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Mato Grosso do Sul
Objetivo é atrair R$ 27 bilhões da iniciativa privada para modernizar rodovias
Publicado em 17/04/2025 10:57 - Semana On
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Em meio à crise fiscal que limita os investimentos públicos no Brasil, o Estado de Mato Grosso do Sul se prepara para receber R$ 27,14 bilhões em investimentos privados destinados à modernização de sua malha rodoviária. A cifra, que reúne os valores projetados para dois leilões de concessões previstos para o mês de maio, representa não apenas um fôlego logístico e econômico para a região, mas também um indicativo das transformações no modelo de gestão da infraestrutura brasileira — cada vez mais ancorado na parceria com o setor privado.
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Os leilões — um da chamada Rota da Celulose, marcado para 8 de maio, e outro da BR-163, previsto para 22 de maio — fazem parte de uma estratégia conjunta entre o Governo Federal e o Governo de Mato Grosso do Sul para destravar obras essenciais à fluidez do transporte rodoviário, base da logística do agronegócio regional. De acordo com o Ministério dos Transportes, somente esses dois certames devem mobilizar cerca de R$ 27,14 bilhões, incluindo investimentos (Capex) e despesas operacionais (Opex), em contratos de concessão que preveem administração por até 30 anos.
A nova fronteira da logística no Centro-Oeste
A Rota da Celulose é um projeto emblemático. Com 870 quilômetros de extensão, o trecho abrange rodovias estaduais (MS-040, MS-338 e MS-395) e federais (BR-262 e BR-267), funcionando como eixo vital para o escoamento da produção de celulose, grãos e carnes — setores que fazem do estado uma potência agroexportadora. O projeto prevê investimentos de R$ 10,1 bilhões, sendo R$ 6,9 bilhões em obras e melhorias, como duplicações, acostamentos e vias marginais.
Esse investimento não é trivial: ele recoloca o papel do Estado como indutor de desenvolvimento, não por meio de execução direta, mas ao fomentar o ambiente para o investimento privado. Segundo a secretária especial do Escritório de Parcerias Estratégicas de MS, Eliane Detoni, há crescente interesse dos investidores. “Temos percebido a procura por informações sobre o projeto, bem como pedidos de autorizações para levantamentos e estudos das rodovias”, afirmou.
Vale lembrar que esse mesmo leilão havia sido suspenso em dezembro de 2024 por falta de interessados — um alerta importante sobre os desafios de modelagem dos projetos de concessão no Brasil. A reformulação do edital e a abertura a investidores estrangeiros foram estratégias para reverter esse quadro e ampliar a concorrência, conforme confirmou o Ministério dos Transportes.
A disputa por uma rodovia estratégica
Já o leilão da BR-163, rodovia que corta o estado de norte a sul, é visto como peça-chave na integração do Mato Grosso do Sul ao corredor logístico que liga o Centro-Oeste aos portos do Sudeste e Sul. A projeção é de R$ 17 bilhões em aportes privados, dos quais R$ 9,9 bilhões em obras e R$ 7,1 bilhões em operação.
O controle da BR-163 é atualmente da CCR MSVia, cujo contrato remonta a 2014. O grupo, que demonstrou interesse em participar do novo certame, afirmou ao Campo Grande News que segue com “seletividade, disciplina financeira e rigor na alocação do seu capital”. Outro possível concorrente, segundo fontes do setor, é o Grupo WAY Brasil, embora ainda não tenha se manifestado oficialmente.
Segundo a economista e especialista em concessões públicas Elena Landau, o modelo de parcerias com o setor privado exige não apenas regras claras e segurança jurídica, mas também planejamento estatal eficiente: “O Estado deve atuar como regulador e garantidor da concorrência, e não como executor direto da infraestrutura. É assim que se fortalece o investimento produtivo”, disse, em entrevista à Folha de S.Paulo.
Infraestrutura como pilar do desenvolvimento
Os leilões ocorrem em um momento de transição no paradigma de financiamento das políticas públicas. Com a dívida pública em alta e a rigidez orçamentária imposta pelo novo arcabouço fiscal, a aposta na atração de capital privado aparece como saída técnica e política para viabilizar obras estruturantes.
Mas a questão transcende o tecnicismo. A infraestrutura de transportes está diretamente ligada à inclusão produtiva, à mobilidade e à integração territorial. Como afirmou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “a infraestrutura molda o modo como as sociedades se movimentam — e, portanto, como elas se organizam”. Investir em infraestrutura, neste contexto, é também investir em coesão social e em acesso a oportunidades.
A secretária Eliane Detoni sintetiza essa visão ao afirmar que “é fundamental gerar mais investimentos nos municípios, tendo como consequência emprego, renda e oportunidades para a população”. De fato, segundo dados do IBGE, cada R$ 1 bilhão investido em infraestrutura pode gerar até 20 mil empregos diretos e indiretos.
Entre otimismo e vigilância
Ainda que os projetos de concessão tenham avançado nas últimas décadas, é preciso lembrar os riscos envolvidos: desequilíbrios contratuais, falta de fiscalização eficiente e repasses de tarifas ao consumidor. No caso da própria BR-163, a CCR MSVia chegou a paralisar obras de duplicação em 2016 alegando inviabilidade econômica — uma lição sobre a importância de contratos bem estruturados e com garantias sólidas de execução.
Para o Brasil, que ocupa apenas a 65ª posição em qualidade de infraestrutura no ranking global do Fórum Econômico Mundial (2023), avançar em investimentos logísticos é urgente. Mato Grosso do Sul, nesse sentido, parece ter compreendido que a prosperidade futura passa por decisões estratégicas no presente — com o capital privado como aliado, mas com o interesse público como guia.
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