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Mato Grosso do Sul

Incêndio na Serra do Amolar ameaça santuário ecológico no Pantanal

Área remota e de difícil acesso mobiliza brigadistas, helicóptero do Xingu e ação coordenada entre instituições

Publicado em 30/09/2025 8:57 - Semana On

Divulgação Foto: IHP

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Um helicóptero do Ibama, deslocado do Parque do Xingu (MT), deve começar a operar nesta terça-feira (30) no combate ao incêndio que atinge desde sábado (28) a região da Serra do Amolar, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. A aeronave reforçará as ações das brigadas da SOS Pantanal, do Corpo de Bombeiros e do Instituto do Homem Pantaneiro (IHP), que enfrentam as chamas em uma área de altíssima complexidade logística: o topo de um morro a mais de 900 metros de altitude, acessível apenas após cerca de oito horas de navegação pelo rio Paraguai.

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De acordo com o Instituto do Homem Pantaneiro, o fogo foi identificado pelo Sistema Pantera por volta do meio-dia de sábado e teria sido iniciado por um raio. As chamas estão localizadas entre a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Acurizal e a fronteira com a Bolívia, em uma zona crítica do Pantanal sul-mato-grossense.

“Estamos mobilizados com todas as instituições para esse combate, que é importante. Vamos tentar debelar esse fogo logo no início para evitar que ele se agrave”, afirmou o coronel Ângelo Rabelo, diretor-presidente do IHP, ao portal g1.

A operação de combate ao fogo inclui 14 brigadistas da Brigada Alto Pantanal, além de reforços do Prevfogo/Ibama e da SOS Pantanal. Um air tractor do Corpo de Bombeiros também foi mobilizado para lançamento de água a partir da Fazenda Santa Tereza. No momento da detecção, os dados climáticos indicavam um risco de incêndio de 94%, com temperaturas de 36°C, umidade relativa do ar em 29% e ventos de 9 km/h.

Patrimônio ameaçado

A Serra do Amolar é considerada Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO, sendo um dos ecossistemas mais singulares do Brasil. Com cerca de 80 km de extensão e morros que chegam a quase 1.000 metros de altitude, a região funciona como um corredor natural para a onça-pintada e abriga uma rara convergência de ecossistemas da Mata Atlântica, do Pantanal e da Amazônia.

Entre as espécies ameaçadas pelas chamas estão 3.500 tipos de plantas, 325 espécies de peixes, 53 de anfíbios, 98 répteis, 656 aves e 159 mamíferos. Segundo o biólogo Wener Hugo Moreno, do IHP, a serra tem papel crucial no ciclo hidrológico da planície pantaneira:

“A Serra do Amolar funciona como um funil que controla o fluxo das águas norte–sul, inundando diversas baías e lagoas da região acima. É o chamado ‘gargalo do Paraguai’”, explica.

Essa dinâmica é essencial para a manutenção da biodiversidade do Pantanal, que depende dos ciclos de cheia e seca para sustentar seus ecossistemas.

Incêndios em setembro: a face previsível da tragédia

Setembro marca historicamente o período mais crítico de incêndios no Pantanal, coincidindo com a estiagem prolongada e temperaturas elevadas. Apesar disso, o fogo deste fim de semana é o primeiro registro de incêndio na Serra do Amolar em 2025, o que aumenta o grau de preocupação entre ambientalistas e instituições locais.

“É bem preocupante porque é a primeira vez que temos registro de incêndios lá na Serra do Amolar, que tem uma rica biodiversidade”, alertou novamente Ângelo Rabelo ao g1.

A resposta das autoridades, embora articulada, esbarra em gargalos estruturais recorrentes em emergências ambientais no Brasil: logística precária, dependência de recursos deslocados de outras regiões, e subfinanciamento crônico de brigadas especializadas. A demora na chegada do helicóptero, por exemplo, dependeu da liberação da Coordenação de Operações Aéreas do Ibama e do envio de um caminhão com combustível — mais um entrave em meio à urgência da situação.

Repetição de um padrão

O Pantanal vive um ciclo de agravamento dos incêndios desde 2020, quando o bioma registrou o maior número de focos da história, segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O episódio de agora, embora ainda restrito a uma área considerada pequena pelas autoridades, reativa o alerta sobre a fragilidade das estruturas de prevenção e resposta, principalmente em áreas de acesso remoto.

Segundo dados do Monitor do Fogo, plataforma do MapBiomas, cerca de 32% do Pantanal já foi queimado ao menos uma vez nos últimos 40 anos, com impactos severos sobre espécies endêmicas, qualidade da água e modos de vida tradicionais.

A ausência de políticas públicas consistentes de prevenção, fiscalização e investimento contínuo em brigadas fixas reforça o caráter cíclico e previsível das tragédias ambientais no Brasil. Especialistas como a ecóloga Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília, já alertaram em outros contextos que:

“As mudanças climáticas apenas potencializam um processo que já está em curso devido à degradação, ao desmatamento e à falta de governança ambiental”.

Enquanto isso, o Pantanal arde — e com ele, arde também a chance de uma resposta que vá além do apagar incêndios.

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