros povos desde antes da chegada dos espanhóis e portugueses.

Durante séculos, os moradores originais das terras que atualmente compõem o território sul-mato-grossense sobreviveram à margem da colonização realizada pelos brancos, e mantiveram patrimônio cultural como os idiomas, tradições e modo de vida, que permitem, ainda hoje, identificar povos indígenas distintos.

Com a Constituição de 1988, o Governo Brasileiro reconheceu que direitos dos índios foram desrespeitados desde que a nau de Pedro Álvares Cabral ancorou no litoral baiano, mas os políticos não deixaram claro como seria feita a compensação e começou uma disputa fundiária na qual todos se consideram vítimas do poder público.

A morte de Semião Fernandes Vilhalva marca mais um capítulo desta história.


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