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Mato Grosso do Sul

Riedel descarta uso político da segurança e defende ação conjunta dos estados contra crime organizado

Durante lançamento do Consórcio da Paz, governador de MS destacou papel estratégico do estado como rota do tráfico no país

Publicado em 31/10/2025 9:21 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em discurso firme no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), defendeu ontem (30) a criação de um consórcio interestadual voltado à segurança pública, mas fez um alerta claro: o combate ao crime organizado não pode ser usado como palanque político. O apelo foi feito durante o anúncio do chamado ‘Consórcio da Paz’, que reúne governadores de diferentes regiões do país em torno de ações integradas contra o avanço da violência.

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“Não ter uma discussão politizada, de enfrentamento a PEC ou de ausência de A ou de B. Tem uma necessidade, cada vez maior, de os estados trabalharem em conjunto para lidar com um tema que é transnacional”, afirmou Riedel, fazendo referência à Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública, que tem gerado embates entre governos estaduais e o Congresso Nacional.

A fala do governador sul-mato-grossense veio logo após a apresentação da iniciativa pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), anfitrião da reunião e autor da proposta. A criação do consórcio ocorre na esteira de uma megaoperação policial no Rio, que terminou com mais de 120 mortos, acirrando o debate sobre os limites da atuação policial e a crise na segurança pública brasileira.

Riedel sublinhou o papel estratégico de Mato Grosso do Sul no enfrentamento ao tráfico de drogas. “É muito importante saber que tem membros efetivos do Comando Vermelho lá no meu estado, seja na prisão, seja na atuação. Que tem membros do PCC lá no nosso estado, em atuação. As quinhentas toneladas de droga que a gente apreende por ano, em Mato Grosso do Sul, elas não ficam lá. Elas estão tendo destino: outros estados com maior densidade demográfica”, explicou.

Segurança pública como pacto federativo

O Consórcio da Paz, ainda em fase de formulação, tem como proposta principal o compartilhamento de inteligência, recursos e estratégias entre estados. A ideia é criar uma instância de articulação independente da União, mas em diálogo com o governo federal.

Além de Riedel, Castro e Mello, participaram do encontro os governadores Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO). Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) participou por videoconferência, enquanto Ibaneis Rocha (MDB-DF) foi representado pela vice, Celina Leão (PP).

Crise da segurança e embate institucional

A criação do consórcio ocorre num contexto de escalada da violência e fragilidade da articulação entre entes federativos. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022 o Brasil registrou 47.508 mortes violentas intencionais, o que representa uma média de 130 por dia. O estudo também aponta que o crime organizado está presente em todos os estados brasileiros, atuando em redes que conectam o tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.

A proposta dos governadores surge como alternativa à PEC da Segurança, que tramita no Congresso com foco na nacionalização das forças de segurança pública. Caiado apontou que, embora não se oponha à proposta federal, o momento exige medidas mais ágeis e práticas: “A iniciativa dos estados visa à integração, especialmente em momento emergencial”, disse o governador de Goiás. No entanto, o governador goiano foi voz ativa nos ataques ao plano do Governo Federal desde seu anúncio.

A antropóloga e pesquisadora Jacqueline Muniz, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que “o enfrentamento da violência precisa ser orientado por inteligência, governança e compromisso com a legalidade democrática”.

A politização como obstáculo

O alerta de Riedel sobre os riscos da politização do debate ecoa críticas recorrentes de especialistas e organizações da sociedade civil. Em anos recentes, a segurança pública tem sido capturada por disputas ideológicas que pouco contribuem para a resolução efetiva dos problemas. A defesa de uma agenda técnica e cooperativa, como propõe o governador, pode representar um ponto de inflexão.

Em um país onde a segurança pública é frequentemente usada como trunfo eleitoral — com promessas de “mão dura” e “tolerância zero” —, a busca por um pacto entre estados pode representar não apenas uma resposta emergencial, mas também uma tentativa de reformular o modelo de enfrentamento à criminalidade, priorizando inteligência e articulação, em vez de ações isoladas e espetaculares.

A depender de como se consolidar, o Consórcio da Paz pode colocar à prova a capacidade dos estados de superar divergências políticas em nome de uma agenda comum. Mas, como advertiu Riedel, esse esforço só terá êxito se for blindado contra os usos eleitoreiros da violência — um vício antigo e persistente no cenário político brasileiro.

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