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Mato Grosso do Sul

Onça que atacou caseiro no Pantanal é capturada pela PMA e será atendida no CRAS

Ataques de onças a humanos são raríssimos, dizem especialistas

Publicado em 24/04/2025 10:53 - Semana On

Divulgação Gov MS

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A força-tarefa da PMA (Polícia Militar Ambiental) capturou, na madrugada de quinta-feira (24), a onça-pintada que atacou e matou o caseiro Jorge Ávalo, 60 anos, próximo ao pesqueiro Touro Morto, no Pantanal.

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O caso aconteceu na segunda-feira (21) e o animal, um macho, foi capturado com o apoio de um especialista em animais de grande porte e guias locais. O animal é monitorado – temperatura e frequência cardíaca –, e será levado para o CRAS (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres), em Campo Grande. “Vamos avaliar e tentar entender o que aconteceu”, disse o pesquisador Gediendson Araújo, que participou da captura da onça.

Na quarta-feira (23), durante coletiva de imprensa o secretário-executivo da Semadesc (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Artur Falcette, explicou que ataques de onças, como o que ocorreu, são extremamente incomuns na região. “Estamos diante de um caso muito atípico. Esse não é um comportamento habitual da espécie. A captura do animal é essencial para entendermos o que motivou essa atitude e para que possamos estudar seu comportamento com mais precisão”, afirmou Falcette.

As câmeras de segurança instaladas na sede da fazenda onde o ataque ocorre, além de vídeos e fotos que registram a rotina dos animais nas proximidades da sede, foram encaminhadas para perícia. O material pode ajudar a esclarecer o comportamento da onça-pintada e fornecer pistas sobre os momentos que antecederam o ataque.

“Uma das poucas certezas até o momento é a de que havia oferta de alimento, conhecido como ceva, para atrair animais silvestres no local. A prática, além de configurar crime ambiental, é extremamente perigosa, pois pode provocar alterações no comportamento natural dos animais”, disse o coronel José Carlos Rodrigues, comandante da PMA.

Ataque raro reacende debate sobre convivência entre humanos e onças

A morte de Jorge Ávalo lançou luz sobre um fenômeno tão trágico quanto raro: o ataque de grandes felinos a humanos no Pantanal. Apesar do impacto causado pelo caso, biólogos e veterinários especialistas no bioma reforçam que a onça-pintada não vê o ser humano como presa e que episódios como esse não devem servir de justificativa para retaliações contra a espécie.

Segundo o biólogo Gustavo Figueroa, da ONG SOS Pantanal, que atua há mais de dez anos no bioma, ataques de onças a humanos são “raríssimos” e não devem ser usados como argumento para demonizar o animal. “É importante destacar que as onças não são vilãs. Temos pouquíssimos registros de ataques no Pantanal, e o que aconteceu foi uma fatalidade. Não podemos transformar isso em motivo para caça ou retaliação”, afirmou o especialista em vídeo divulgado nas redes sociais.

O médico veterinário Diego Viana, também com uma década de experiência no estudo da relação entre humanos e felinos na região, explica que a onça-pintada é um predador especializado que caça presas naturais e evita o contato com seres humanos. “Temos diversos estudos que avaliam a dieta da onça e nenhum deles inclui humanos como parte dessa dieta”, afirmou Viana. “Ataques só ocorrem quando há quebra nos protocolos de segurança.”

De acordo com os especialistas, entre os fatores que podem aumentar o risco de encontros perigosos está a prática ilegal da ceva – técnica que consiste em atrair animais com alimentos para facilitar a observação turística. Essa interferência reduz a distância de segurança que os animais mantêm naturalmente de humanos e altera seu comportamento, com riscos para ambos os lados.

“A aproximação excessiva e a ceva são práticas que merecem atenção das autoridades. Elas colocam em risco a segurança de pessoas e também a preservação das onças”, reforça Viana, que ressalta ainda que a fome não seria um fator relevante no ataque, uma vez que o Pantanal oferece abundância de presas naturais.

Chama atenção o fato de que dias antes do ataque, Jorge havia gravado um vídeo relatando a presença constante de onças na área onde trabalhava. Em tom de brincadeira, mencionava o risco de ser atacado, sem imaginar que a premonição viraria tragédia. “A onça vai comer o Jorge, Dão!”, dizia uma voz no vídeo. “Não vai comer, não!”, respondia Jorge.

A fala ganha contornos sombrios diante dos acontecimentos e expõe uma realidade: mesmo conhecendo o território, moradores e trabalhadores do Pantanal muitas vezes enfrentam riscos ampliados por práticas humanas inadequadas ou pela ausência de políticas públicas que orientem a convivência segura com a fauna.

O caso de Jorge Ávalo, ainda em investigação pela perícia técnica, mobiliza discussões sobre a necessidade de educação ambiental, regulamentação do turismo ecológico e fortalecimento das ações de conservação. Para Figueroa, o momento exige mais do que lamentações: “É hora de pesar e respeito à vítima e seus familiares, mas também de responsabilidade para que não transformemos um acidente raro em uma tragédia ambiental”.

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