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Mato Grosso do Sul

Casal de MS condenado por golpe é símbolo do delírio coletivo bolsonarista

Aposentados foram sentenciados a 14 anos de prisão e R$ 30 milhões em multas

Publicado em 27/11/2025 12:51 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou, por unanimidade, o casal Clarice Custódio Jacomeli e Cláudio José Jacomeli a 14 anos de prisão pelos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Além da pena, os dois terão que pagar R$ 30 milhões por danos morais coletivos, valor a ser dividido entre os demais réus do processo. Moradores de Naviraí, interior do Mato Grosso do Sul, e até então aposentados com uma vida pacata, os Jacomeli são exemplo do custo pessoal, político e jurídico da adesão à agenda extremista promovida pela extrema direita bolsonarista.

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O casal foi considerado culpado por cinco crimes graves: abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e associação criminosa armada. A sentença foi proferida em sessão virtual do STF realizada entre 14 e 25 de novembro, com relatoria do ministro Alexandre de Moraes. O ministro Cristiano Zanin acompanhou o voto, com ressalvas.

A condenação inclui 12 anos e 6 meses em regime fechado, além de 1 ano e 6 meses em regime aberto ou semiaberto e 100 dias-multa, cada um equivalente a 1/3 do salário mínimo. Os nomes dos réus foram incluídos no rol de culpados, e o processo seguirá para execução penal após a decisão transitar em julgado.

Da tranquilidade à radicalização

Cláudio, analista judiciário aposentado, e Clarice, ex-professora da rede pública, foram presos em flagrante nos atos terroristas que destruíram as sedes dos Três Poderes em Brasília. A participação do casal nos atos — com registro em imagens e provas documentais — contrasta com sua trajetória anterior, marcada pela estabilidade de servidores públicos e pela vida familiar no interior sul-mato-grossense.

O salto do anonimato para a manchete nacional é um retrato do processo de radicalização política que tomou parte da população brasileira nos últimos anos, sobretudo a partir da eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e da disseminação de discursos conspiratórios e antidemocráticos. Movidos por uma convicção ideológica estimulada por desinformação em massa, muitos cidadãos comuns se tornaram agentes de atos golpistas — e agora enfrentam as consequências legais.

A destruição do cotidiano

Em 2024, a defesa do casal tentou obter o desbloqueio total de suas contas bancárias, alegando que ambos dependem da aposentadoria para sobreviver. A Procuradoria-Geral da República (PGR) reconheceu a necessidade de garantir ao menos o valor de um salário mínimo mensal a Cláudio, para custear medicamentos de uso contínuo. Posteriormente, após análise de extratos, o STF estendeu a liberação também a Clarice, devido a comprovados gastos com alimentação e remédios.

Apesar disso, o bloqueio patrimonial segue em vigor como forma de assegurar a reparação dos danos causados ao patrimônio público. A multa de R$ 30 milhões — destinada ao fundo previsto na Lei 7.347/1985, voltado à reparação de danos coletivos — é simbólica não só pelo valor, mas pelo reconhecimento da gravidade dos crimes contra a democracia brasileira.

O 8 de janeiro e seus herdeiros políticos

A tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 não foi um evento espontâneo. Ela foi precedida por anos de corrosão institucional, ataques ao Supremo Tribunal Federal, deslegitimação das eleições e incentivo explícito à desordem por parte de lideranças políticas da extrema direita. O próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, é investigado por participação em um plano de ruptura institucional.

Como observa o cientista político Christian Lynch, da UERJ, “a extrema direita bolsonarista não apenas criou um ambiente de desconfiança permanente nas instituições democráticas, como construiu uma militância disposta a ações de ruptura”. O resultado prático disso foi a conversão de aposentados, caminhoneiros, donas de casa e pequenos empresários em protagonistas de um atentado contra a ordem constitucional.

Para a historiadora Lilia Schwarcz, professora da USP, “a radicalização bolsonarista foi alimentada pela ideia de que o país vivia sob um regime ilegítimo e que os patriotas deveriam salvar a nação”. Esse delírio coletivo teve consequências reais — e, como mostra a condenação dos Jacomeli, destruiu biografias e famílias.

A Justiça e o recado institucional

As condenações do STF até aqui têm reforçado a linha dura da Corte no enfrentamento aos crimes de 8 de janeiro. Mais de 70 réus já foram condenados, com penas que variam entre 12 e 17 anos de prisão. A estratégia adotada pelo ministro Alexandre de Moraes é clara: responsabilizar não apenas os mentores e financiadores, mas também os executores da tentativa de golpe.

Em um país historicamente marcado pela impunidade de golpistas — como no caso do golpe civil-militar de 1964, cujos autores nunca foram julgados —, o processo de responsabilização pelo 8 de janeiro representa uma inflexão institucional importante.

Vidas destruídas, país em reconstrução

O caso do casal Jacomeli, embora não seja isolado, é emblemático. Mostra como a radicalização política destrói não apenas a democracia, mas também as vidas de quem, seduzido por discursos de ódio e teorias conspiratórias, abandona a razão em nome de uma causa autoritária.

A sentença do STF é um alerta: a democracia não é inegociável — e quem atenta contra ela deverá responder, independentemente da origem, idade ou ocupação.

Mas é também um retrato doloroso de um Brasil que ainda tenta se curar das fraturas causadas pelo bolsonarismo. Um país em que aposentados de uma cidade do interior podem acabar presos por acreditarem que estavam “salvando a pátria”.

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