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Mato Grosso do Sul
Queimadas disparam em MS e deixam biomas sob pressão ambiental e econômica
Publicado em 03/01/2025 10:09 - Semana On
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O Pantanal, maior planície alagada do mundo e Patrimônio Natural da Humanidade, está no centro de uma polêmica que pode moldar seu futuro ecológico. A proposta de concessão do Rio Paraguai para navegação ao longo dos 365 dias do ano, em consulta pública pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), visa atender à exportação de minérios e produtos agrícolas do Centro-Oeste. No entanto, especialistas alertam: as intervenções planejadas, como dragagem e derrocagem, podem agravar a seca no bioma, intensificando os já recorrentes incêndios e ameaçando sua biodiversidade.
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O Pantanal depende de um ciclo delicado de inundações e secas, essencial para sustentar a rica fauna e flora da região. Alterações hidrodinâmicas, como a aceleração do escoamento das águas devido ao aprofundamento do leito do Rio Paraguai, podem prejudicar a inundação sazonal, reduzindo áreas alagadas que servem de berçário para espécies aquáticas.
Débora Calheiros, pesquisadora com 35 anos de estudos sobre o Pantanal, ressaltou, em entrevista ao site Campo Grande News: “Se aprofundar o leito do rio, a água flui mais rapidamente, vai secar o Pantanal mais rapidamente. Isso é discutido desde os anos 1990″. A analogia com o Rio Mississippi, frequentemente citada por defensores do projeto, é rejeitada por Calheiros, que destaca as diferenças estruturais entre um rio de planície e um de planalto: “O Rio Paraguai é uma das melhores vias navegáveis naturais do mundo. Praticamente se navega oito meses do ano sem problemas”.
No entanto, a proposta de intervenção no Tramo Sul do rio — trecho entre Corumbá e Porto Murtinho — inclui a remoção de obstáculos naturais, como afloramentos rochosos, que atualmente regulam o fluxo de água, e a dragagem para aumentar o calado, tornando-o navegável mesmo em períodos de seca.
O Pantanal como bem comum
O Pantanal é mais que um corredor logístico; é um ecossistema vital para a biodiversidade global e o equilíbrio climático. Nos últimos anos, o bioma tem enfrentado ciclos extremos de seca, exacerbados pelas mudanças climáticas e pelo desmatamento no entorno. A pesquisadora Débora Calheiros adverte que a resiliência do bioma está em declínio desde os anos 1960, tornando o impacto das dragagens e derrocagens ainda mais perigoso.
Estudos técnicos, como o de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental da Antaq, afirmam que a magnitude das intervenções é “baixa” e não causará alterações significativas nos parâmetros hidrodinâmicos do rio. Contudo, especialistas alertam que essas avaliações subestimam os impactos cumulativos e de longo prazo.
Entre lucro e conservação
A concessão, que prevê investimentos em infraestrutura fluvial, busca atender ao mercado de exportação, principalmente de minério de ferro, que já é a principal carga transportada no trecho. A tarifa projetada é de R$ 1,27 por tonelada, garantindo viabilidade econômica ao projeto. Porém, a sustentabilidade ambiental da iniciativa permanece em xeque.
A consulta pública, aberta até fevereiro, oferece uma oportunidade para a sociedade civil, ambientalistas e especialistas levantarem questionamentos sobre o impacto ambiental e social da concessão. É essencial que o debate inclua não apenas a eficiência logística, mas também o direito das futuras gerações ao patrimônio natural.
O dilema do Rio Paraguai evidencia um conflito cada vez mais comum no Brasil: o embate entre o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental. Enquanto a logística do lucro avança, o Pantanal clama por políticas que respeitem sua dinâmica natural. Preservar o Pantanal é preservar uma parte essencial da história natural do Brasil e um bioma crucial para o equilíbrio do planeta.
O desafio agora é encontrar um equilíbrio que permita o uso sustentável do Rio Paraguai sem comprometer a sobrevivência do Pantanal e das comunidades que dele dependem. Afinal, como dizia o poeta pantaneiro Manoel de Barros, os rios do Pantanal ainda “procuram declives para correr”.
As raízes de um desastre anunciado
Mato Grosso do Sul encerrou 2024 com um aumento de 187% nos focos de queimadas, segundo dados da plataforma TerraBrasilis do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A gravidade do cenário não pode ser subestimada: foram 13 mil focos, o pior número dos últimos dez anos. A seca histórica que assolou a região — a mais severa em sete décadas — não apenas agravou os incêndios, mas também evidenciou a fragilidade ambiental e a urgência de políticas públicas eficazes.
O bioma do Pantanal, um dos mais afetados, registrou 14,7 mil focos de incêndio nos dois estados que o abrigam, com 80,5% deles atingindo vegetação nativa. Somente no Mato Grosso do Sul, 594 mil hectares foram consumidos pelo fogo, o equivalente a 6% da área total do bioma na região. A devastação ambiental não se restringe às paisagens: o impacto sobre a biodiversidade, já sob pressão de mudanças climáticas e atividades humanas, é profundo e possivelmente irreversível em algumas áreas.
Especialistas apontam que a crise ambiental do Pantanal também afeta a dinâmica social e econômica da região. De acordo com o geógrafo e ambientalista Carlos Nobre, “a sustentabilidade do Pantanal depende de um equilíbrio delicado entre as atividades econômicas e a preservação dos recursos naturais. Sem uma abordagem integrada, o bioma continuará a sofrer perdas irreparáveis.”
A responsabilidade das grandes propriedades rurais
O levantamento do Inpe revelou que quase 10 mil dos focos registrados ocorreram em grandes propriedades rurais cadastradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR). A concentração das queimadas em áreas privadas levanta questionamentos sobre a gestão ambiental dessas propriedades, especialmente no contexto da intensificação da seca entre maio e outubro.
Enquanto no Pantanal a maior parte das queimadas afetou vegetação nativa, no Cerrado, bioma igualmente crítico, 71% dos focos ocorreram em áreas de desmatamento consolidado, indicando que o avanço agropecuário contribui significativamente para o cenário.
Respostas governamentais e desafios futuros
Frente à emergência, o governo do Mato Grosso do Sul investiu R$ 53 milhões no combate ao fogo, enquanto o governo federal sancionou o Projeto de Lei n° 1.818/2022, instituindo a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também autorizou a liberação de R$ 137 milhões em crédito extraordinário para o combate às queimadas.
Embora esses esforços representem um avanço, especialistas alertam que o combate ao fogo deve ser parte de uma estratégia mais ampla de preservação ambiental e adaptação climática. “Sem políticas de longo prazo que abordem as causas estruturais das queimadas, como o desmatamento e o manejo inadequado do solo, os investimentos serão insuficientes para evitar catástrofes futuras”, afirma a pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Oxford.
Um problema nacional e global
No Brasil, 2024 registrou 278,2 mil focos de incêndio, o pior índice desde 2010. O país concentra as maiores ocorrências de queimadas na América do Sul, refletindo a escala global do desafio climático. A destruição de biomas como o Pantanal, Cerrado e Amazônia representa não apenas uma tragédia ambiental, mas também uma ameaça ao papel estratégico do Brasil no combate às mudanças climáticas globais.
A questão, portanto, transcende fronteiras e exige uma cooperação internacional mais efetiva. Políticas locais, regionais e globais devem convergir para conter as queimadas e preservar o que resta de um dos maiores patrimônios ambientais do planeta.
O custo da inação
O aumento alarmante das queimadas em Mato Grosso do Sul é um alerta claro sobre os custos humanos, ecológicos e econômicos da inação. A integração de esforços governamentais, a responsabilidade do setor privado e o engajamento da sociedade civil serão cruciais para evitar que a devastação de 2024 se torne o novo normal.
Como disse o sociólogo francês Émile Durkheim, “a sociedade é o reflexo de suas escolhas coletivas.” O futuro do Pantanal e de outros biomas brasileiros depende, agora mais do que nunca, das decisões que faremos enquanto nação e humanidade.
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