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Mato Grosso do Sul
Adolescentes e indígenas Guarani Kaiowá são resgatados em condições degradantes
Publicado em 30/10/2025 9:05 - Semana On
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Mesmo em pleno século XXI, o Brasil ainda carrega chagas coloniais que se expressam com brutalidade no campo. Em 2025, o número de adolescentes resgatados em condições análogas à escravidão no Mato Grosso do Sul triplicou em relação ao ano anterior, revelando não só a persistência dessa prática, como também sua sofisticação e expansão silenciosa. Paralelamente, o maior resgate de trabalhadores escravizados dos últimos anos no Paraná — 46 deles indígenas Guarani Kaiowá — escancara uma realidade que mistura promessas falsas, servidão por dívida e abandono institucional. As estatísticas chocam, mas o que mais inquieta é sua recorrência.
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Entre janeiro e outubro deste ano, 104 trabalhadores foram resgatados em 13 municípios sul-mato-grossenses, entre eles Bonito, Corumbá e Maracaju. Embora o número represente uma queda de 20% em relação a 2024, a cifra esconde um dado alarmante: o triplo de adolescentes foi encontrado nessas condições degradantes. Ao todo, 15 menores de 18 anos estavam envolvidos em atividades que incluem pecuária, colheita de mandioca, produção de carvão vegetal e construção de cercas, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
A presença de crianças e adolescentes no trabalho escravo não é um fenômeno isolado, mas um sintoma de desigualdades profundas, associadas à negligência estatal, à vulnerabilidade social e ao poderio econômico de setores do agronegócio. Como apontou a OIT (Organização Internacional do Trabalho) em relatório recente, a persistência do trabalho escravo infantil está ligada a sistemas de produção que se apoiam em estruturas de exploração histórica. “Esses jovens não são apenas mão de obra barata — são vidas interrompidas por uma lógica que naturaliza a desigualdade”, afirma o sociólogo Ricardo Antunes (UNICAMP), especialista em mundo do trabalho.
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Da terra indígena à cana: a servidão travestida de emprego
Em outro ponto do mapa, o norte do Paraná tornou-se palco de um dos casos mais graves dos últimos anos. Em Itambé, 57 trabalhadores foram resgatados, sendo 46 indígenas da etnia Guarani Kaiowá, oriundos do Mato Grosso do Sul. A promessa era de um emprego digno em uma usina. O que encontraram foi fome, endividamento forçado, alojamentos precários e abandono. A descrição feita pelo auditor fiscal do trabalho, Edvaldo dos Santos Rocha, é contundente: “O mais grave que eu identifiquei foi a fome. […] É inexplicável o ato de você não ter o que comer.”
Segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho, os indígenas eram obrigados a comprar alimentos em um mercadinho ligado à empresa e anotar os valores em um caderno. Nunca receberam salário. O montante das dívidas estimadas ultrapassa os R$ 45 mil. O nome disso é servidão por dívida, uma das quatro condições que caracterizam o trabalho escravo contemporâneo, de acordo com o Código Penal brasileiro (Art. 149).
A usina Renuka Vale do Ivaí S/A, contratante do serviço, e a empresa terceirizada Manutec Manutenção e Conservação LTDA estão sendo investigadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), que prepara uma ação civil pública por danos morais coletivos.
Escravidão moderna, raízes antigas
O trabalho escravo contemporâneo não se parece mais com os pelourinhos do século XIX — ele veste jaleco, circula em picapes e fala em produtividade. No entanto, sua lógica continua a mesma: concentração de terra, exploração de corpos vulneráveis e invisibilização da violência. O uso de drones nas fiscalizações, como ocorreu em algumas propriedades sul-mato-grossenses, revela o esforço técnico do Estado para coibir o crime, mas também o grau de sofisticação dos mecanismos de ocultação adotados por empregadores.
71 dos trabalhadores resgatados em MS este ano eram paraguaios, confirmando uma dimensão transnacional da exploração. O fluxo de migrantes em situação irregular ou de indígenas retirados de seus territórios com falsas promessas indica a ação de redes complexas de aliciamento, muitas vezes amparadas por estruturas legais frágeis e omissas.
O que dizem os números?
Os dados mais recentes da fiscalização no Mato Grosso do Sul mostram oscilações significativas:
2023: 92 resgatados
2024: 130 resgatados
2025 (até outubro): 104 resgatados
Apesar da queda em relação ao ano anterior, o número de 2025 ainda é 13% superior ao de 2023. A Superintendência Regional do Trabalho adverte que os números devem aumentar até o fim do ano, e que “não há motivo para comemoração”.
Já no Paraná, o caso envolvendo indígenas marca um retrocesso humanitário, ao evocar práticas que o país assumiu oficialmente combater desde a abolição formal da escravidão, em 1888. Como alerta o historiador Sidney Chalhoub (Harvard University), “a abolição foi um ato jurídico que não rompeu com a estrutura social do escravismo”, o que se comprova hoje na persistência dessas violações.
Estado ausente, lucro presente
O resgate dos Guarani Kaiowá evidencia a fragilidade de políticas públicas voltadas para populações indígenas, especialmente quando confrontadas com os interesses econômicos do agronegócio e da indústria canavieira. As comunidades indígenas do MS já enfrentam disputas por terra, desnutrição e violência. Empurradas para margens sociais e geográficas, tornam-se alvos fáceis de exploração.
“A fome é um dispositivo de controle”, diz a filósofa Judith Butler em seu ensaio “Quadros de Guerra”. Quando a sobrevivência depende de quem explora, a autonomia deixa de existir. No caso dos trabalhadores indígenas, a fome foi usada como ferramenta de dominação e sujeição.
Um país de ciclos
A persistência do trabalho escravo contemporâneo revela uma falência estrutural do modelo de desenvolvimento brasileiro, que historicamente se sustentou sobre a desigualdade. Como disse o jurista Silvio Almeida, atual ministro dos Direitos Humanos, em seu livro Racismo estrutural: “O Brasil não é um país com racismo; é um país fundado sobre ele.” A mesma afirmação vale para a escravidão.
Se não houver vontade política e pressão social, esses casos seguirão se repetindo, como manchas reincidentes numa história que insiste em não se curar. A mera punição judicial, embora necessária, não é suficiente. É preciso revisar as formas de contratação, fortalecer os mecanismos de fiscalização e garantir políticas públicas que deem alternativas reais aos trabalhadores mais vulneráveis — especialmente crianças, adolescentes, indígenas e migrantes.
Como denunciar
O Sistema Ipê, disponível pela internet, é um canal específico disponibilizado pela Organização Internacional do Trabalho para denúncias de trabalho análogo à escravidão.
O denunciante não precisa se identificar, basta acessar o sistema e inserir o maior número possível de informações.
A ideia é que a fiscalização possa, a partir dessas informações do denunciante, analisar se o caso de fato configura trabalho análogo à escravidão e realizar as verificações no local.
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