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Mato Grosso do Sul

O avanço evangélico e a nova geografia da fé em MS

Em um Estado onde há três vezes mais igrejas que escolas, IBGE revela transformação silenciosa

Publicado em 06/06/2025 1:01 - Semana On

Divulgação Reprodução

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No Mato Grosso do Sul, as igrejas se multiplicam mais rápido do que escolas. Literalmente. Há um templo para cada 338 pessoas — três vezes mais do que instituições de ensino no Estado. A revelação, trazida pelos dados preliminares do Censo 2022 do IBGE, é mais do que uma estatística: é um retrato da transformação profunda da religiosidade em solo sul-mato-grossense, que ressoa em todo o país. Em um contexto onde o catolicismo já foi religião oficial do Estado brasileiro e hoje representa 51% da população do Estado, os evangélicos crescem com força e já são 32,5%, um índice acima da média nacional.

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Esse deslocamento religioso não é apenas quantitativo. Ele é marcado por recortes sociais, de gênero, raça e escolaridade, revelando muito mais sobre o Brasil atual do que a simples escolha de um credo. Enquanto o número de católicos ainda é majoritário — 1,2 milhão de pessoas —, são os evangélicos que despontam como força em ascensão, somando mais de 763 mil fiéis no Estado. Mas quem são esses novos protagonistas da fé? E o que revela essa cartografia da religião?

O peso da história e o silêncio da exclusão

Para compreender a virada religiosa em Mato Grosso do Sul — e, por extensão, no Brasil — é preciso retornar à fundação simbólica do país. O primeiro censo brasileiro com dados sobre religião, em 1872, sequer reconhecia outras crenças além do catolicismo. Como lembra Maria Goreth Santos, analista do IBGE, “em 150 anos de recenseamento de religião, muita coisa mudou no país e na sociedade como um todo. Em 1872 […] a população escravizada era toda contada como católica, seguindo a declaração do senhor da casa”.

Essa imposição histórica da fé católica como norma estatal e cultural foi sendo erodida pela urbanização, pelo surgimento de movimentos sociais e pelo avanço de igrejas evangélicas, especialmente as de orientação pentecostal e neopentecostal, que encontraram ressonância em segmentos populares marginalizados. O crescimento das igrejas evangélicas nos bairros periféricos não é coincidência: elas oferecem pertencimento, acolhimento e, muitas vezes, apoio material — numa lógica de atuação direta e imediata que contrasta com a estrutura mais hierarquizada da Igreja Católica.

Fé feminina e desigualdade educacional

Outro traço incontornável da nova paisagem religiosa de Mato Grosso do Sul é o papel central das mulheres. Elas são maioria em quase todas as religiões — católicas, evangélicas, espíritas, umbandistas — e representam 1.056.011 fiéis no total. Em contraste, os homens lideram apenas entre os que se declaram sem religião (8,92% da população sul-mato-grossense, segundo maior índice do Centro-Oeste, atrás apenas do Distrito Federal).

Essa diferença de gênero se revela ainda mais quando cruzada com os níveis de escolaridade. Entre os católicos, 38% têm ensino fundamental incompleto ou não possuem instrução formal, com homens liderando nessa faixa com 27 mil a mais que as mulheres. Entre os evangélicos, a taxa é semelhante (37%), mas aqui são as mulheres com pouca instrução que predominam.

A religião, nesse contexto, não pode ser vista apenas como fé, mas também como função social e emocional. Nas palavras da antropóloga Christina Vital da Cunha, professora da UFF e estudiosa do fenômeno evangélico, “as igrejas funcionam como redes de sociabilidade, proteção e até emprego informal, especialmente para mulheres pobres”.

Já entre os espíritas — que são apenas 1,6% da população do Estado — há um padrão invertido: 47% têm ensino superior completo, revelando uma associação entre essa religião e camadas mais escolarizadas e urbanas da sociedade.

A pluralidade encoberta: os invisibilizados da fé

Embora discretos em números, os praticantes da umbanda, do candomblé e das tradições indígenas revelam outra dimensão fundamental da diversidade religiosa brasileira — a que foi historicamente silenciada. Com pouco mais de 14 mil fiéis declarados, essas religiões enfrentam séculos de criminalização e estigmatização, heranças diretas do colonialismo e do racismo estrutural. Ainda hoje, seus terreiros são alvos de intolerância religiosa, especialmente em áreas urbanas.

O fato de Mato Grosso do Sul reunir uma população significativa de origem indígena também se reflete nas religiões tradicionais: 2.100 pessoas declararam seguir esses caminhos espirituais, número ainda pequeno, mas relevante num país que por séculos tentou apagar essa diversidade.

Igrejas, templos e a pedagogia da fé

O dado que mais chama atenção é estrutural: há 8.156 igrejas em Mato Grosso do Sul, contra 2.718 unidades de ensino (com base no cálculo de uma escola para cada 1.041 pessoas). Em cidades como Corguinho, há uma igreja para cada 132 habitantes — densidade maior que a de postos de saúde, por exemplo.

Esse dado não apenas revela o crescimento do número de templos — especialmente evangélicos —, mas convida a uma reflexão mais ampla sobre o papel que essas instituições vêm assumindo na ausência (ou precariedade) do Estado. Em comunidades onde o acesso à educação, saúde e cultura é limitado, as igrejas ocupam esse vácuo, oferecendo suporte, orientação e até lazer.

Da fé à política: uma estrada em duas direções

Essa reconfiguração religiosa também traz implicações políticas profundas. A ascensão do evangelicalismo tem moldado os rumos do Congresso Nacional, das eleições presidenciais e das disputas locais. Lideranças religiosas passaram a ter capital político considerável, com a chamada “bancada evangélica” influenciando pautas como costumes, educação e direitos das minorias.

Para o sociólogo Ricardo Mariano, especialista em religião e política no Brasil, “as igrejas evangélicas se tornaram agências de socialização política e moral”. Esse fenômeno é visível também em Mato Grosso do Sul, onde a capilaridade das igrejas tem potencial eleitoral expressivo — algo que a política tradicional tem aprendido a disputar.

Entre a crença e a cidadania

A pluralidade religiosa, mesmo marcada por assimetrias e desigualdades, é expressão direta da democracia. O desafio não está na coexistência entre credos — que já se dá —, mas em garantir que essa diversidade não se converta em dominação de um grupo sobre os demais.

Num país em que a Constituição de 1988 consagra o Estado laico, mas onde igrejas têm crescido em influência política e social, cabe perguntar: estamos fortalecendo a liberdade religiosa ou desregulando a laicidade? Em Mato Grosso do Sul, onde há mais igrejas do que escolas, essa pergunta ganha peso concreto.

Como nos lembra o filósofo Charles Taylor em A Secular Age (2007), “a modernidade não elimina a fé, mas transforma suas formas e lugares”. O Brasil de hoje — e especialmente o MS — é um espelho dessa transição. Uma sociedade que continua crente, mas já não reza unida — e cuja fé se entrelaça cada vez mais com o tecido da vida pública.

O AVANÇO


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