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Mato Grosso do Sul
Pollon apela para “autismo” para justificar atos antidemocráticos e truculentos
Publicado em 09/08/2025 12:29 - Semana On
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Alvo de uma representação que será avaliada pelo Conselho de Ética e na lista dos deputados que podem ser suspensos por participar do motim que paralisou a o Congresso Nacional por mais de 30 horas, o deputado Marcos Pollon (PL-MS) recorreu a uma justificativa inusitada para explicar sua permanência na cadeira do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), durante a baderna promovida pelo bolsonarismo: disse que, por ser autista, não compreendia o que estava acontecendo no momento em que o comando da sessão tentava ser retomado.
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Pollon e o colega Marcel van Hattem (Novo-RS) foram os últimos a abandonar o espaço. O vídeo do episódio, amplamente divulgado, mostra Pollon afirmando: “Eu não entendi. Não vou sair”. Segundo o deputado, ele teria pedido que Van Hattem permanecesse ao seu lado como “suporte para um autista”, embora admita que havia um acordo político para manter a ocupação até que o governo aceitasse o pleito de anistia aos condenados e investigados pelos atos golpistas de 8 de janeiro.
Dias antes do tumulto, em manifestação pró-Bolsonaro no Mato Grosso do Sul, Pollon havia chamado o presidente da Câmara de “bosta” e “baixinho de um metro e 60” — demonstração de destempero que contrasta com a súbita fragilidade alegada durante o motim. A retórica inflamada contra adversários e instituições, seguida de explicações pessoais quando confrontado com responsabilidades, ecoa um padrão recorrente no bolsonarismo: bravura sob holofotes, recuo na hora do acerto de contas.
Não foi um ato isolado. A líder da bancada ruralista, senadora Tereza Cristina (PP-MS), defendeu a ocupação dizendo que “às vezes é preciso chamar atenção” para ser ouvido — justificativa que remete à velha prática de tensionar as instituições democráticas sob o argumento da “pressão política”, já condenada por cientistas políticos como Steven Levitsky, autor de Como as Democracias Morrem, que alerta: “Quando atores políticos rompem deliberadamente regras democráticas para obter vantagem, corroem a legitimidade do sistema”.
Outro deputado sul-mato-grossense envolvido no tumulto foi Rodolfo Nogueira (PL) – conhecido pela alcunha de “Gordinho do Bolsonaro”. Ele também aparece entre os deputados que impediram os trabalhos no Congresso. “Não me calarei diante dos canalhas”, publicou nas redes.
O tumulto ainda rendeu outro episódio emblemático: a representação contra a deputada Camila Jara (PT-MS) por suposta agressão ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). O vídeo que viralizou mostra um empurra-empurra na Mesa Diretora durante a confusão. Nikolas afirma que foi atingido “em partes íntimas” e que isso explicaria sua queda. Camila, que está em tratamento contra um câncer e enfrenta limitações físicas por uma cirurgia no ombro, rebateu: “Não consigo dar um empurrão capaz de derrubar alguém. Ele está dissimulando”.
A cena beira o cômico: Nikolas, conhecido por discursos sobre masculinidade e ataques àquilo que chama de “fragilidade da esquerda”, se dizendo derrubado por uma colega “franzina” e debilitada. Camila ironizou: “Às vezes dá vontade [de bater], mas não vamos bater nos coleguinhas”.
Os episódios expõem a contradição central de um grupo que se apresenta como defensor implacável da liberdade e da força, mas recorre a vitimismos seletivos quando confrontado. Historicamente, movimentos autoritários recorrem a essa estratégia — projetar poder para mobilizar apoiadores, mas invocar perseguição quando o peso da lei se aproxima. É a lógica descrita por Hannah Arendt ao tratar da “dupla moral” de líderes populistas, que usam a arena pública para teatralizar conflitos e deslocar a narrativa de suas próprias responsabilidades.
Enquanto o Conselho de Ética avalia as representações, permanece a impressão de que o bolsonarismo, tão destemido nos palanques e transmissões ao vivo, se mostra surpreendentemente frágil quando precisa responder por seus atos. A coragem retórica, afinal, não resiste ao teste das consequências.
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