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Mato Grosso do Sul

PF prende suspeito de participar de ataque que matou indígena em Iguatemi

Em marcha na COP30, indígenas cobram punição por morte de Guarani Kaiowá em MS

Publicado em 18/11/2025 12:27 - Semana On e G1MS

Divulgação Os Guarani Kaiowá se revezam entre descanso e vigília durante toda a madrugada na retomada de Pyelito Kue. Foto: Gabriela Moncau

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A Polícia Federal (PF) prendeu em flagrante um indígena suspeito de participar como pistoleiro do ataque armado à Terra Indígena (TI) Iguatemipeguá I, em Iguatemi (MS). O Guarani Kaiowá Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, morreu durante o conflito desse domingo (16).

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Outros quatro indígenas, entre eles adolescentes e uma mulher, ficaram feridos por arma de fogo ou balas de borracha. A comunidade relatou que os pistoleiros tentaram levar o corpo de Vicente, o que foi impedido pelos indígenas.

Segundo a PF, o indígena preso foi reconhecido por uma vítima que foi ferida durante o ataque. Junto do suspeito, foram apreendidas duas espingardas calibre 12, utilizadas por uma empresa de segurança de uma das fazendas na área de retomada. Ele foi encaminhado à Delegacia de Polícia Federal (DPF) de Naviraí.

A região onde Vicente foi morto enfrenta conflitos há mais de uma década. A tensão entre indígenas e proprietários rurais começou em 2013, quando a área foi delimitada como Terra Indígena pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

A área em conflito integra a Terra Indígena (TI) Iguatemipeguá I. Só em 2014, a partir de uma decisão judicial, os indígenas conseguiram o direito de viver em apenas 90 hectares do total delimitado. Cerca de 60 famílias vivem na região, que tem mais de 40 mil hectares e sobreposição de pelo menos cinco fazendas.

O que os líderes Guarani Kaiowá dizem

O indígena Jânio Kaiowá, da Assembleia Geral do povo Kaiowá e Guarani, informou em redes sociais que se reuniu com o relator da Organização das Nações Unidas (ONU), Albert K. Barume, durante a COP30 em Belém (PA).

Durante a reunião, lideranças relataram a escalada da violência no território e a ausência de medidas de proteção. A comunidade também destacou que a falta de demarcação aumenta sua vulnerabilidade. “Ainda não sei quantas lideranças vão morrer por lutar por seus territórios”, afirmou Jânio.

A Comissão de Assuntos Indígenas (CAI) e o Comitê de Laudos Antropológicos da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) manifestaram preocupação com os ataques às comunidades Kaiowá de Pyelito Kue e Mbarakay e pediram investigação dos casos e providências das forças de segurança pública e órgãos de direitos humanos.

Uma liderança da comunidade Pyelito Kue, que preferiu não se identificar, disse ao G1 que cerca de 60 famílias foram surpreendidas por tiros disparados por homens armados, apontados como pistoleiros.

“No local há crianças com deficiência, mulheres desmaiaram de susto. O que aconteceu foi cena de guerra, parecia filme de terror. Queimaram nossos barracos, alimentos. Deixaram pessoas feridas gravemente”, relatou.

Segundo a liderança, a área é reivindicada pelos Guarani e Kaiowá e já passou por estudos de identificação: “Fomos delimitados. A área já foi identificada e aprovada pelos estudos. Falta baixar a portaria.”

Ele acrescentou que a luta pelo território dura mais de 16 anos: “Queremos poder cultivar, plantar, cuidar dos animais, trabalhar. Desde 2013 estamos isolados aqui. Mesmo no nosso território, não vivemos felizes. Temos nossa casa, mas não temos a chave. Não querem entregar a chave”.

A Força Nacional acompanha a região desde 3 de novembro, mas não permanece no local o tempo todo.

“Estamos aqui para tudo. Sabemos da sobrevivência dos povos. Estamos acostumados a viver assim. Nunca fomos ouvidos”, completou.

Como ocorreu o ataque

Segundo a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), cerca de 20 homens armados vindos de fazenda próxima cercaram a área e abriram fogo. Barracos foram destruídos e ao menos quatro pessoas ficaram feridas. Vicente Fernandes Vilhalva foi atingido na cabeça e morreu no local; o corpo passou pelo Instituto Médico Legal (IML) antes de ser liberado para a comunidade.

A Funai informou que este foi o quarto ataque desde 3 de novembro, em meio a conflitos fundiários envolvendo retomadas Guarani e Kaiowá. O órgão contabiliza oito indígenas feridos nesses episódios recentes.

A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, afirmou que acompanha o caso e destacou a importância da demarcação para reduzir a violência.

Um indígena foi preso em flagrante pela Polícia Federal; a motivação da prisão não foi detalhada.

Ações das autoridades

Equipes da Força Nacional, Polícia Federal e Funai foram acionadas após os disparos. O Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que a Força Nacional mantém patrulhamento contínuo na região para prevenir novos confrontos.

Ao chegar ao local, a Força Nacional encontrou três vítimas — duas feridas e uma morta — e reforçou o patrulhamento.

A Polícia Federal investiga a morte de um trabalhador rural na mesma região, ocorrida no domingo, mas afirmou que ainda não é possível relacionar os casos.

Indígenas cobram punição por morte de Guarani Kaiowá em MS

Parem de nos matar. A frase estava em cartazes e foi repetida com frequência por lideranças na Marcha Global dos Povos Indígenas ontem (17), em Belém. No ato, houve solidariedade, em especial, ao assassinato de Vicente Fernandes Vilhalva Kaiowá.

Vilma Vera Caletana Rios, do povo Avá Guarani, aldeia Guasu Gauavira, no Paraná, mostrou indignação pelo assassinato do Guarani Kaiowá e cobrou punição para os responsáveis.

“Mais um indígena, mais uma liderança, mais um homem assassinado no seu território. Quando a gente fala de justiça climática, não podemos esquecer de fazer justiça pelas pessoas que já foram assassinadas nos seus territórios. Não podemos nos calar diante de uma violência tão grande”, disse Vilma.

Paulo Macuxi, coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR), endossou o discurso da companheira de luta e a crítica pela falta de ação da justiça.

“Nossos parentes estão sendo assassinados e isso não vai ficar barato. Isso não pode ficar como se fosse algo comum. Alguém tem que ser responsabilizado, alguém tem que ser punido porque são vidas sendo perdida, dia após dia, e ninguém faz nada. Os órgãos são incompetentes, ninguém faz nada para sanar essas nossas dores”, disse Macuxi.

Nadia Tupinambá, do território indígena de Olivença, no sul da Bahia, exigiu que as autoridades tenham mais respeito pelo “sangue derramado de todos os ancestrais”.

“Estamos aqui para dizer: ‘parem de nos matar’. Parem de matar nossas florestas. Parem de vender nossos rios. Enfrentamos muitas lutas, mas não vamos desistir”, disse Nádia.

“Na COP30, eles estão falando de clima, mas não estão falando de demarcação do nosso território, onde nosso povo está perdendo vida, onde tem criança, mulher e indefeso sendo atacado, até pela polícia, pelo Estado, sem ordem judicial. Mas nós não vamos desistir. Somos todos Guarani Kaiowá”, complementou.

Nota na íntegra da Associação Brasileira de Antropologia (ABA)

“Na madrugada do dia 04 para 05 de novembro de 2025, as comunidades indígenas Kaiowá de Pyelito Kue e de Mbarakay, no cone sul do Mato Grosso do Sul, ao tentarem retornar aos territórios de ocupação tradicional de onde haviam sido expulsas, viram-se novamente alvo de ataques a tiros, pela segunda vez em menos de três dias.
Ambas comunidades já haviam tentado retornar aos seus territórios em 2012, quando se tornaram protagonistas de uma resistência a ataques armados, que mobilizou a opinião pública na campanha com o mote “Somos todos Kaiowá”. Após esta mobilização, a Terra Indígena Iguatemipegua I, que engloba os tekoha (ou seja, as terras) de Pyelito Kue e de Mbarakay, foi reconhecida oficialmente pelo Estado, em publicação no D.O.U. em 2013. Porém, até o momento encontra-se sem ser demarcada.
Passados doze anos daquela publicação oficial e sem verem avançar os meios formais para voltar a ocupar seus tekoha (lê-se “tekorrá”), as comunidades decidiram não esperar mais e voltaram.
É de fundamental importância ter em conta que para as comunidades Kaiowá (lê-se “kaiová”) seus tekoha são seus suportes de vida, que lhes foram entregues na origem do mundo pelas divindades, para que dela fizessem bom uso e cuidassem.
A vida, portanto, fora dos tekoha é uma subvida, geradora de perturbações e de doenças, tanto nos indivíduos que compõem estas comunidades quanto nelas próprias, coletivamente. Acresce-se a isto o uso indiscriminado de agrotóxicos nas monoculturas de exportação que as cercam, poluindo-se as águas e os cultivos dos indígenas, num estado cujo nome de Mato Grosso (do Sul) hoje conta, em seu Cone Sul, com uma vegetação nativa que não ultrapassa a média de 2% da cobertura original, além de um racismo endêmico e de uma extrema morosidade nos processos de demarcação, pela pressão do agronegócio.
Este encontra-se seja representado fortemente por políticos do estado, seja organizado em sindicatos, atuando com repressão privada armada e contando com suporte das forças policiais locais. Neste clima geral, veículos de informação como o Repórter Brasil, além do Conselho Indigenista Missionário relatam denúncias dos indígenas de ataques a tiros, espancamento e outras violências, físicas e psicológicas.
Registra-se, igualmente, que apenas há pouco mais de uma semana, outro caso, o da comunidade de Guyraroka, que também aguarda a demarcação de sua terra, resultou em um episódio de nível máximo de conflito, com reação da comunidade justamente ao uso do agrotóxico, a afetar a saúde de suas famílias.
Após mais estes ataques, que se juntam a uma série longa e constante de outros, a ABA, através da sua Comissão de Assuntos Indígenas e do Comitê de Laudos Antropológicos, vem manifestar profunda preocupação com a possibilidade que se avizinha de que os ditames constitucionais, que preveem a garantia, pelo Estado brasileiro, do direito à demarcação das terras de ocupação tradicional, sejam desrespeitados, ajudando a promover a continuidade da violência contra os indígenas.
Na prática, estes ditames significam que Executivo, Legislativo e Judiciário têm a tarefa constitucional de garantir aos povos indígenas o acesso aos seus territórios de uso e ocupação tradicional, e o direito à vida com dignidade neles, “segundo seus usos, costumes e tradições”, como estabelecido no Artigo 231 da Constituição. Por todo o exposto, com suas ações os Kaiowá demonstram que este preceito deve ser um imperativo instransponível, em termos legais, mas também morais, em nosso país.
Nesses termos, a ABA, ao tempo que demanda a profunda investigação dos atos de violência aqui apontados, e a tomada de providências correlatas pelas forças de segurança pública e de direitos humanos do Estado brasileiro, demanda igualmente à Presidência da República, ao Ministério dos Povos Indígenas, ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal que, em seus papéis institucionais perante os Kaiowá, velem pela Constituição, garantindo integralmente a demarcação de suas terras tradicionalmente ocupadas.”

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