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Mato Grosso do Sul

Nova delegacia da PRF em MS e a guerra silenciosa nas fronteiras

Unidade em Dourados simboliza resposta estatal ao avanço do crime organizado

Publicado em 26/11/2025 12:38 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A Polícia Rodoviária Federal (PRF) acaba de inaugurar em Dourados (MS) sua maior delegacia no país. Com heliponto, núcleo de inteligência, auditório, área de treinamento e até canil, a nova unidade representa mais do que um investimento de R$ 7,5 milhões: é uma resposta institucional a uma das fronteiras mais vulneráveis da América do Sul — e um dos pontos mais sensíveis do tabuleiro geopolítico da segurança pública brasileira.

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O cenário em que essa delegacia foi instalada não é acidental. Dourados, a segunda maior cidade do MS, é epicentro da chamada “Rota Caipira” — caminho alternativo e menos monitorado por onde toneladas de cocaína e maconha cruzam, todos os anos, da Bolívia para os grandes centros consumidores do Sudeste. Só em 2024, a delegacia da PRF na região já apreendeu mais de 129 toneladas de maconha. Os números impressionam, mas revelam apenas a superfície de uma engrenagem criminosa muito mais profunda e articulada, como ficou escancarado nos últimos depoimentos colhidos pela CPI do Crime Organizado no Senado.

A “Rota Caipira” e a Bolívia como paraíso do crime organizado

Durante as oitivas realizadas em 25 de novembro, o promotor Lincoln Gakiya — uma das maiores autoridades no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) — descreveu com contundência a atual configuração do crime organizado na região de fronteira. “Parte da cúpula do PCC está em liberdade, está na Bolívia”, afirmou, destacando nomes como Patrick Velinton Salomão, o “Forjado”, e Pedro Luiz da Silva, o “Chacal”, ambos líderes operacionais da facção, vivendo abertamente na Bolívia, com documentos falsos, proteção de autoridades locais e em condomínios luxuosos.

“Através de um smartphone, eles conseguem comandar o crime organizado aqui no Brasil com bastante tranquilidade”, disse Gakiya, expressando indignação. “Nós temos criminosos procurados, em difusão na lista vermelha da Interpol, que estão na Bolívia. Chegou num ponto de revolta, em que você sabe que os indivíduos moram em Santa Cruz de la Sierra”, completou. O promotor relatou que, apesar dos pedidos de extradição e da pressão internacional, a Bolívia ignora sistematicamente as solicitações brasileiras, transformando-se num refúgio estratégico para a elite do crime.

A percepção é compartilhada por Leandro Almada da Costa, diretor de inteligência da Polícia Federal. “A Bolívia é um país terrível para a gente trabalhar hoje”, declarou. Segundo Costa, 90% das operações planejadas na região vazam antes de serem executadas, comprometendo o sucesso de investigações e prisões. “Tem que ter muito mais suporte, muito mais recurso e tem que realmente entender que isso é um problema de todos”, defendeu.

Um Estado sitiado pela ausência de soberania

Com 1.500 km de fronteira apenas em Mato Grosso do Sul — e 17 mil quilômetros no total —, o Brasil vive um paradoxo inquietante: a utopia do controle total das fronteiras se choca com a realidade da falta de estrutura, cooperação internacional e efetivo. Como afirmou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, ao presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT): “Os Estados Unidos e o México têm uma fronteira menor que a nossa com a Bolívia”.

Esse vácuo institucional e territorial é preenchido pelo narcotráfico, pelas milícias e por redes transnacionais de lavagem de dinheiro, que hoje se sofisticam com o uso de criptomoedas, fintechs e bancas de advocacia. A CPI do Crime Organizado, instalada em 4 de novembro, pretende aprofundar essas conexões, especialmente entre os anos de 2021 e 2025, com base em dados fornecidos pela PRF, PF e o Ministério da Justiça.

O senador Alessandro Vieira (MDB), um dos autores dos requerimentos, solicitou uma devassa em relatórios de inteligência e dados estatísticos que incluem apreensões de drogas, armas, roubos de carga, crimes patrimoniais e operações frustradas — numa tentativa de mapear com precisão o grau de infiltração das facções nas fronteiras brasileiras.

Entre a reação e o risco da militarização

A inauguração da Delegacia Especializada de Fronteira em Dourados pode ser lida como um marco positivo, mas também revela a face reativa do Estado. Como ensinou o sociólogo francês Didier Fassin, a segurança pública muitas vezes se organiza não a partir de um planejamento estratégico, mas como “política dos acontecimentos”, isto é, como reação tardia a crises instaladas.

No caso brasileiro, a fragilidade da soberania nas fronteiras não é nova. Desde a década de 1990, especialistas como Luis Antonio de Souza, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, alertam para a “terceirização da segurança”, em que as forças armadas são convocadas para resolver problemas de segurança pública que deveriam ser tratados com inteligência, prevenção e cooperação internacional efetiva.

A nova delegacia da PRF, com sua estrutura digna de operação militar, levanta questionamentos sobre o risco de militarização da segurança em áreas sensíveis. Ao mesmo tempo, é inegável que há um vácuo institucional sendo preenchido por ela. A presença de helicópteros, inteligência, e treinamento específico pode gerar maior dissuasão, mas não resolve, por si só, o problema estrutural.

Um problema transnacional que exige uma resposta além da fronteira

O que as oitivas da CPI e a inauguração da delegacia demonstram é que o combate ao crime organizado nas fronteiras não pode ser pensado apenas em termos de policiamento ou repressão local. Trata-se de um problema de governança internacional, que exige cooperação diplomática, tratados bilaterais funcionais e pressão política legítima. O Brasil precisa urgentemente repensar sua política externa para a América Latina, especialmente com países como Bolívia e Paraguai, que hoje figuram como elos frágeis no combate regional ao narcotráfico.

Como lembrou o cientista político Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de segurança pública, em seu livro Desmilitarizar (Boitempo, 2019): “A segurança pública não pode se sustentar apenas na força. Ela depende da justiça social, da articulação entre instituições e do compromisso com a legalidade e a democracia.”

Enquanto criminosos internacionais vivem em mansões na Bolívia, protegidos por redes corruptas e blindados contra extradição, agentes brasileiros lutam com estruturas precárias, vazamentos e ausência de cooperação real. A nova delegacia da PRF em Dourados é um passo na direção certa, mas ainda está muito distante de ser uma solução definitiva.

Sem integração entre as polícias, os ministérios públicos, as forças armadas e os governos dos países vizinhos, a fronteira continuará sendo não uma linha de defesa, mas uma ferida aberta no mapa da soberania nacional. A resposta, como alertam os especialistas, precisa ser coletiva, estratégica e profundamente democrática.

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