Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mato Grosso do Sul
Crime em Dourados faz o Estado superar o total de feminicídios do ano passado
Publicado em 24/11/2025 2:38 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Mato Grosso do Sul chegou, nesta segunda-feira (24), ao maior número de feminicídios dos últimos anos. São 37 mulheres assassinadas entre janeiro e novembro de 2025 por razão de gênero — número que já supera os 35 casos registrados em todo o mesmo período de 2024, segundo dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Estado. O caso mais recente vitimou Alliene Nunes Barbosa, 50 anos, ex-guarda municipal de Dourados, morta com 23 facadas pelo ex-marido.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
O crime ocorreu na madrugada desta segunda-feira, na cidade de Dourados, a 225 km de Campo Grande, e expõe a brutalidade e o ciclo de impunidade que cerca a violência contra a mulher no Estado. Cristian Alexandei Cabeza Henrique, 44 anos, boliviano, foi preso logo após o crime. Ele já havia sido denunciado por violência doméstica, estava monitorado por tornozeleira eletrônica e tinha histórico de descumprimento de medidas protetivas.
Alliene foi assassinada na frente do filho de 9 anos, que permaneceu trancado por mais de 40 minutos em um dos quartos da casa até conseguir escapar pulando o muro para pedir socorro. O relato acrescenta uma dimensão ainda mais cruel ao feminicídio: a presença da criança no momento do ataque é também uma forma de violência psicológica com efeitos duradouros.
O caso não é isolado — é parte de um cenário alarmante de violência de gênero, com tendência crescente. Mato Grosso do Sul é um dos estados que tradicionalmente apresenta altas taxas de feminicídio no país. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o estado teve, em 2023, a terceira maior taxa de feminicídios do Brasil, com 2,7 casos por 100 mil mulheres — bem acima da média nacional de 1,3.
A reincidência do agressor neste caso levanta questões urgentes sobre a eficácia das medidas protetivas e do monitoramento eletrônico. Em 2022, o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais já alertava: “A tornozeleira eletrônica, por si só, não impede o feminicídio. Ela é um instrumento auxiliar, não substitui políticas de proteção efetivas e acompanhamento contínuo”.
Além disso, o assassinato de Alliene evidencia a necessidade de ações preventivas que envolvam o poder público, o sistema judiciário e a sociedade civil. Conforme aponta a promotora de Justiça Valéria Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo: “Não basta denunciar. É preciso garantir proteção real e imediata para a mulher em risco, e isso exige integração entre os serviços de segurança e justiça.”
Em MS, medidas como a Patrulha Maria da Penha e os Centros de Atendimento à Mulher têm sido fundamentais para acolher vítimas, mas ainda operam com recursos limitados. O aumento no número de feminicídios indica que as redes de proteção estão falhando em interromper o ciclo da violência.
Ao ultrapassar a marca dos 37 casos, o estado impõe um alerta grave à sociedade e às autoridades: mulheres continuam sendo assassinadas por seus companheiros ou ex-companheiros, muitas vezes sob conhecimento prévio do risco envolvido. No caso de Alliene, o agressor já havia dado sinais claros de ameaça, e mesmo assim conseguiu chegar até ela.
É preciso ir além das estatísticas. Cada número representa uma vida interrompida e um sistema que falhou. O feminicídio é a face mais extrema de uma violência estrutural, e sua prevenção exige mais do que protocolos formais — exige vontade política, orçamento, articulação institucional e vigilância ativa da sociedade.
Vítimas de feminicídio em MS em 2025
Karina Corim (Caarapó) – 4 de fevereiro;
Vanessa Ricarte (Campo Grande) – 12 de fevereiro;
Juliana Domingues (Dourados) – 18 de fevereiro;
Mirielle dos Santos (Água Clara) – 22 de fevereiro;
Emiliana Mendes (Juti) – 24 de fevereiro;
Gisele Cristina Oliskowiski (Campo Grande) – 1º de março;
Alessandra da Silva Arruda (Nioaque) – 29 de março;
Ivone Barbosa (Sidrolândia) – 17 abril;
Thácia Paula (Cassilândia) – 11 de maio;
Simone da Silva (Itaquiraí) – 14 de maio;
Olizandra Vera Cano (Coronel Sapucaí) – 23 de maio;
Graciane de Sousa Silva (Angélica) – 25 de maio;
Vanessa Eugênio Medeiros (Campo Grande) – 28 de maio;
Sophie Eugenia Borges, filha de Vanessa Eugênio Medeiros (Campo Grande) – 28 de maio;
Eliana Guanes (Corumbá) – 6 de junho;
Doralice da Silva (Maracaju) – 20 de junho;
Rose (Costa Rica) – 27 de junho;
Michely Rios Midon Orue (Glória de Dourados) – 3 de julho;
Juliete Vieira – (Naviraí) – 25 de julho;
Cinira de Brito (Ribas do Rio Pardo) – 31 de julho;
Salvadora Pereira (Corumbá) – 2 de agosto;
Dahiana Ferreira Bobadilla (Assassinada no Paraguai, mas encontrada em Bela Vista) — 8 de agosto;
Érica Regina Mota (Bataguassu) – 27 de agosto;
Dayane Garcia (Nova Alvorada do Sul) – 3 de setembro;
Iracema Rosa da Silva (Dois Irmãos do Buriti) – 8 de setembro;
Ana Taniely Gonzaga de Lima – 13 de setembro;
Gisele da Silva Cylis Saochine (Campo Grande) – 2 de outubro;
Erivelte Barbosa Lima de Souza (Paranaíba) – 10 de outubro;
Andrea Ferreira (Bandeirantes) – 12 de outubro;
Solene Aparecida Corrêa (Três Lagoas) – 21 de outubro;
Luana Cristina Ferreira Alves (Campo Grande) – 28 de outubro;
Aline Silva (Jardim) – 4 de novembro;
Mara Aparecida do Nascimento Gonçalves (Aparecida do Taboado) – 4 de novembro;
Rosimeire Vieira de Oliveira (Rochedo) – 10 de novembro;
Irailde Vieira Flores de Oliveira (Rochedo) – 10 de novembro;
Gabrielli Oliveira dos Santos (Sonora) – 18 de novembro;
Alliene Nunes Barbosa (Dourados) – 24 de novembro.
Saiba como buscar ajuda
Casa da Mulher Brasileira – Está localizada em Campo Grande, na Rua Brasília, s/n, no Jardim Imá. Atende 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana. Além da Deam, funcionam na Casa da Mulher Brasileira a Defensoria Pública; o Ministério Público; a Vara Judicial de Medidas Protetivas; atendimento social e psicológico; alojamento; espaço de cuidado das crianças – brinquedoteca; Patrulha Maria da Penha; e Guarda Municipal.
Telefones de Socorro – É possível ligar para 153, o 180, que garante o anonimato de quem liga, e o 190.A Central de Atendimento à Mulher – 180 é um canal de atendimento telefônico, com foco no acolhimento, na orientação e no encaminhamento para os diversos serviços da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres em todo o Brasil, mas não serve para emergências.
As ligações para o número 180 podem ser feitas por telefone móvel ou fixo, particular ou público. O serviço funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante os fins de semana e feriados, já que a violência contra a mulher é um problema sério no Brasil.
Já no Promuse, o número de telefone para ligações e mensagens via WhatsApp é o (67) 99180-0542.
DAM – Confira a localização das DAMs, no interior, clicando aqui. Elas estão localizadas nos municípios de Aquidauana, Bataguassu, Corumbá, Coxim, Dourados, Fátima do Sul, Jardim, Naviraí, Nova Andradina, Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas.
Para Reclamar – Quando a Polícia Civil atua com deszelo, má vontade ou comete erros, é possível denunciar diretamente na Corregedoria da Polícia Civil de MS pelo telefone: (67) 3314-1896 ou no GACEP (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), do MPMS, pelos telefones (67) 3316-2836, (67) 3316-2837 e (67) 9321-3931.
Violência contra mulheres é realidade para 840 milhões no mundo
Deixe um comentário