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Ecologia

Amazônia em Colapso: O Empobrecimento da Floresta e a Escalada dos Crimes Ambientais

Queimadas reduzem em até 68% o estoque de carbono, ameaçam a biodiversidade e agravam a crise climática, enquanto crimes ambientais na região crescem 88% em um ano

Publicado em 14/12/2024 11:59 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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A Amazônia, com sua imensurável riqueza natural e importância global, enfrenta uma transformação alarmante. Longe da ideia de “savanização”, uma teoria amplamente debatida nos últimos anos, estudos recentes indicam que a maior floresta tropical do mundo está se tornando uma “floresta secundária” – mais pobre, menos biodiversa e com menor capacidade de capturar carbono. Esse cenário, agravado pelo aumento expressivo de crimes ambientais, coloca o Brasil e o mundo diante de um desafio civilizacional: preservar ou colapsar.

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Uma pesquisa liderada pelos cientistas Fernando Elias, da Universidade Federal Rural da Amazônia, e Maurivan Barros Pereira, da Universidade Estadual de Mato Grosso, revela um panorama desolador. Após analisar 14 áreas de floresta no arco de transição entre a Amazônia e o Cerrado, os pesquisadores constataram que as queimadas reiteradas não apenas empobrecem a biodiversidade local, mas reduzem em até 68% a capacidade de estocagem de carbono na vegetação.

A pesquisa, financiada pelo Instituto Serrapilheira, classificou as áreas em três categorias: florestas intactas, queimadas uma vez e aquelas atingidas por incêndios múltiplos. A diferença nos estoques de carbono foi gritante: florestas nunca queimadas armazenavam cerca de 25,5 toneladas de carbono por hectare, enquanto as áreas queimadas uma vez reduziam essa capacidade para 14,1 toneladas. Nas áreas afetadas por queimadas múltiplas, o estoque de carbono caía para 8 toneladas por hectare.

“Está ocorrendo uma secundarização da floresta. Ela se torna uma floresta mais pobre, com menos espécies, menos estoque de carbono e com menos indivíduos”, alerta Fernando Elias. Segundo o pesquisador, as espécies florestais mais sensíveis ao fogo, devido à fina camada de súber (casca), tendem a desaparecer após os incêndios, enquanto espécies típicas do Cerrado e generalistas se mantêm. Isso contribui para a extinção local de algumas espécies e empobrece a diversidade de toda a região.

Serviços ecossistêmicos ameaçados

Os impactos não param na biodiversidade. O empobrecimento da Amazônia compromete uma série de “serviços ecossistêmicos” cruciais para a humanidade. A floresta, que antes regulava o regime de chuvas e sequestrava carbono, perde progressivamente essa capacidade. O ciclo de evapotranspiração, responsável pelo “rio voador” que leva umidade para o centro-sul do Brasil, é enfraquecido, o que afeta a produção agrícola nacional.

O pesquisador Fernando Elias reforça: “Florestas queimadas não conseguirão mais fornecer os serviços ecossistêmicos que uma floresta pristina oferece. Isso compromete a regulação de chuvas, o sequestro de carbono e até a polinização”. Essa realidade expõe o paradoxo brasileiro: enquanto o desmatamento cresce, o país sente os efeitos em forma de crises hídricas, secas e perdas agrícolas.

O crime ambiental em números

A destruição da Amazônia não ocorre por acaso. O relatório da Polícia Rodoviária Federal (PRF) revela que os crimes ambientais na Amazônia Legal cresceram 88% entre agosto de 2023 e setembro de 2024. Nesse período, o número de operações de fiscalização quase triplicou (alta de 148%), impulsionado pelo Plano Amazônia: Segurança e Soberania (Amas).

O volume de apreensões de madeira aumentou 65%, enquanto a apreensão de minérios subiu 170%. A PRF também destacou a inutilização de balsas, tratores e até aviões utilizados no garimpo ilegal, uma das principais atividades criminosas da região. O Plano Amas, financiado pelo Fundo Amazônia, dispõe de R$ 1,2 bilhão para reforçar as operações.

“Além da abordagem de pessoas e veículos, as apreensões e as prisões de criminosos representam um forte golpe contra o crime organizado. Equipamentos usados no garimpo ilegal, como balsas e escavadeiras, foram inutilizados”, informou a PRF.

Mas, se a repressão é eficaz, ela não combate as causas estruturais do problema. O Código Florestal permite que até 80% das áreas de Cerrado sejam desmatadas legalmente, mesmo que essas áreas sejam “de transição” e possuam espécies e estoques de carbono amazônicos. Isso favorece a expansão do agronegócio e facilita a prática de crimes ambientais sob o manto da legalidade.

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Mudanças climáticas: as cheias e secas extremas

A degradação da Amazônia não afeta apenas a floresta, mas também o regime hidrológico. O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) Jochen Shöngart observou que o ciclo de secas e cheias está cada vez mais imprevisível. Entre 2000 e 2020, o número de cheias extremas foi o mesmo que o registrado durante todo o século XX.

A seca de 2023 foi a mais severa da história. O nível do Rio Negro em Manaus chegou a 14,75 metros, a menor marca registrada desde 1902. O impacto foi devastador. No Lago Tefé, no Médio Solimões, 209 botos morreram devido à hipertemia — uma consequência direta da evaporação das águas, que elevaram a temperatura para 39,1°C. “Isso foi uma catástrofe sem precedentes”, lamentou o pesquisador Ayan Fleischmann, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

Com a seca, lagos inteiros secaram 90%, isolando populações ribeirinhas e provocando falta de água potável. “Esse é o paradoxo da Amazônia: tem muita água e muita gente passando sede”, disse Fleischmann. Ele propõe a construção de cisternas para captar a água da chuva e a perfuração de poços artesianos mais profundos, uma vez que a região abriga grandes aquíferos subterrâneos.

O aquífero Amazônia: uma riqueza invisível

Pouco conhecida, a “caixa d’água subterrânea” da Amazônia é uma das maiores do mundo. Com várias camadas de aquíferos, alguns a mais de 250 metros de profundidade, essa reserva hídrica poderia garantir o abastecimento das comunidades ribeirinhas. No entanto, como alertou o professor Ingo Daniel Wahnfried, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o aquífero está exposto ao risco de contaminação por metais pesados, especialmente nas áreas urbanas.

“A água, em contato com os sedimentos, pode absorver elementos químicos prejudiciais à saúde, como o arsênio e o manganês”, disse o professor. Ele propõe que se faça um mapeamento dos aquíferos para definir onde seria mais seguro perfurar poços de abastecimento.

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Uma ameaça que vai além da Amazônia

O futuro da Amazônia não é um problema apenas brasileiro. A floresta representa um dos pilares de equilíbrio do clima global. Se o ritmo de desmatamento e queimadas continuar, a capacidade de absorção de carbono e o ciclo hidrológico serão irremediavelmente afetados. As consequências não serão apenas para o Brasil, mas para o mundo inteiro.

A preservação da Amazônia exige uma combinação de ação política, fiscalização efetiva e apoio às comunidades locais. Os recursos do Fundo Amazônia, aliados a iniciativas de preservação ambiental e recuperação de áreas degradadas, precisam ser potencializados. Mas isso exige vontade política.

O paradoxo amazônico – uma região rica em água, mas com pessoas sofrendo com a falta de acesso a ela – é o retrato do descaso histórico com a maior floresta tropical do mundo. Se nada for feito, não será apenas a biodiversidade a ser empobrecida, mas também a humanidade. Como disse o geógrafo Milton Santos, “não há globalização sem territorialidade”. A luta pela Amazônia é, em última análise, uma luta pelo futuro do planeta.


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