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Mato Grosso do Sul
Nos últimos quatro anos, ao menos 16 grandes casas de reza foram incendiadas no Estado
Publicado em 26/02/2025 9:12 - Semana On
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Nos últimos anos, a violência contra os Guarani-Kaiowá em Mato Grosso do Sul tem se intensificado de maneira alarmante. De janeiro de 2020 a fevereiro de 2024, ao menos 16 grandes casas de reza foram incendiadas, segundo o relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mostra reportagem da Agência Pública. Além da destruição dos espaços sagrados, rezadores foram assassinados e artefatos centenários foram reduzidos a cinzas.
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A escalada da violência não é um fato isolado. Ela se insere em um contexto mais amplo de disputas territoriais, avanço de igrejas neopentecostais sobre comunidades indígenas e negligência estatal no cumprimento das demarcações de terra. Em meio a esse cenário, os Guarani-Kaiowá buscaram apoio internacional, entregando um documento à embaixada da Alemanha no Brasil, denunciando perseguições e pedindo a proteção de sua cultura e direitos.
Ao mesmo tempo, novos conflitos eclodiram na região. No acampamento Pakurity, na Fazenda São José, indígenas e fazendeiros entraram em confronto direto, enquanto uma decisão judicial empacada perpetua a instabilidade e o risco de violência. Paralelamente, o governo federal anunciou a oficialização de novas terras indígenas, o que reacende a esperança dos povos originários, mas também intensifica a resistência dos setores ruralistas.
A luta dos Guarani-Kaiowá não é apenas pela terra: é pela sobrevivência física e cultural. E, no centro dessa batalha, o Brasil se vê diante de um dilema histórico: reconhecer e reparar os erros do passado ou perpetuar um modelo excludente que há séculos silencia seus povos originários.
A destruição das casas de reza e o avanço do neopentecostalismo
Os ataques a casas de reza Guarani-Kaiowá não são apenas atos de vandalismo, mas uma tentativa deliberada de apagar sua identidade cultural e religiosa. Para os Guarani, a casa de reza (opy) é o centro espiritual da comunidade, onde rezadores e rezadoras conduzem cerimônias ancestrais que conectam a etnia à terra e aos espíritos da natureza.
A destruição desses espaços é parte de um fenômeno mais amplo: o avanço de igrejas evangélicas, especialmente neopentecostais, sobre territórios indígenas. Movimentos religiosos fundamentalistas têm promovido conversões agressivas, muitas vezes demonizando práticas espirituais indígenas. O discurso do “combate ao paganismo” impulsiona ataques diretos contra rezadores e lideranças espirituais, além da destruição de artefatos sagrados.
O caso de Tito Vilhalva, líder Kaiowá de 106 anos, exemplifica essa tensão crescente. Para evitar conflitos, ele precisou sair de sua aldeia e percorrer 78 km para encontrar a comitiva alemã que visitou a comunidade. Durante o encontro, sua fala foi incisiva: “Respeitamos a sua Bíblia, mas deixem ela longe da nossa terra”. A frase sintetiza a resistência dos Guarani-Kaiowá à crescente interferência religiosa em suas tradições.
O documento entregue à embaixada alemã reforça a gravidade da situação e pede que o governo alemão pressione o Brasil a tomar medidas concretas. Entre as demandas estão a aceleração da demarcação de terras, o fortalecimento da Funai e ações contra a disseminação do discurso de ódio contra indígenas. O pedido de apoio à ONU para denunciar o risco de genocídio indígena reforça a gravidade do que está acontecendo no país.
As perseguições religiosas contra indígenas não são um fenômeno novo no Brasil. Desde o século XVI, a conversão forçada fez parte da colonização, eliminando crenças, línguas e tradições. No século XXI, o método pode ter mudado, mas a lógica da imposição cultural persiste, agora impulsionada pelo poder político e econômico de segmentos religiosos.
O conflito na Fazenda São José: um novo capítulo da luta pela terra
Enquanto a luta dos Guarani-Kaiowá pela preservação de sua cultura ganha contornos internacionais, a disputa pela terra se mantém como a raiz dos conflitos no Mato Grosso do Sul. No dia 23 de fevereiro, a ONG Aty Guasu denunciou um ataque ao acampamento Pakurity, localizado na Fazenda São José, em Dourados. Vídeos registraram momentos de tensão, com disparos de rojões e correria.
O acampamento existe há pelo menos 15 anos, mas os indígenas agora enfrentam uma nova tentativa de expulsão. Os fazendeiros alegam que os Kaiowá avançaram sobre áreas cultiváveis, enquanto os indígenas afirmam que estão apenas reivindicando seu direito ao território tradicional.
O caso se arrasta na Justiça. Uma decisão de reintegração de posse chegou a ser concedida, mas o processo travou na segunda instância. Para os fazendeiros, a demora representa um risco econômico; para os indígenas, significa a continuidade de uma luta que já custou vidas.
A ausência de uma solução definitiva mantém a tensão elevada e abre caminho para mais confrontos violentos, como os registrados em Douradina no ano passado. Sem a presença do Estado, as disputas continuam sendo resolvidas à força.
A promessa de Lula e o impasse da demarcação de terras
Em meio a esse cenário, o governo federal planeja avançar na demarcação de terras indígenas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve visitar Mato Grosso do Sul entre março e abril para oficializar a Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, em Antônio João.
A demarcação foi possível graças a um acordo mediado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que prevê a indenização de R$ 144,8 milhões aos fazendeiros que ocupavam a área. A estratégia pode representar um novo modelo para destravar outras demarcações, evitando confrontos violentos e assegurando direitos tanto aos indígenas quanto aos proprietários rurais.
Além da oficialização da terra, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) lançou o Fórum Territórios Ancestrais, um espaço de diálogo entre o governo e os povos originários. A iniciativa busca discutir as demandas indígenas e criar um plano de ação mais eficaz para a regularização de territórios.
No entanto, mesmo com avanços institucionais, a resistência dos setores ruralistas continua forte. A retórica do marco temporal, que defende que indígenas só teriam direito a terras que estivessem ocupando em 1988, segue sendo utilizada como argumento para barrar demarcações. A proposta já foi rejeitada pelo STF, mas ainda encontra respaldo no Congresso Nacional, onde a bancada ruralista tem forte influência.
O futuro dos Guarani-Kaiowá e a encruzilhada do Brasil
A luta dos Guarani-Kaiowá é um retrato da encruzilhada em que o Brasil se encontra. De um lado, há um passivo histórico de violência e usurpação de terras indígenas; de outro, há um presente marcado por disputas políticas e econômicas que dificultam avanços concretos.
Os incêndios a casas de reza, os ataques armados e os assassinatos de lideranças são sintomas de um problema estrutural que vai além da questão fundiária: trata-se do direito à existência plena dos povos indígenas em um país que ainda resiste a reconhecê-los como parte essencial de sua identidade.
As demarcações de terra, a proteção das tradições culturais e o combate à intolerância religiosa são passos fundamentais para evitar que os Guarani-Kaiowá desapareçam. Mas para que isso ocorra, é preciso mais do que promessas e acordos políticos – é necessário um compromisso real do Estado brasileiro com a justiça histórica e os direitos humanos.
Nos próximos meses, a comunidade internacional, os movimentos indígenas e a sociedade civil estarão atentos aos desdobramentos desse conflito. A questão que fica é: o Brasil finalmente dará aos Guarani-Kaiowá o direito de viver em sua própria terra? Ou continuará perpetuando um ciclo de violência e apagamento cultural que se repete há mais de cinco séculos?
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Essa intolerância e perseguição acontece também com relação às religiões Afro-brasileiras, apesar da garantia jurídico-legislativa da liberdade religiosa e de culto.